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SEM BANG, SÓ CLIC

setembro 26, 2011

Eu sempre faço a coisa errada. E quando isso não acontece, é com certeza porque, de alguma forma, eu me enganei. Isso, como diziam antigamente, é líquido e certo. Minhas dúvidas pairam, portanto, sobre os motivos que me levaram a estabelecer esse tipo de comportamento. Não sei se é algo de origem cármica, atávica, ou se foi algo desenvolvido a partir de meu medo infantil de errar e decepcionar os outros.
Seja como for, eu sempre faço a coisa errada, tomo a decisão errada, digo a palavra errada no momento errado.
Às vezes até me assombro com essa minha capacidade “paranormal” de fazer merda. Se conseguisse usar esse “dom” para fazer dinheiro ou ajudar a humanidade, certamente estaria podre de rico ou seria venerado como santo.
De qualquer forma, é isso.
Espero que as pessoas que lerem isto compreendam as razões que me levaram a tomar a atitude que estou tomando.
Pode parecer a algumas dessas pessoas, ou quem sabe a muitas delas, que os motivos aqui expostos não justificariam um ato tão radical. Garanto que essas pessoas nunca se sentiram como eu me sinto, isto é, tendo que conviver com o fato conclusivo e irreversível de saber que sempre faço a coisa errada (por mais que eu, sinceramente, tente acertar).
Assim, só me resta agradecer a compreensão dos que me compreenderam e lamentar a incompreensão dos que não compreenderam.
Enfim, de um jeito ou de outro, obrigado a todos pela atenção.

Cuidadosamente, ele colocou o papel branco escrito com tinta preta em cima da mesa da cozinha e prendeu uma das pontas no vaso de centro com flores murchas, de modo a que o bilhete ficasse bem visível para quem entrasse pela porta que dava para a sala, mas também para quem, por acaso, entrasse pela porta que dava para o quintal.
Encostou o cano no ouvido direito e apertou o gatilho. No lugar do BANG, ouviu apenas um CLIC.
Percebeu então que tinha esquecido de carregar a arma.

ENTREVISTA

setembro 18, 2011

-Não estou no clima.

- Mas são apenas algumas perguntas, bem rápidas.

- Cara, tem alguém me esperando lá fora. Me procura depois.

- Quando?

- Sei lá, depois.

- Mas são apenas algumas perguntas.

- Você já disse isso.

- Então, posso começar?

- Buceta!

- Como?

- Buceta!

- Que buceta?

- É a resposta a sua primeira pergunta.

- Mas eu ainda não fiz a pergunta.

- Não tem importância. A resposta é buceta!

- Mas eu ainda não perguntei nada.

- Você já disse isso.

- Mas o que é buceta afinal?

- Você não sabe o que é buceta?

- É claro que eu sei o que é buceta.

- Então, é a resposta pra todas as perguntas que você me fizer. 

- Mas eu não fiz pergunta nenhuma.

- Pois é, então agora você senta lá, na sua sala, na sua mesa, digita as perguntas na tela do seu computador e vai respondendo: buceta, buceta, buceta…Fácil né? Té mais!

“MERDA, SÓ MERDA.”

setembro 15, 2011

Ele tropeçou várias vezes antes de conseguir subir no pequeno palco improvisado e, enfim, segurar o microfone, que alguém próximo pacientemente tentava lhe entregar há algum tempo. Ficou alguns instantes mudo, olhando fixamente a plateia. Então começou:

“Merda, só merda. Então não adianta essa história de que as respostas estão aqui dentro. Tentei, parei, fiquei em silêncio, senti o coração bater, etc., etc., etc., mas só achei merda. Merda, merda e mais merda.

“Tudo bem, talvez até exista alguma coisa interessante escondida em algum lugar, mas deve estar soterrada debaixo das toneladas de merda que eu engoli durante toda a vida – ou que alguém me enfiou goela abaixo, não importa. A questão é que aqui só tem merda. Portanto, essa busca da qual vivem falando vai dar em nada, isto é, no meu caso, vai dar em merda.

“Nem a comida que ingeri, há pouco, no jantar, escapa ao ciclo. No momento ela está sendo processada pelo meu estômago e meus intestinos e, em breve, será devolvida ao exterior. Em forma de que? De merda, é lógico.

