






Novamente os sonhos
Não os pesadelos
Mas os sonhos
Atormentando cada dia
Estuprando a noite
Lâmina cortando tendão
Paralisia
Beco sitiado
E então ficamos ali
Jogados no chão
E então eles nos encontram
De novo
Capitulamos
Por dentro
Por fora
Novamente os sonhos
Não os pesadelos
Mas os sonhos
Desde crianças
Dizem sim
Quando tudo diz não
Espreitam
Esperam
Saltam
Comovem
Feitiço de veludo
Presas fáceis
Algemas de promessas
Impossíveis
Rapto, sem resgate
Inegociável
Inacessível
Inevitável
Novamente os sonhos
Sempre os sonhos
Não os pesadelos


Era um segredo entre eles. E os dois precisavam entender bem isso. Caso contrário, eles seriam perseguidos até a morte. Lógico, eles eram fortes e espertos e não seria fácil encurralá-los. Contudo, ele conhecia muitas histórias de como uma perseguição implacável pode fragilizar as mais poderosas e elaboradas estratégias de defesa.
Depois de longo tempo tendo sempre alguém nos seus calcanhares, você perde o sono, a fome, seus sentidos vão ficando mais e mais debilitados, o seu senso de direção começa a ficar mais e mais errático, até que você começa a cometer pequenos deslizes. A princípio, seus perseguidores não percebem nada, mesmo tendo sempre dormido e comido o suficiente durante o transcurso da caçada.
O problema deles, no princípio, não é o enfraquecimento de suas capacidades, mas a obsessão demasiadamente focada na caça, o que os faz negligentes quanto aos detalhes.
Então, um belo dia, você acorda e tenta, sem sucesso, erguer o corpo do local onde dormiu. Após duas ou três tentativas, você finalmente percebe que a situação está se tornando mais crítica do que nunca. E isso foi acontecer logo agora, que algumas pessoas, nas quais você depositava absoluta confiança, deram com a língua nos dentes.
A cada manhã, você pode até mesmo sentir o cheiro deles se aproximando e, à noite, suando frio, você reza para que amanheça e as sombras desapareçam do buraco onde você inutilmente tenta se reencontrar com o sono.
A partir desse ponto, alguns pensamentos estranhos começam a surgir meio que do nada na sua cabeça. Enfim, talvez eles não sejam tão implacáveis assim. Talvez seja possível até entrar num acordo e evitar o pior. Afinal, até mesmo eles podem ser capazes de entender o que o levou a fazer o que fez. Na verdade, eles podem até compreender que você não queria fazer nada daquilo, mas foi obrigado, sabe como é, pelas circunstâncias.
Então, um belo dia, você acorda e tenta, sem sucesso, erguer o corpo do local onde dormiu. Após seis ou sete tentativas, você finalmente percebe que a situação está se tornando mais crítica do que nunca. E isso foi acontecer logo agora, que o seu dinheiro, que parecia tanto no início, está reduzido a algumas poucas notas amassadas no bolso esquerdo da sua única calça, suja e rasgada.
A partir desse ponto, alguns pensamentos estranhos começam a surgir meio que do nada na sua cabeça. Enfim, talvez eles também já estejam muito cansados. Parece realmente improvável que pessoas passem tanto tempo das suas vidas atrás de um único e mesmo objetivo. Eles devem certamente ter outros interesses, mulheres, famílias, vícios.
Então, um belo dia, quando amanhece, você fareja o ar, e nada. Pela primeira vez, aquele tão conhecido e ameaçador cheiro não pode ser captado por suas narinas. Que incrível, você pensa. E, quando anoitece, você se encolhe num canto do buraco onde já está enfiado há quase uma semana e, milagre, pega no sono.
Quando amanhece e você abre os olhos, a primeira e última coisa que você vê são os relâmpagos que os canos dos revólveres niquelados cospem.
Por isso era essencial que aquele segredo fosse mantido somente entre ele e ela. E os dois precisavam entender bem isso. Ninguém, além deles, poderia saber que os dragões ainda continuavam vivos.


