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O MURO…

maio 31, 2007

O Muro

muro03.jpg

“Há momentos e há momentos que se transformam em dias. E há dias que se transformam em semanas.

“Até aí, nada de pânico. São períodos de tempo até aceitáveis, em se tratando da às vezes tão necessária reflexão sobre o rumo que devemos tomar na vida.

“A coisa começa a pegar, porém, quando as semanas se transformam em meses. Aí percebemos que estamos quase num beco sem saída. Digo quase porque, se ainda conservamos a capacidade de perceber esse estado de coisas, talvez ainda tenhamos força para derrubar o muro, o muro que fica no fim do beco.”

Agora tinha dado para isso. Sentava e escrevia fragmentos do que se parecia cada vez mais com um manual de auto-ajuda. A questão é que compreendia, também cada vez mais, que escrevia tudo aquilo para ele mesmo.

Então, lia o que havia escrito e concluía: “Babaquice!”

E os dias iam passando e ele se suportava cada vez menos.

Então escrevia mais fragmentos do suposto manual de auto-ajuda, lia o que havia escrito e concluía: “Babaquice!”

Fez as contas e descobriu que estava naquela há cerca de três meses. Era hora, portanto, de derrubar o muro no fim do beco. Só que ele precisava descobrir em que tipo de beco havia se enfiado e que espécie de muro teria de derrubar.

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&&&&&&&&&

Seria algum daqueles muros que ele teria de derrubar pra escapar do beco onde havia se metido?

A coisa que mais mudara na rua era o tamanho dos muros das casas, que agora ficavam escondidas atrás de altas paredes de concreto.

Na verdade, como constatou a seguir, não havia assim tantas casas protegidas por altos muros na rua, apenas umas cinco ou seis. Só que estas eram significativas em sua memória.contraste-casas.jpg

Há exatamente 10 anos, quando morava naquela rua e caminhava por ela, os jardins e as varandas daquelas cinco ou seis casas podiam ser vistos da calçada. Hoje isso era impossível. Sinal dos tempos, pensou.

O fato de estar caminhando por aquela rua há exatos 10 anos após ter se mudado devia significar alguma coisa.
Sempre evitara não só aquela rua, mas até mesmo aquela vizinhança.

Tudo é bom quando termina bem, dizia o ditado. Ali, as coisas tinham terminado mal e, portanto, embora soubesse que sua sensação não correspondia à realidade precisa dos fatos, a impressão era de que tudo o que acontecera ali havia sido ruim.

Mesmo as coisas boas – e racionalmente ele sabia que elas existiram – não mereciam ser recordadas, já que, na sua visão, tudo tinha terminado mal.

Aquela rua, aquelas casas e várias das pessoas que provavelmente ainda viviam ali haviam assistido, ano após ano, ele se afundando num mar de álcool e drogas.

Muitas outras ruas, muitas outras casas e muitas outras pessoas tinham também presenciado seu progressivo e obstinado afogamento. No entanto, quando o pesadelo finalmente terminou, ele voltou gradativamente a caminhar por aquelas ruas, entrar naquelas casas e conversar com aquelas pessoas.

A única exceção era aquela rua específica, onde tinha morado por 13 longos anos e por onde agora caminhava, surpreso com os muros altos que protegiam as cinco ou seis casas das quais, no passado, ele gostava de observar os jardins e as varandas.

Então, por que diabo tinha vindo parar ali, naquela manhã ensolarada de sábado?

Sabia que não tinha sido um acidente.

Quando iniciou sua caminhada, não tinha idéia de para onde ia. Chegando à praia, decidiu que, ao contrário do que geralmente fazia, não iria na direção do porto, mas para o lado oposto.

No caminho, pensou em como sua percepção da cidade estava mudando. Sempre preferira caminhar pelo passeio da praia em direção ao porto. Gostava mais daquele trecho, praia.jpgachava mais bonito, acolhedor.

Naquele dia, porém, quando pensou em seguir o roteiro habitual, logo mudou de idéia, sentindo que estava farto de caminhar por aquele lado da praia. Queria uma paisagem diferente e a paisagem diferente estava na direção oposta.

Seguiu então para o outro extremo da ilha.

No caminho, concluiu que podia muito bem não se tratar de uma mudança na sua percepção da cidade, mas simplesmente de uma mera vontade de variar de paisagem.

Contudo, ao atravessar o primeiro canal, já tinha decidido que sairia da avenida da praia e entraria no próximo canal.

canal.jpgEstava na segunda quadra desse segundo canal, quando se deparou com outro canal menor, transversal ao canal por onde caminhava e margeado por grandes árvores. Esse canal levava a um parque cercado onde havia algumas espécies de animais e se cultivavam orquídeas.

Não lhe passou pela cabeça ir até o parque, mas lembrou-se de que tinha um amigo que morava num prédio em frente ao tal parque. Por isso, dirigiu-se para o canal transversal margeado por grandes árvores.

Não tinha intenção de visitar o amigo, até porque não costumava visitá-lo nunca em sua casa e também porque não fazia a mínima idéia de qual era o prédio onde foto46.jpgele morava.

Pensou que talvez pudesse encontrá-lo na rua, já que ele sabia que o amigo costumava levar seu cachorro para passear. Como seu amigo não estava passeando com o cachorro naquele momento, ele obviamente não o encontrou e seguiu adiante.

Quando percebeu, estava se encaminhando para a rua que margeava a linha do trem. Olhou para o outro lado e viu uma jovem negra, vestida com andrajos, perambulando pelos trilhos.linha-do-trem.jpg

Quando ela o viu, do outro lado da rua, levantou uma lata que carregava numa das mãos e ofereceu a ele. Ele deduziu que a jovem, já totalmente fora de órbita, estava lhe oferecendo o resto da pedra de crack que havia ou que ela achava que ainda havia na lata. Com um aceno de mão, ele agradeceu e deu a entender que não queria.

Mais improvável do que a presença daquela garota ali, naquela hora da manhã, só mesmo o fato de ela ter lhe oferecido um pega.

Em todo o caso, seguiu em frente, pela rua que margeava a linha férrea, pensando que, no seu tempo, nunca havia encontrado ninguém fumando crack na rua por ali, muito menos àquele hora da manhã. Bem, ponderou ele, no seu tempo as pessoas ainda fumavam crack em suas casas e aquela rua estava levando exatamente para a rua onde havia morado muito tempo atrás.

Não pretendia entrar na tal rua, só dar uma olhada da esquina. Mas fez as contas e concluiu que faziam exatamente dez anos que ele havia se mudado dali, talvez até o mês fosse o mesmo, quem sabe até o dia.

Hesitou um pouco, mas acabou virando a esquina e entrando na tal rua.

Talvez devido à luz bem clara e amarela do sol do início do outono, talvez o efeito de seus óculos escuros, talvez conseqüência de algo inexplicável acontecendo dentro dele, o fato é que a rua parecia ter se transformado numtunel01.jpg túnel sem teto.

Queria parar e observar melhor as casas, queria tirar os óculos escuros para enxergar melhor, queria se conscientizar de que estava fazendo uma coisa importante, que estava enfrentando alguns de seus mais aterrorizantes fantasmas.

Queria muitas coisas, mas não fez nenhuma delas. Apenas percorreu rapidamente as duas quadras que o separavam da próxima esquina e saiu do túnel.

Sim, tinha feito uma coisa importante, sabia disso. Mas o que diabo tinha feito e para que serviria tudo aquilo?

Como a maioria das coisas que andava fazendo ultimamente, também aquela não fazia nenhum sentido.

E que porra de muro ele precisava derrubar pra escapar do beco?

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