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Ele gostaria de fica calado. Não totalmente mudo, mas falando apenas o essencial, deixando o resto implícito, talvez na sua postura, talvez nos seus olhos, talvez no seu jeito de simplesmente virar as costas e sair andando.
Cada vez que tentava se explicar ou explicar alguma coisa a alguém, se perdia num discurso vazio, que ficava girando em círculos e se espatifava no chão, espalhando estilhaços em todos os sentidos.
Verdade que, muitas vezes, se metia a falar sobre o que não entendia ou entendia muito pouco, ou até entendia, mas já havia esquecido dos detalhes do tal assunto. É lógico que isso podia ser conseqüência da idade, mas ela achava que era sintoma de algo mais grave, embora não soubesse do quê.
Outras vezes, porém, estava falando a respeito de alguma coisa sobre a qual definitivamente entendia, contudo, na hora de defender seus argumentos, uma névoa parecia envolver sua mente e tudo ia aos poucos se apagando.
De qualquer forma, o que mais o incomodava era a sensação de cansaço que tomava conta dele após essas inúteis tentativas de se explicar ou de explicar determinados aspectos do mundo que ele considerava relevantes de serem comentados.
Por tudo isso, adoraria ficar calado, isto é, falar somente o essencial. Lá no fundo, acreditava também que, se conseguisse isso, se tornaria mais sábio, porque teria mais tempo de ouvir, digerir e analisar o que os outros ficavam dizendo. Ou, na pior das hipóteses, não se sentiria tão idiota como se sentia após aqueles discursos imbecis que, compulsivamente, fazia, quando lhe davam motivos ou não.
O X da questão, como diziam os antigos – que já não eram tão antigos assim, porque ele sentia que também estava se tornando antigo -, bem, seja como for, o X da questão é que ele não conseguia manter sua boca fechada. Preparava-se, concentrava-se e até ficava em silêncio quando alguém começava a falar sobre determinado assunto, mas, logo, logo, lá ia ele de novo. Não só se sentia na obrigação de dar sua opinião como esta, quase sempre, era totalmente antagônica a do interlocutor.
E o ciclo se repetia: mais um discurso vazio, que ficava girando em círculos e se espatifava no chão, espalhando estilhaços em todos os sentidos. Ah, e o cansaço, aquele imenso e insuportável cansaço.
Bem, de qualquer forma, já estava escurecendo. Ele tinha baixado alguns episódios novos de séries de TV na internet. Ou seja, a noite, pelo menos aquela noite, estava salva. Amanhã ele pensaria de novo sobre o assunto.
E, quem sabe, quando ela chegasse, eles até trepassem.


Ela disse que ele andava pesado. “É só ficção”, ele respondeu. Mas sabia ao que ela estava se referindo, pois nunca havia conseguido desvincular totalmente o que sentia do que escrevia.
Daí, para quem o conhecia bem – e com certeza ela o conhecia hoje melhor do que ninguém -, era fácil perceber o que se escondia por trás do que ele insistia em dizer que era “só ficção”.
O pior é que ele não fazia isso deliberadamente. Apenas acontecia, mesmo que ele inventasse enredos totalmente distanciados da realidade em que vivia. Ele até insistia bastante nisso, pois queria provar, em especial para si mesmo, que era capaz de se transformar numa pessoa totalmente diferente, se colocar num local e numa situação completamente desconhecidos e então escrever histórias a partir dali.
Durante uma parte considerável do caminho, conseguia até manter-se distanciado de si mesmo e mergulhado no mundo imaginário que criara. Contudo, de repente, percebia que havia perdido o rumo, ou seja, percebia que estava, aos poucos, voltando a assumir o controle. A partir desse ponto, não havia mais jeito.
Embora continuasse tentando levar adiante sua história inventada, tudo começa a cheirar mais e mais a uma grande farsa. Sabia que, dali a pouco, nos próximos parágrafos ou talvez na próxima página, acabaria se entregando.
A máscara cairia e ele estaria nu, de novo.
Por sorte, só as pessoas que o conheciam bem percebiam isso – e com certeza ela hoje o conhecia melhor do que ninguém.