“Sim, porque é um ciclo, eu disse que é um ciclo. Como só há merda aqui dentro, eu, em todas as ocasiões e situações, sempre e só compartilho minha merda interior com o exterior. E, quando eu não engulo merda, como no caso da comida que eu ingeri há pouco, dou um jeito de também transformá-la em merda e lançá-la no mundo exterior.

“É claro que esse processo – de não engolir merda, mas expelir merda – não se refere exclusivamente a comida, muito pelo contrário. É um processo bem amplo.

“Aí vocês vão dizer: ah, mas esse tipo de coisa acontece com todo o ser humano. Só que isso, definitivamente, não me interessa, mesmo que possa até ser verdade. A questão é que estou falando da minha merda, a única merda que me interessa. A merda alheia é problema dos outros, de vocês, sei lá.

“O ponto é que me mandaram procurar aqui dentro. Daí eu fui lá, quer dizer, vim aqui, e só encontrei merda…merda, merda e mais merda. Então estou aqui, cheio de merda pra compartilhar com meus semelhantes, com todos vocês. Amém!”

Jogou o microfone longe, desceu do palco, tropeçou várias vezes de novo e deu o fora. Pela porta dos fundos.

VOCÊ SABE

julho 19, 2011

Você sabe, há apenas uma certeza. Você já descobriu isso, já disse isso, já escreveu isso, várias e várias vezes.

Tudo o mais que você descobriu, disse e escreveu é besteira. E vai continuar sendo, porque há apenas uma certeza, e você sabe disso.

Aliás, sempre soube, mesmo quando fingia não saber e fingia mais ainda, fingindo que todos fingiam não saber.

Porque você sabia, e todos sabiam.

Afinal, era a única coisa que existia então. E a única coisa que continua existindo agora.

Todas as outras coisas não existem, nunca existiram, nunca vão existir.

Mas todos fingiram tanto que todos esqueceram que estavam fingindo.

Ou acreditaram que estavam acreditando.

Enfim, onde nós estávamos mesmo?

Ah, sim. Há apenas uma certeza. Você sabe!

ACIDENTES ACONTECEM…

junho 16, 2011


Os fios estão bem na sua frente. Vermelho, azul e verde. Você sabe a sequência em que devem ser desconectados para, digamos, evitar acidentes. Vcoê foi treinado para isso.

É tudo uma questão de lógica, você pensa, enquanto observa os fios: um azul, outro verde, outro vermelho. Incrível como ainda há gente que se confunde, e você não consegue entender como isso acontece.

Não importa, você conclui: é tudo questão de lógica.

Não há, portanto, motivo para esse suor frio escorrendo da sua nuca pescoço abaixo. Como também não há razão para suas mãos, de repente, estarem úmidas.

Não, nada disso está realmente acontecendo. Você deve estar imaginando coisas. Uma breve alucinação, mero sintoma de um possível e leve estresse. Sim, é somente isso.

Interessante, essa sensação nunca surgiu antes. Você sempre foi lá, desconectou os fios, fechou a maleta e deu o fora. Agora está aí, olhando fixamente para esses fios, hipnotizado. Vermelho, azul, verde e amarelo.

 Amarelo? Não, não há nenhum fio amarelo. Apenas um verde, outro azul, outro vermelho. Só três fios, três: um azul, outro vermelho, outro verde. Três e somente três, e não quatro, e nunca amarelo.

Tudo é uma questão de lógica, apenas e tão somente lógica. Amarelo, azul, vermelho. Espere! Você disse azul,vermelho e amarelo? E onde está o verde? O verde!  Apenas três fios, lembra? Três, nenhum deles amarelo.

Afinal que diabos está acontecendo? E essa merda de suor gelado ainda deslizando de sua nuca pescoço abaixo? E essas mãos úmidas? E esse fio amarelo?

Porra, não há nenhum fio amarelo aí, você esqueceu? Só vermelho, azul e verde. Lógica, questão de lógica. Três, apenas três, três fios amarelos. Não! Amarelo, não. Apenas três fios, azuis, vermelhos e verdes. Nove, no total.

