
Aquele navio não saía do porto. Há anos permanecia atracado num local distante do cais, afastado das outras embarcações e protegido por uma névoa que insistia em obscurecer os contornos do barco, dia e noite.
Ele perambulava por perto, em geral à noite, indagando a marinheiros e estivadores o que aquele navio fazia ali há tanto tempo. Recebia respostas desencontradas.
A versão mais corrente era de que a embarcação tinha sido abandonada por seu comandante. Ele havia enlouquecido após, um dia, ter acordado com a sensação de que se transformara no Capitão Gancho. Não levou a coisa muito a sério até que, no convés, deu de cara com Peter Pan, que tentou jogá-lo ao mar, onde um crocodilo sedento de sangue estava sempre à espreita.
Lógico que era mais uma história de bêbados, tão bêbados que nem se tocavam que não existiam crocolidos no mar. Contudo, por mais que também bebesse com eles e quase sempre duvidasse de suas histórias, ele não tinha coragem de se aproximar daquele monte de ferro flutuando.
Um dia, porém, bem cedo, pela manhã, ele tomou uns tragos e caminhou em direção ao navio enevoado. Quando chegou perto, não enxergava um palmo diante do nariz, devido àquela nuvem de neblina que parecia nunca se afastar das vizinhanças do local onde a embarcação estava fundeada.
- Não se aproxime do meu barco, gritou alguém de dentro da névoa.
- Só quero saber quem é você, retrucou ele.
- Não importa quem eu sou, mas eu tenho certeza de que você é ele.
- Ele quem?
- O filho da puta do Peter Pan.








Novamente os sonhos
Não os pesadelos
Mas os sonhos
Atormentando cada dia
Estuprando a noite
Lâmina cortando tendão
Paralisia
Beco sitiado
E então ficamos ali
Jogados no chão
E então eles nos encontram
De novo
Capitulamos
Por dentro
Por fora
Novamente os sonhos
Não os pesadelos
Mas os sonhos
Desde crianças
Dizem sim
Quando tudo diz não
Espreitam
Esperam
Saltam
Comovem
Feitiço de veludo
Presas fáceis
Algemas de promessas
Impossíveis
Rapto, sem resgate
Inegociável
Inacessível
Inevitável
Novamente os sonhos
Sempre os sonhos
Não os pesadelos


Era um segredo entre eles. E os dois precisavam entender bem isso. Caso contrário, eles seriam perseguidos até a morte. Lógico, eles eram fortes e espertos e não seria fácil encurralá-los. Contudo, ele conhecia muitas histórias de como uma perseguição implacável pode fragilizar as mais poderosas e elaboradas estratégias de defesa.
Depois de longo tempo tendo sempre alguém nos seus calcanhares, você perde o sono, a fome, seus sentidos vão ficando mais e mais debilitados, o seu senso de direção começa a ficar mais e mais errático, até que você começa a cometer pequenos deslizes. A princípio, seus perseguidores não percebem nada, mesmo tendo sempre dormido e comido o suficiente durante o transcurso da caçada.
O problema deles, no princípio, não é o enfraquecimento de suas capacidades, mas a obsessão demasiadamente focada na caça, o que os faz negligentes quanto aos detalhes.
Então, um belo dia, você acorda e tenta, sem sucesso, erguer o corpo do local onde dormiu. Após duas ou três tentativas, você finalmente percebe que a situação está se tornando mais crítica do que nunca. E isso foi acontecer logo agora, que algumas pessoas, nas quais você depositava absoluta confiança, deram com a língua nos dentes.
A cada manhã, você pode até mesmo sentir o cheiro deles se aproximando e, à noite, suando frio, você reza para que amanheça e as sombras desapareçam do buraco onde você inutilmente tenta se reencontrar com o sono.
A partir desse ponto, alguns pensamentos estranhos começam a surgir meio que do nada na sua cabeça. Enfim, talvez eles não sejam tão implacáveis assim. Talvez seja possível até entrar num acordo e evitar o pior. Afinal, até mesmo eles podem ser capazes de entender o que o levou a fazer o que fez. Na verdade, eles podem até compreender que você não queria fazer nada daquilo, mas foi obrigado, sabe como é, pelas circunstâncias.
Então, um belo dia, você acorda e tenta, sem sucesso, erguer o corpo do local onde dormiu. Após seis ou sete tentativas, você finalmente percebe que a situação está se tornando mais crítica do que nunca. E isso foi acontecer logo agora, que o seu dinheiro, que parecia tanto no início, está reduzido a algumas poucas notas amassadas no bolso esquerdo da sua única calça, suja e rasgada.
A partir desse ponto, alguns pensamentos estranhos começam a surgir meio que do nada na sua cabeça. Enfim, talvez eles também já estejam muito cansados. Parece realmente improvável que pessoas passem tanto tempo das suas vidas atrás de um único e mesmo objetivo. Eles devem certamente ter outros interesses, mulheres, famílias, vícios.
Então, um belo dia, quando amanhece, você fareja o ar, e nada. Pela primeira vez, aquele tão conhecido e ameaçador cheiro não pode ser captado por suas narinas. Que incrível, você pensa. E, quando anoitece, você se encolhe num canto do buraco onde já está enfiado há quase uma semana e, milagre, pega no sono.
Quando amanhece e você abre os olhos, a primeira e última coisa que você vê são os relâmpagos que os canos dos revólveres niquelados cospem.
Por isso era essencial que aquele segredo fosse mantido somente entre ele e ela. E os dois precisavam entender bem isso. Ninguém, além deles, poderia saber que os dragões ainda continuavam vivos.