E havia todas aquelas histórias e havia todas aquelas canções e havia todas aquelas coisas. E, afinal, quem se interessava de verdade por aquilo tudo? Muita pouca gente, com certeza, ele pensou. Ou talvez apenas ele ou talvez, na melhor das hipóteses, mais uns dois ou três malucos naquela cidade.
Então, por que continuar insistindo? Talvez por causa daquela insana sensação de que, em algum momento, em algum ponto, ao longo do caminho, encontraria o arco, a flecha e o alvo. Não qualquer arco, qualquer fecha ou qualquer alvo, mas o seu arco, a sua flecha e o seu alvo.
Se era assim, ele precisava seguir em frente. Mas para onde, se não conseguia sair do lugar? Ficava lá, dia após dia, sentado todas as tardes na mesa daquele bar, olhando para a rua pela janela e consumindo litros de café, servidos homeopaticamente em pequenas xícaras pela garçonete gorda com cabelo pintado de amarelo desbotado.
Tinha de fugir logo dali, daquele bairro, daquela cidade, daquele mundo onde ele mesmo se aprisionara. Sabia exatamente o risco que corria, mas, estranhamente, sempre pedia outra xícara de café à garçonete gorda com cabelo pintado de amarelo desbotado, até anoitecer e ele voltar se arrastando para casa.
Ao abrir a porta do apartamento, depararia, como sempre, com todas aquelas coisas jogadas pelo chão e amontoadas em cima dos móveis da sala. Como costumava acontecer com freqüência, talvez procurasse o maço de cigarros nos bolsos, para então se lembrar de que há anos havia deixado de fumar e que aquele reflexo condicionado era mais um sinal de que estava realmente enlouquecendo.
Logo, porém, deixaria de se preocupar com a própria loucura e, após apagar todas as luzes que acabara de acender, sentaria no único lugar vago do sofá, já que os outros assentos estavam ocupados com parte de todas aquelas coisas empilhadas e espalhadas pela sala. Sentaria ali e começaria, novamente, e tentar entender o que havia acontecido com ela.
Tudo aconteceu muito de repente. Embora, como nas tempestades de verão, alguns raios e trovões tivessem anunciado a possibilidade de que algo maior surgisse, quem sabe até mesmo um furacão, ele nunca poderia imaginar que, após uma daquelas tormentas, o dia nunca mais iria clarear. Isto é, que ela se trancaria em algum lugar dentro dela, seja lá onde fosse, e nunca mais iria querer sair.
Depois de refletir sobre tudo isso, ele então se levantaria do único lugar vago do sofá, acenderia, primeiro, a luz da sala e, depois, a da cozinha. Na sequência, como costumava acontecer, ele esquentaria um pouco do café que havia feito ainda pela manhã, antes de sair. Aí beberia o café velho e requentado e acenderia um cigarro.
Então se lembraria, mais uma vez, de que estava há anos sem fumar e que o fato de estar agora com aquele cigarro na boca, sem ter a mínima idéia de onde ele havia surgido, era mais um sinal de que estava realmente enlouquecendo.
E havia todas aquelas histórias e havia todas aquelas canções e havia todas aquelas coisas. E, afinal, quem se interessava de verdade por aquilo tudo?








Ele se perguntava por que ela tinha esse poder. Não o poder de, de vez em quando, deixá-lo mal, pois, na verdade, vinha descobrindo que só ficava mal em relação a ela, quando ele próprio provocava esses estados de espírito negativos, deixando que seus fantasmas inventassem histórias de terror.
O que o intrigava era o poder que ela tinha de deixá-lo bem, muito bem, de uma hora para outra, num passe de mágica, como havia acontecido agora há pouco. Bastou sua voz ao telefone para que ele esquecesse a confusão em sua cabeça, o aperto em seu peito, o frio em sua pele. Sentiu até fome, embora pouco antes tivesse deixado metade da comida do almoço no prato do restaurante.
Para ser honesto, esse poder não apenas o intrigava, mas chegava a assustá-lo. Temia tornar-se irremediavelmente dependente daquele poder, a ponto de não conseguir mais viver sem aquilo, como alguém que se torna prisioneiro de uma droga irresistível.
Parou um pouco e chegou à conclusão de que, como costumava fazer, estava complicando e exagerando as coisas. Afinal, se havia encontrado, naquele ponto de sua vida, alguém que, com um simples toque, o colocava para cima, por que simplesmente não agradecer a aproveitar esse presente do presente?
O problema é que, lá no fundo, ele sabia que já estava dependente, tanto que, naquele momento, se flagrou olhando fixamente para o telefone, esperando que ela ligasse mais uma vez. Como é que ia suportar todo aquele resto de dia sem mais notícias dela? Mas que outras notícias ela podia lhe dar, além daquelas que já tinha recebido há pouco, durante aquele telefonema que o içara do fundo do rio para o alto da montanha? Provavelmente, nenhuma notícia nova.
Apesar dessa constatação, continuava, volta e meia, olhando para o telefone, que insistia em permanecer mudo, estupidamente mudo.
Começou, então, a enumerar em sua cabeça os motivos pelos quais ela não ligava. O motivo mais óbvio era, logicamente, que ela havia ligado há cerca de uma hora, e não havia, portanto, por que entrar em contato de novo após tão pouco tempo, só se tivesse acontecido algo grave. E se fosse isso mesmo? Se tivesse acontecido alguma coisa séria, quem sabe até uma tragédia?
Pediu a si mesmo para ir com calma, percebendo que navegava por águas turvas que ele próprio estava agitando. Lembrou das histórias de terror que seus fantasmas costumavam inventar e fez um esforço consciente para recuperar um mínimo de equilíbrio.
O mais provável é que ela não tivesse ligado de novo, primeiro porque já havia ligado há pouco tempo, e depois porque devia estar muito ocupada em seu trabalho. Com certeza era isso, apenas e tão somente isso. Levantou da cama e procurou se distrair, começando a fazer uma série de coisas que precisavam ser feitas na casa, como, por exemplo, lavar a louça que havia ficado suja na pia da cozinha, colocar no varal as roupas que estavam dentro da máquina desde o dia anterior, trocar a água das flores, flores…
Aquelas flores eram as rosas vermelhas que ele havia comprado dois dias antes, para enfeitar o quarto antes que ela chegasse. Engraçado, observou que as rosas continuavam em botão, recusando-se a abrir totalmente suas pétalas. Seguindo uma sugestão dela, ele havia inclusive colocado as flores na varanda, para que elas pegassem mais ar e luz, mas até agora as rosas continuavam fechadas. De qualquer forma, os botões vermelhos permaneciam bonitos, e isso encerrou o assunto.
Já tinha inventado e feito mil coisas pela casa, até mesmo varrido o quarto, que, afinal, nem estava tão sujo. Sentiu-se subitamente cansado, deitou-se na cama, ficou olhando para o teto e começou a rir de si mesmo. Às vezes se sentia e agia como um verdadeiro louco de pedra. Ainda com um sorriso nos lábios, flagrou seus olhos pousados sobre o telefone, que permanecia mudo, estupidamente mudo.