Ei, você está se perdendo de novo. Volte a fita, vá com calma. Apenas três fios, esses três fios que estão aí, nas suas mãos, bem próximos à sua cara. Você precisa desconectá-los na sequência correta para, digamos, evitar acidentes. Uma questão de lógica, pura e simples lógica. Você foi treinado para isso.

Então você puxa primeiro o segundo fio amarelo, depois o primeiro fio amarelo e, por fim, o último fio amarelo.

Incrível, tão simples que até uma criança seria capaz de fazer. Claro, se as crianças tivessem um senso mínimo de lógica.

Você respira fundo, bem fundo, e continua respirando fundo, ritmadamente, cada vez mais fundo e mais ritmadamente, até sentir seus batimentos cardíacos voltarem ao normal.

Sua nuca não está mais fria e úmida, suas mãos estão secas. Uma intensa e arrebatadora sensação de paz e totalidade envolve você como um grande casulo aquecido.

Pronto, passou.

Tudo está bem agora.

Interessante, esse sentimento  nunca surgiu antes também. Você sempre foi lá, desconectou os fios, fechou a maleta e deu o fora. E, por falar nisso, onde a maleta? Ela devia estar bem aí, ao seu lado, ao alcance da sua mão direita, mas não está. Sua mão tateia o vazio até tocar alguma coisa gosmenta, pegajosa.

Como tudo ficou escuro quando você desconectou o último fio amarelo, você não consegue ver onde está sua maleta, nem identificar essa coisa gosmenta e pegajosa que você tocou, depois apertou e agora está grudada em sua mão direita.

Com a mão esquerda, você tenta limpar sua mão direita, mas elas acabam ficando grudadas. Quanto mais você tenta afastá-las, mais elas ficam presas uma na outra.

O estranho é que isso não chega a incomodar muito, pelo menos não tanto quanto a sensação de que suas pernas, do nada, pareceram crescer alguns metros, talvez muitos metros, entre seus pés e suas virilhas.

Então você percebe que essa sensação de pernas elásticas não pode ser  real, porque, na verdade, você não consegue sentir seus pés e, assim, não há como saber se suas pernas cresceram muitos metros entre seus pés e suas virilhas, até porque você descobre que também não consegue  sentir suas virilhas.

Você aperta os olhos e tenta enxergar alguma coisa, quem sabe sua maleta, através da escuridão, mas não consegue ver um palmo diante no nariz. Aliás, você gostaria, neste momento, de coçar seu nariz, apenas porque sabe que isso é impossível, já que suas mãos estão grudadas.

Mas, espere um pouco. Estranho, suas mãos agora não estão mais grudadas. Então você tenta tocar seu nariz com a ponta do indicador da mão direita, mas você não consegue ter a noção exata de para onde encaminhar seu dedo em direção à ponta do seu nariz. Seu polegar vaga no escuro, de um lado para o outro, para cima e para baixo, até, de repente, tocar naquela coisa pegajosa e grudenta que você já tocou antes, com sua mão direita.

Você fica com raiva e enfia o dedo bem fundo na coisa pegajosa e grudenta e sente como se a sua mão toda estivesse sendo sugada para dentro dessa coisa nojenta. Agora metade de seu braço direito já está dentro da coisa. Você tenta puxar o braço, mas percebe que está completamente sem forças.

Você começa a desconfiar que algo muito sério está acontecendo.Tenta repassar os fatos a partir do momento em que  puxou o último fio amarelo e tudo ficou escuro, mas não consegue lembrar de absolutamente nada, embora tenha certeza de que tudo aconteceu minutos ou mesmo segundos atrás.

Você sente um gosto horrível na boca. Oh, não, a coisa pegajosa e nojenta está agora grudada em seus lábios, o que signifca que sua mão direita, seu braço direito e pelo menos metade do seu rosto já foram sugados pela coisa. Mas você não sente dor, apenas um terrível enjôo e vontade de vomitar, vomitar muito. Mas como vomitar com os lábios grudados por essa coisa nojenta?

Você procura se controlar. E, curiosamente, tenta fazer isso pensando nos fios que há pouco você desconectou, os três fios amarelos. Espere um pouco, não havia nenhum fio amarelo, lembra? E você desconectou três fios amarelos. Como isso é possível?

