IDEIAS
Estava sem ideias, e o palco se aproximava a uma velocidade maior do que ele gostaria de admitir. Certo que o palco não era lá grande coisa. Apenas um palco de bar. E o bar, enfim, nem era muito grande, ou famoso. Mas a perspectiva de pisar num palco mais uma vez, após um longo recesso – e longos recessos tinham se tornado rotina -, sempre o deixava naquele estado, um estado que quase o levava a fazer coisas que certamente levariam a um novo recesso, sem que o atual houvesse ao menos terminado.
Pensava nisso, e pensava também que a sugestão de um palco de bar, não muito grande nem muito famoso, partira dele. Não queria, como já acontecera algumas vezes, que mais um retorno triunfal se transformasse em mais uma despedida melancólica – vergonhosa seria a palavra exata. Daí a sugestão de voltar pela porta dos fundos. Contudo, mesmo atravessar essa porta o estava deixando apavorado agora.
Talvez tudo isso se devesse a sua falta de ideias.
Mas por que essa necessidade de ter ideias, se tudo já estava pronto? As canções escolhidas, a banda ensaiada e até a altura dos instrumentos e das vozes cuidadosamente checada durante a passagem de som.
Nada disso, porém, parecia ter importância no momento.
Estava sem ideias e não subiria no palco sem ideias.
Virou as costas e foi embora.
O recesso se prolongaria por mais algum tempo.
Até que ele voltasse a ter idéias.
ERRO DE PROJETO
Um daqueles erros de projeto. Simples assim.
Lógico que houve ocasiões em que, após alguns ajustes de direção e propulsão, a coisa parecia que ia dar certo. Mas logo tudo desandava de novo, demonstrando mais uma vez que existia algo errado no nascedouro, isto é, no projeto.
Se houvesse um controle de qualidade mais rígido, o projeto teria sido abortado logo de cara, impedindo-se que chegasse até o ponto em que se encontra hoje.
Uma das partes mais tristes e trágicas de todo o processo foi justamente nas vezes em que se vislumbrou um daqueles ajustes emergenciais que, por passe de mágica, colocasse o trem nos trilhos.
As frustrações que se seguiram a essas tentativas fracassadas poderiam fazer parte daqueles livros de recordes, tal a intensidade das mesmas. Claro, se existissem aparelhos capazes de medir a intensidade de frustrações.
De qualquer forma, eu olho para a TV e entendo perfeitamente o que aquele velho e incorrigível bêbado que dizer, quando, num raro momento de sobriedade, indaga: “Se eu sou a porra da resposta, qual é a porra da pergunta?”
FUNDO DOS OLHOS
Então ele olhou bem no fundo dos meus olhos e disse: “Eu conheço você!”
É claro que ele me conhecia. É sempre assim. Você viaja quilômetros e quilômetros, corta o cabelo, deixa o cabelo crescer, corta a barba, deixa a barba crescer, muda de nome, mas sempre, algum dia, em algum maldito lugar, alguém vai olhar bem no fundo dos seus olhos e dizer: “Eu conheço você!”
E você percebe que foi tudo inútil. Apesar de todos os seus esforços, eles te pegaram de novo e, de um jeito ou de outro, vão te trazer de volta.
Claro, talvez você tente resistir, como de outras vezes. Mas, como de outras vezes, eles vão te encher de porrada e te convencer que você, definitivamente, não tem saída.
Daí você vai acabar se acalmando, ou desmaiando.
E eles vão terminar o serviço para o qual foram pagos.
SEM BANG, SÓ CLIC
Eu sempre faço a coisa errada. E quando isso não acontece, é com certeza porque, de alguma forma, eu me enganei. Isso, como diziam antigamente, é líquido e certo. Minhas dúvidas pairam, portanto, sobre os motivos que me levaram a estabelecer esse tipo de comportamento. Não sei se é algo de origem cármica, atávica, ou se foi algo desenvolvido a partir de meu medo infantil de errar e decepcionar os outros.
Seja como for, eu sempre faço a coisa errada, tomo a decisão errada, digo a palavra errada no momento errado.
Às vezes até me assombro com essa minha capacidade “paranormal” de fazer merda. Se conseguisse usar esse “dom” para fazer dinheiro ou ajudar a humanidade, certamente estaria podre de rico ou seria venerado como santo.
De qualquer forma, é isso.
Espero que as pessoas que lerem isto compreendam as razões que me levaram a tomar a atitude que estou tomando.
Pode parecer a algumas dessas pessoas, ou quem sabe a muitas delas, que os motivos aqui expostos não justificariam um ato tão radical. Garanto que essas pessoas nunca se sentiram como eu me sinto, isto é, tendo que conviver com o fato conclusivo e irreversível de saber que sempre faço a coisa errada (por mais que eu, sinceramente, tente acertar).
Assim, só me resta agradecer a compreensão dos que me compreenderam e lamentar a incompreensão dos que não compreenderam.
