
Há uma banda tocando aqui
Outra banda está lá na esquina
Outra banda eu não ouvi
Outra banda só desafina
E esses homens que nunca crescem
Se parecem com seus fantasmas
Estão velhos, acabados
Sufocados com suas asmas
Há um show lá no bar da esquina
Bem naquele que fechou
Os fantasmas se reuniram
E disseram que é rock and roll
E esses homens se parecem
Com um filme que já passou
Estão prontos pra partir
Mas seu trem ainda não chegou
Os fantasmas tocaram alto
Marinheiros se embebedaram
Gelo seco sobre o asfalto
Os fantasmas se mandaram
E esses homens que nunca crescem
Se esconderam nos bueiros
Da cidade nunca esquecem
Suas ruas e os seus cheiros
Há uma banda tocando alto
Lá na esquina daquele beco
Há uma sombra sobre o asfalto
E hoje o tempo está tão seco
E esses homens que nunca crescem
Não conseguem entender
Porque mesmo condenados
Escaparam de morrer




Agora ele estava ali, rascunhando o mapa do tesouro perdido, procurando remover escombros que escondiam pistas que talvez o trouxessem de volta à estrada principal.
Reconhecia alguns estilhaços, mas não conseguia juntá-los a ponto de criar uma imagem coerente, nem mesmo o arremedo de uma flecha que indicasse o caminho da praia.
O barco, avariado várias vezes, tentava manter-se à tona, a despeito das ondas imprevisíveis, provocadas por fantasmas conhecidos e desconhecidos. Então, um vento repentino apagou a luz de todos os faróis num raio de quilômetros e quilômetros de distância.
Até mesmo os piratas não se arriscariam, agora, a prosseguir em busca de suas presas, por mais fáceis que elas fossem.
Os dias iam passando e as marés se alternavam com a velocidade de aviões supersônicos, cujos pilotos, com mãos trêmulas e suadas, não conseguiam mirar os mísseis para abater os inimigos.
De que valem radares para rastrear o invisível? De que valem lemes pendurados por um fio de cabelo?
O coelho fugiu da cartola do mágico, enlouquecido em meio a uma plantação de cenouras gigantes.
Deslizando na escada rolante do shopping, o vendedor esquece a ordem das mercadorias nas prateleiras da loja onde trabalha. Ao chegar ao andar térreo, esquece também onde fica a loja. Saca de sua caneta e aponta para um segurança, que lhe diz: “É proibido fumar nesta área”.
Dois policiais algemam o vendedor. Em vez de uma viatura, suge uma ambulância, que atropela um cachorro antes de parar. Um enfermeiro aparece com uma grande seringa na mão.
A picada. O nevoeiro. O barco à deriva. O comandante bebe o último gole de rum, atira a garrafa no mar, ajoelha-se e suplica às estrelas cobertas pelas nuvens que sua mensagem lançada do vazio chegue até alguma praia.
Por que a tripulação toda desapareceu e só ele restou? Seria um milagre ou um castigo? “Mãe, eu não quero morrer sozinho.”
O surfista pensou ter ouvido um grito enquanto tentava equilibrar-se na crista da onda. Seus ouvidos zuniram, caiu da prancha e engoliu muita água. Com dificuldade, conseguiu chegar à areia.
Sua prancha desaparecera. Permaneceu alguns instantes sentado, na esperança de que as ondas lhe devolvessem o que perdera.
O mar, estranhamente, foi tornando-se cada vez mais calmo. O zumbido nos ouvidos diminuiu, misturando-se agora ao ecos do que parecia ser um grito desesperado que vinha de longe.
Olhou para o lado e notou algo na areia. Aproximou-se e apanhou o objeto.
Uma garrafa de rum, vazia.


Aquele navio não saía do porto. Há anos permanecia atracado num local distante do cais, afastado das outras embarcações e protegido por uma névoa que insistia em obscurecer os contornos do barco, dia e noite.
Ele perambulava por perto, em geral à noite, indagando a marinheiros e estivadores o que aquele navio fazia ali há tanto tempo. Recebia respostas desencontradas.
A versão mais corrente era de que a embarcação tinha sido abandonada por seu comandante. Ele havia enlouquecido após, um dia, ter acordado com a sensação de que se transformara no Capitão Gancho. Não levou a coisa muito a sério até que, no convés, deu de cara com Peter Pan, que tentou jogá-lo ao mar, onde um crocodilo sedento de sangue estava sempre à espreita.
Lógico que era mais uma história de bêbados. Contudo, por mais que também bebesse com eles e quase sempre duvidasse de suas histórias, ele não tinha coragem de se aproximar daquele monte de ferro flutuando.
Um dia, porém, bem cedo, pela manhã, ele tomou uns tragos e caminhou em direção ao navio enevoado. Quando chegou perto, não enxergava um palmo diante do nariz, devido àquela nuvem de neblina que parecia nunca se afastar das vizinhanças do local onde a embarcação estava fundeada.
- Não se aproxime do meu barco, gritou alguém de dentro da névoa.
- Só quero saber quem é você, retrucou ele.
- Não importa quem eu sou, mas eu tenho certeza de que você é ele.
- Ele quem?
- O filho da puta do Peter Pan.