Fique calmo, fique calmo, você implora para si mesmo, mas algo está subindo como um míssil a partir de seu estômago em direção à sua boca. E sua boca está grudada pela coisa nojenta, e o míssil está subindo, e sua boca está grudada, e o míssil está subindo…e você desconectou os três fios, três fios amarelos, mas não, não poder ser, não existia nenhum fio amarelo, lembra? Então, como é possível?

O míssil, a sua boca grudada, a coisa pegajosa e nojenta, as luzes se acendendo de novo, fortes, muito fortes, um grande clarão, sua maleta voando em direção…em direção de onde?

Não, não importa, nada disso importa agora. É tudo uma questão de lógica, pura e simplesmente lógica.

E, afinal, acidentes acontecem…

 

NÃO TÃO DRAMÁTICAS

junho 7, 2011

Tudo bem. Você tinha outros planos, mas eles falharam. Agora estão todos lá embaixo, misturados com os destroços retorcidos do carro que passou reto pela curva da estrada que margeia o precipício.

Precipícios são todos iguais, como destroços de carros que rolaram morro abaixo, como planos detonados, como todos os tipos de perdedores que sabem que sempre vão perder, mas não conseguem deixar de apostar a última ficha, que nunca é a última ficha, porque nunca existe uma última ficha para um perdedor convicto de sua missão.

Pois é, você acaba de acordar e descobre que não escreveu o romance da sua geração, não compôs a canção que traduz o espírito de uma época, muito menos se transformou num herói da classe trabalhadora. E, como a janela está fechada e as cortinas cerradas, você não sabe se é de manhã, de tarde ou de noite. Por isso você continua deitado, pensando que esse tipo de coisa não devia estar acontecendo de novo.

Acordar sem noção de tempo era coisa do passado, quando suas veias, seus pulmões e principalmente seu cérebro viviam entupidos de substâncias exóticas e explosivas.

Contudo, está acontecendo outra vez, bem neste momento. Mas você não tem coragem de levantar, puxar as cortinas, abrir a janela e descobrir se está claro ou escuro lá fora.

Lá fora onde?

Pois é, você acaba de perceber que também não faz a mínima idéia do que existe lá fora, seja dia ou seja noite. Isso obviamente significa não apenas que você não sabe onde está, mas também que não lembra como veio parar nesse quarto escuro onde acaba de acordar.

Você podia jurar que isso também nunca mais iria acontecer, pois era coisa de um passado que parecia cada vez mais remoto. No entanto, você acaba de acordar, de novo, sem noção de espaço.

A quase esquecida, mas muito conhecida sensação de ausência de tempo e espaço faz você começar a suar, e muito, e frio.

A imagem do carro se espatifando no abismo e se incendiando em seguida permanece bem nítida na sua cabeça. Então você conclui que deve ter sonhado com isso pouco antes de acordar.

Todas essas coisas, porém, embora assustadoras a ponto de fazer você suar frio em cima dessa cama desconhecida, nesse quarto escuro, nesse lugar que você não sabe onde é, não são tão aterrorizantes quanto estar sentindo esse peso no peito.

Você não sabe onde, como nem quando, mas tem certeza de que a sensação desse peso, aí dentro, não surgiu agora. Aliás, você também está certo de que esse peso vem aumentando lenta e progressivamente há algum tempo. Quanto tempo? Lógico, você não faz idéia, mas sem dúvida está ficando um pouco mais pesado a cada dia.

 É exatamente nesse ponto que reside o problema. Você, como sempre fez antes com coisas desconfortáveis, desgastantes e aparentemente insolúveis, poderia também acabar se acostumando com o peso, desde que ele, o peso, fosse pelo menos estável. Mas como aprender a conviver com uma coisa que é sempre maior a cada dia? Como se preparar para carregar 7,5 quilos no dia seguinte, se quando você acorda o ponteiro da balança já está bem próximo da marca dos 8 quilos?

Você compreende que, desta vez, está irremediavelmente fodido. Por isso você acha bem provável a hipótese de que esse peso dentro de você continue aumentando e aumentando e aumentando, até que, uma hora qualquer, você acaba simplesmente afundando na terra.