Enfim, de um jeito ou de outro, obrigado a todos pela atenção.
Cuidadosamente, ele colocou o papel branco escrito com tinta preta em cima da mesa da cozinha e prendeu uma das pontas no vaso de centro com flores murchas, de modo a que o bilhete ficasse bem visível para quem entrasse pela porta que dava para a sala, mas também para quem, por acaso, entrasse pela porta que dava para o quintal.
Encostou o cano no ouvido direito e apertou o gatilho. No lugar do BANG, ouviu apenas um CLIC.
Percebeu então que tinha esquecido de carregar a arma.

ENTREVISTA
-Não estou no clima.
- Mas são apenas algumas perguntas, bem rápidas.
- Cara, tem alguém me esperando lá fora. Me procura depois.
- Quando?
- Sei lá, depois.
- Mas são apenas algumas perguntas.
- Você já disse isso.
- Então, posso começar?
- Buceta!
- Como?
- Buceta!
- Que buceta?
- É a resposta a sua primeira pergunta.
- Mas eu ainda não fiz a pergunta.
- Não tem importância. A resposta é buceta!
- Mas eu ainda não perguntei nada.
- Você já disse isso.
- Mas o que é buceta afinal?
- Você não sabe o que é buceta?
- É claro que eu sei o que é buceta.
- Então, é a resposta pra todas as perguntas que você me fizer.
- Mas eu não fiz pergunta nenhuma.
- Pois é, então agora você senta lá, na sua sala, na sua mesa, digita as perguntas na tela do seu computador e vai respondendo: buceta, buceta, buceta…Fácil né? Té mais!
“MERDA, SÓ MERDA.”
Ele tropeçou várias vezes antes de conseguir subir no pequeno palco improvisado e, enfim, segurar o microfone, que alguém próximo pacientemente tentava lhe entregar há algum tempo. Ficou alguns instantes mudo, olhando fixamente a plateia. Então começou:
“Merda, só merda. Então não adianta essa história de que as respostas estão aqui dentro. Tentei, parei, fiquei em silêncio, senti o coração bater, etc., etc., etc., mas só achei merda. Merda, merda e mais merda.
“Tudo bem, talvez até exista alguma coisa interessante escondida em algum lugar, mas deve estar soterrada debaixo das toneladas de merda que eu engoli durante toda a vida – ou que alguém me enfiou goela abaixo, não importa. A questão é que aqui só tem merda. Portanto, essa busca da qual vivem falando vai dar em nada, isto é, no meu caso, vai dar em merda.
“Nem a comida que ingeri, há pouco, no jantar, escapa ao ciclo. No momento ela está sendo processada pelo meu estômago e meus intestinos e, em breve, será devolvida ao exterior. Em forma de que? De merda, é lógico.
“Sim, porque é um ciclo, eu disse que é um ciclo. Como só há merda aqui dentro, eu, em todas as ocasiões e situações, sempre e só compartilho minha merda interior com o exterior. E, quando eu não engulo merda, como no caso da comida que eu ingeri há pouco, dou um jeito de também transformá-la em merda e lançá-la no mundo exterior.
“É claro que esse processo – de não engolir merda, mas expelir merda – não se refere exclusivamente a comida, muito pelo contrário. É um processo bem amplo.
“Aí vocês vão dizer: ah, mas esse tipo de coisa acontece com todo o ser humano. Só que isso, definitivamente, não me interessa, mesmo que possa até ser verdade. A questão é que estou falando da minha merda, a única merda que me interessa. A merda alheia é problema dos outros, de vocês, sei lá.
“O ponto é que me mandaram procurar aqui dentro. Daí eu fui lá, quer dizer, vim aqui, e só encontrei merda…merda, merda e mais merda. Então estou aqui, cheio de merda pra compartilhar com meus semelhantes, com todos vocês. Amém!”
Jogou o microfone longe, desceu do palco, tropeçou várias vezes de novo e deu o fora. Pela porta dos fundos.
VOCÊ SABE
Você sabe, há apenas uma certeza. Você já descobriu isso, já disse isso, já escreveu isso, várias e várias vezes.
Tudo o mais que você descobriu, disse e escreveu é besteira. E vai continuar sendo, porque há apenas uma certeza, e você sabe disso.
Aliás, sempre soube, mesmo quando fingia não saber e fingia mais ainda, fingindo que todos fingiam não saber.
Porque você sabia, e todos sabiam.
Afinal, era a única coisa que existia então. E a única coisa que continua existindo agora.
Todas as outras coisas não existem, nunca existiram, nunca vão existir.
Mas todos fingiram tanto que todos esqueceram que estavam fingindo.
Ou acreditaram que estavam acreditando.
Enfim, onde nós estávamos mesmo?
Ah, sim. Há apenas uma certeza. Você sabe!