Algum tempo atrás, a mera suposição de que aquilo fosse verdade teria feito com que ela cogitasse seriamente meter uma bala na cabeça. Com certeza não se atiraria de cima de um prédio, já que considerava a alternativa muito angustiante, devido ao seu desconforto com lugares altos. Talvez pulsos cortados numa banheira de água quente ou, melhor ainda, uma OD de soníferos, bem mais ao seu estilo.
De qualquer forma, não importava o modo, mas sim a decisão. E a decisão era de que não haveria qualquer motivo para continuar vivendo. Ou pelo menos era isso o que ela imaginava que teria sentido, algum tempo atrás. Contudo, agora que a perspectiva tinha realmente se confirmado, ela estava ali, sem saber o que fazer, mas, com toda a certeza, não iria se matar.
Já que não existiam dúvidas a esse respeito – e tal constatação a surpreendia muito -, teria que começar a se acostumar com a idéia. E isso, sob certo aspecto (aliás, sob todos os aspectos), era totalmente assustador, pois teria de reconstruir toda a sua vida a partir de…
Era esse o problema. Não havia sobre o que reconstruir porra nenhuma, já que toda a sua vida tinha sido construída a partir de uma alucinação, que agora, não sabia direito por que, havia se desvanecido completamente. Então, começar de onde?
A idéia de que era uma pessoa absolutamente comum, sem nenhum dom especial ou predestinação cósmica nunca tinha lhe passado pela cabeça. Bem, na verdade, não era exatamente assim. Ela tinha que admitir que houve alguns momentos, alguns breves momentos, ao longo daquela vida que agora ela sabia ter chegado ao fim, em que ela chegou a pressentir que podia estar completamente equivocada.
Em alguns desses momentos, inclusive, chegou a ter quase certeza de que tudo aquilo era uma grande farsa que ela mesmo inventara e na qual algum demônio muito malvado a fizera acreditar.
No entanto, ela sempre vislumbrava um pedaço de tábua flutuando nas proximidades, dava um jeito de nadar até ele, se agarrava fortemente à madeira e continuava navegando naquele oceano lisérgico que ela parecia conhecer tão bem.
Recordar isso agora, porém, não refrescava nada, porque não havia mais nenhum pedaço de madeira à vista. Aliás, não havia mais qualquer oceano também. Ela sentia seus pés profundamente fincados em terra firme.
E ela teria que conviver com isso, a partir exatamente do lugar onde agora se encontrava, um lugar onde nunca havia estado antes.



Era quando as coisas saíam totalmente do controle, ou melhor, quando ele saía totalmente do controle, as sombras bloqueavam a porta da frente, os fantasmas avançavam pela porta dos fundos, era assim, quando se sentia totalmente cercado, bem, era nesses momentos que ele começava a murmurar algumas palavras desconexas que, se alguém pudesse ouvir, talvez confundisse com algum tipo de oração.
Não que isso fizesse alguma diferença, tivesse algum efeito sobre as coisas, sobre o cerco das sombras e dos fantasmas, sobre a garganta apertada por mãos invisíveis e poderosas.
Não, nada disso.
As sombras continuavam lá, os fantasmas continuavam lá, as mãos na sua garganta também.
Mas pelo menos, enquanto pronunciava aquelas palavras sem sentido, dirigidas a algo ou a algum lugar fora dele, talvez dentro, não conseguia distinguir bem, enquanto pronunciava aquelas palavras, encolhido na cama como um bebê, bem, aquilo lhe dava algum tempo de pensar numa saída.
Não que tivesse qualquer esperança de encontrar uma saída.
Mas talvez a saída o encontrasse.



Não era certamente a primeira vez que chegava até ali. Se isso era de certa forma tranquilizador, já que de um jeito ou de outro tinha conseguido escapar das vezes anteriores, era sinal também de que, como das vezes anteriores, acabaria, sabe-se lá quantas vezes, voltando para aquele lugar.
Não que isso fosse uma espécie de maldição eterna ou qualquer coisa do tipo, pois sabia que, em alguns desses seus repetidos retornos, acabaria definitivamente preso ali, sem absolutamente nenhuma chave de escapar de novo.
Agora, porém, não era hora de ficar filosofando sobre essas coisas. A urgência, no momento, era descobrir como escaparia dali desta vez.
Não muito tempo atrás, àquela altura, já teria pensado em quatro ou cinco maneira de vazar dali. Desta vez, contudo, sua cabeça se recusava a focar qualquer projeto de fuga decente.
Aliás, sua cabeça se recusava a focar qualquer outra coisa que não o fato de que, como já havia estado ali tantas vezes, mesmo que escapasse de novo, acabaria sempre retornando para onde estava agora.
Pensou, então, que talvez aquela fosse a tal da última vez. Não estava conseguindo imaginar nenhuma rota de fuga porque, daquela vez, não haveria mais como fugir.
Estava preso ali para todo o sempre.
Ele sabia que, mais dia, menos dia, isso acabaria acontecendo. Mas agora, que estava realmente acontecendo, ficou cheio de raiva, como uma criança logo após ser apanhada em flagrante fazendo algo que já lhe haviam proibido de fazer milhares de vezes antes.
De repente, a luz da sala se acendeu.
- O que você está fazendo aí, no escuro, ela perguntou.
- Nada, só descansando um pouco, ele respondeu.
- Você fez café?
- Não.