Pensando bem, isso não deixaria de ter algumas vantagens. Você nem ninguém, por exemplo, precisaria gastar dinheiro num caixão, nem pagar alguém pra tocar fogo no seu corpo.

Outra grande vantagem é que não haveria nenhum idiota no seu funeral discursando sobre como seria bom se você ainda estivesse vivo, mas, já que você estava morto, certamente teria ido para um lugar muito melhor do que aqui.

Uma vantagem, no entanto, superaria todas as outras: você não precisaria nunca mais conviver com a pessoa que você se tornou e que, no final das contas, foi a responsável por toda essa merda, até pelo fato de você ter ficado tão pesado que afundou na terra.

Você se livraria dessa pessoa para sempre. Isso, é lógico, se aquela gente que acredita que existe um negócio chamado eternidade estivesse mesmo totalmente errada.

Então você resolve fechar os olhos e dormir mais um pouco.

Quem sabe, quando você acordar de novo, as coisas não estarão um pouco melhores ou, pelo menos, não tão dramáticas.

SATORI EM BAGDÁ

maio 23, 2011

Absurdo não é viver nessa guerra sem fim, mas sim sentir que não há nada a fazer sobre isso. Você está nas cordas. Os socos em sequência fazem você beijar a lona. O gosto do sangue se mistura à sensação de pedaços de dentes se mexendo de um lado para o outro na boca. Ainda assim você se levanta antes do juiz gordo e careca conseguir contar até dez. Dessa vez, vai ser diferente. Você vai, enfim, descobrir um jeito de acabar com a porra dessa guerra.

Mas logo você percebe que a coisa ficou ainda mais violenta. Então tenta arrancar as entranhas com as mãos. Apesar da dor insuportável, não consegue parar. Na guerra não há espaço para compaixão. É privilégio para fracos, covardes, desertores. E eles vivem te assegurando que você não é um deles. E eles sempre têm razão, porque já lutaram em mais guerras do que o número de anos que você já viveu até hoje. E você descobre que já não se lembra mais quantos anos já viveu até hoje. Tudo passou muito rápido.

No momento, porém, isso não tem importância, porque você acorda no dia seguinte, olha para o chão e procura por suas entranhas. Elas deviam estar bem ali, no chão, ao lado da sua cama. Mas não estão. Tudo está limpo, muito limpo. Até você está limpo. Limpo e inteiro. Ao que parece, suas entranhas ainda estão dentro de você.

Então você se levanta, pronto para continuar. Continuar a guerra. Começa a bater forte com a cabeça contra a parede do quarto. De repente percebe que já está bem em frente ao espelho do banheiro.  Cacos brilhantes de diversos tamanhos se espalham pelos ladrilhos, misturados com o sangue que esguicha do seu rosto.

Você perde algum tempo tentando recompor a imagem do seu rosto refletida nos pequenos caquinhos de espelho ensangüentados espalhados pelo chão do banheiro, mas logo desiste. Não há dúvida de que você está em desvantagem perante o inimigo. Precisa revidar de imediato. E revida.

Os dedos da sua mão direita se quebram em vários pedaços ao atingirem com toda a força possível a porta do guarda-roupa. A dor foi forte e você urrou como um gorila que esmaga os bagos contra o galho da árvore onde estava sentada a última fêmea do grupo ainda no cio.

O golpe, contudo, foi inevitavelmente necessário. Retaliar o ataque inimigo de imediato é vital para impedir que ele deduza que você está começando a ficar debilitado, vulnerável, mesmo que você, no fundo, saiba que é exatamente isso o que está acontecendo. Na verdade, você não está apenas muito debilitado e vulnerável. Você está literalmente fodido, mas esse é um segredo de estado que até mesmo seus últimos e poucos neurônios ainda ativos se recusam a revelar, mesmo sob a mais cruel e infinita das torturas.

É justamente nesse ponto que eles lhe garantem que a melhor defesa é um ataque. E claro, como sempre, eles devem saber do que estão falando. Já mataram muito mais gente do que vários terremotos e furacões, incendiaram vilas, povoados, fizeram cidades sumir dos mapas, acabaram com países e até exterminaram raças que hoje ninguém mais lembra que existiram, foram absolvidos em mil julgamentos de crimes contra a humanidade, condecorados com mil medalhas por atos de extremo heroísmo e inestimáveis serviços patrióticos prestados aos seus respectivos governos.