E havia todas aquelas histórias e havia todas aquelas canções e havia todas aquelas coisas. E, afinal, quem se interessava de verdade por aquilo tudo? Muita pouca gente, com certeza, ele pensou. Ou talvez apenas ele ou talvez, na melhor das hipóteses, mais uns dois ou três malucos naquela cidade.
Então, por que continuar insistindo? Talvez por causa daquela insana sensação de que, em algum momento, em algum ponto, ao longo do caminho, encontraria o arco, a flecha e o alvo. Não qualquer arco, qualquer fecha ou qualquer alvo, mas o seu arco, a sua flecha e o seu alvo.
Se era assim, ele precisava seguir em frente. Mas para onde, se não conseguia sair do lugar? Ficava lá, dia após dia, sentado todas as tardes na mesa daquele bar, olhando para a rua pela janela e consumindo litros de café, servidos homeopaticamente em pequenas xícaras pela garçonete gorda com cabelo pintado de amarelo desbotado.
Tinha de fugir logo dali, daquele bairro, daquela cidade, daquele mundo onde ele mesmo se aprisionara. Sabia exatamente o risco que corria, mas, estranhamente, sempre pedia outra xícara de café à garçonete gorda com cabelo pintado de amarelo desbotado, até anoitecer e ele voltar se arrastando para casa.
Ao abrir a porta do apartamento, depararia, como sempre, com todas aquelas coisas jogadas pelo chão e amontoadas em cima dos móveis da sala. Como costumava acontecer com freqüência, talvez procurasse o maço de cigarros nos bolsos, para então se lembrar de que há anos havia deixado de fumar e que aquele reflexo condicionado era mais um sinal de que estava realmente enlouquecendo.
Logo, porém, deixaria de se preocupar com a própria loucura e, após apagar todas as luzes que acabara de acender, sentaria no único lugar vago do sofá, já que os outros assentos estavam ocupados com parte de todas aquelas coisas empilhadas e espalhadas pela sala. Sentaria ali e começaria, novamente, e tentar entender o que havia acontecido com ela.
Tudo aconteceu muito de repente. Embora, como nas tempestades de verão, alguns raios e trovões tivessem anunciado a possibilidade de que algo maior surgisse, quem sabe até mesmo um furacão, ele nunca poderia imaginar que, após uma daquelas tormentas, o dia nunca mais iria clarear. Isto é, que ela se trancaria em algum lugar dentro dela, seja lá onde fosse, e nunca mais iria querer sair.
Depois de refletir sobre tudo isso, ele então se levantaria do único lugar vago do sofá, acenderia, primeiro, a luz da sala e, depois, a da cozinha. Na sequência, como costumava acontecer, ele esquentaria um pouco do café que havia feito ainda pela manhã, antes de sair. Aí beberia o café velho e requentado e acenderia um cigarro.
Então se lembraria, mais uma vez, de que estava há anos sem fumar e que o fato de estar agora com aquele cigarro na boca, sem ter a mínima idéia de onde ele havia surgido, era mais um sinal de que estava realmente enlouquecendo.
E havia todas aquelas histórias e havia todas aquelas canções e havia todas aquelas coisas. E, afinal, quem se interessava de verdade por aquilo tudo?