Então parece lógico que você precisa levar a sério o que eles dizem. Deve atacar o quanto antes, para evitar que o pior aconteça, embora você já não tenha a mínima noção do que seria esse pior que todos eles se esforçam tanto para evitar. De qualquer modo, você sabe que há uma guerra lá fora, ou aqui dentro, ou lá fora e aqui dentro, ou aqui dentro e lá fora. Afinal, você já não sabe mais onde os combates estão sendo travados nos últimos tempos, embora as explosões e os tiros pareçam a cada dia mais perto, lá fora e aqui dentro. Talvez mais perto aqui dentro do que lá fora. Ou talvez ao contrário. A cada explosão e a cada tiro sua noção de dentro e fora se alterna e se confunde em ritmo progressivamente alucinante, ou aliciante. Foda-se!

Seja como for, mesmo que essa guerra talvez nunca mais possa ser vencida ou justificada ou explicada – e você nem saiba direito onde ela está sendo travada neste exato momento -, ela precisa ser lutada até o último homem, até o último pedaço de dente cuspido da sua boca depois do último soco que te faz beijar a lona, até a última entranha arrancada de dentro de você por suas próprias mãos, até o último pedaço de dedo esmigalhado contra a porta do guarda-roupa, até a última gota do sangue misturado aos cacos brilhantes de espelho espalhados no chão de seu banheiro.

A melhor defesa é um ataque. E é óbvio que eles sabem do que estão falando. Então, só pra clarear um pouco as idéias, você engole alguns calmantes e anfetaminas, obviamente empurrados goela abaixo com água mineral. Vodca ou gim seria algo muito radical e você não quer saber de radicalismo, mas sim de um plano sutil que engane o inimigo a respeito da sua total, absoluta e inconfessável vulnerabilidade.

A melhor defesa é um ataque. Mas exatamente o que essa porra significa, você se pergunta, enquanto vomita na privada e percebe que uma razoável quantidade do vômito caiu também na sua camisa.

Já havia acontecido inúmeras vezes antes, mas era sempre estranho acordar com aquela sensação de que alguém estava armando alguma coisa perigosa para você, alguma coisa que poderia definitivamente foder com você de uma vez por todas.

No entanto, era melhor deixar isso pra lá por enquanto e se concentrar em trocar os curativos dos pulsos. Você não fazia isso há uns dois dias pelo menos e aquela merda podia acabar infeccionando e provocando problemas realmente graves.

Nada radical, nada radical, você repete em voz alta, enquanto tenta nervosamente desenfaixar os pulsos. Aliás, aquilo, dos pulsos, havia sido uma coisa realmente estúpida. Estupidamente burra e estupidamente radical.

Consegue primeiro retirar a atadura do pulso esquerdo, depois, do direito. Os cortes estão com aspecto razoável, embora ainda sem nenhum sinal de cicatrização.

Aperta os pulsos, tentando ver se consegue fazer sangrá-los de novo. Não parece uma idéia nem um pouco sensata, mas você continua fazendo isso, sentado na privada, enquanto, como sempre acontecia quando estava com sua bunda em cima de uma privada, se esforça ao máximo para tentar fazer com que seus intestinos funcionassem sem que uma grande e longa batalha precisasse ser travada para liberar o que precisava ser liberado, o que raramente acontecia.  

Não demora muito para que seus pulsos, pressionados alternadamente por você, primeiro o esquerdo, depois o direito, comecem a sangrar de novo, e bastante, no chão do banheiro, bem próximo à privada.

Logo, porém, você deixa de prestar atenção nas poças de sangue que se formam ao redor da privada, já que seus intestinos começam finalmente a se movimentar – e de forma rápida e violenta. Você começa a sentir então que sua bunda é constantemente molhada pelos respingos que a grande quantidade de bosta que sai do seu rabo provoca, ao bater com força na água do fundo da privada.

Conclui que terá que lavar o rabo no chuveiro, quando aquele bombardeio de merda finalmente acabar, o que parece já estar começando a acontecer, já que suas entranhas dão os primeiros sinais de que estam finalmente se acalmando.

Mas aí você percebe que, para lavar a sua bunda lambuzada dos respingos de toda aquela bosta que saiu do seu rabo, bateu na água do fundo da privada e voltou em pequenas gotas para o seu traseiro, você terá de sujar os seus pés, que estão descalços, naquele sangue todo que continua a escorrer dos seus pulsos para os ladrilhos do chão do banheiro, próximo à privada onde você continua sentado, sentindo suas entranhas irem lentamente se acalmando.

Talvez seja melhor ficar ali, imóvel, sentado na privada, esperando o resto do sangue escorrer dos pulsos. Pelo menos você não vai precisar lavar a bunda quando terminar de cagar, nem sujar os pés.

Os números de 2010

janeiro 2, 2011

Os duendes das estatísticas do WordPress.com analisaram o desempenho deste blog em 2010 e apresentam-lhe aqui um resumo de alto nível da saúde do seu blog:

Healthy blog!

O Blog-Health-o-Meter™ indica: Este blog é fantástico!.

Números apetitosos

Imagem de destaque

Um Boeing 747-400 transporta 416 passageiros. Este blog foi visitado cerca de 4,300 vezes em 2010. Ou seja, cerca de 10 747s cheios.

 

Em 2010, escreveu 7 novo artigo, aumentando o arquivo total do seu blog para 96 artigos. Fez upload de 19 imagens, ocupando um total de 2mb. Isso equivale a cerca de 2 imagens por mês.

The busiest day of the year was 21 de janeiro with 65 views. The most popular post that day was A HISTÓRIA DE JOÃO E JEREMIAS.

De onde vieram?

Os sites que mais tráfego lhe enviaram em 2010 foram search.conduit.com, captaincrawl.com, omeulugar.wordpress.com, facebook.com e mail.live.com

Alguns visitantes vieram dos motores de busca, sobretudo por velhos safados, a bruxa do espelho, lagartixa, bruxa do espelho e dragoes

Atracções em 2010

Estes são os artigos e páginas mais visitados em 2010.

1

A HISTÓRIA DE JOÃO E JEREMIAS janeiro, 2010

2

O ANO DA LAGARTIXA, O LIVRO maio, 2007
15 comentários

3

A BRUXA NO ESPELHO agosto, 2008
7 comentários

4

DIÁLOGOS DE PLANTÃO julho, 2007
27 comentários

5

VELHOS SAFADOS abril, 2010
1 comentário

SOBREVIVER

maio 2, 2010

Tentei explicar a ela
De onde vinha a luz
Ou o que eu imaginava que fosse a luz
Sobrevivente de toda a escuridão

Tentei abrir o jogo
Sem saber que cartas tinha na mão
Onde ficava o ponto de ônibus mais próximo
E se ainda tinha dinheiro no bolso

Tentei dizer de onde vinha o medo
A loucura
E a promessa de salvação

E por que
Apesar tudo
Eu queria sobreviver
Seja lá ao que fosse


VELHOS SAFADOS

abril 28, 2010

Às vezes pensava neles
Vagando por aí
Porque pessoas como eles
Sempre vagam por aí
Bem assim
Por aí

E um se chamava Henry
E outro se chamava Charles
E sempre andavam por perto
Muito perto
Às vezes quando eu abria a porta do banheiro
Às vezes quando saía pra tomar ar
Numa noite abafada de verão
Bem assim
Por aí

Às vezes quando as coisas iam bem
Às vezes quando as coisas iam mal

Então
Às vezes
Pensava neles
E em como teria sido
Viagra nos bolsos de seus casacos
E toda a pornografia do mundo
Todo o tempo do mundo
Sempre on line

Pensava neles porque eu pensava em bocetas
E eles também pensavam muito em bocetas
E em tudo que elas envolvem
E em tudo que são envolvidas
E em tudo que está envolvido nisso
Tudo

Então
Às vezes
Pensava em Charles
E às vezes, em Henry

E em todas as suas bocetas
E em tudo que elas envolviam
E em tudo que as envolvia
E em tudo o que estava envolvido nisso
Tudo

(abril/2010)


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