Skip to content

NO AEROPLANO DO JEFFERSON

junho 8, 2007

 

No aeroplano do Jefferson

Era algo sobre o Airplane, quer dizer, o Jefferson Airplane, aquela banda californiana com base em São Francisco, que alguns consideram como a inventora do acid-rock, talvez porque todos os seus integrantes, ao que consta, tomassem muito ácido.

Mas, afinal, o que mais eles poderiam fazer, vivendo em São Francisco em pleno “verão do amor”? Tomar ácido, naquela época e naquele lugar, devia ser tão comum – e inevitável – quanto tomar um café com pão com manteiga na padaria da esquina, pelo menos, é lógico, para uma considerável parcela da população da São Francisco daqueles dias.

Mas era e não era sobre isso que ele estava pensando, enquanto caminhava pela rua ouvindo uma coletânea do Jefferson Airplane no mp3 que carregava grudado ao corpo. Na verdade, ele estava pensando em bem mais coisas do que no fato de muito ácido e outras drogas terem sido consumidos naquele época.

As drogas, em especial as psicodélicas, eram apenas um ingrediente naquele imenso caldeirão. E, afinal, o que havia sobrado daquele caldeirão?
Alguma coisa devia ter sobrado e ele gostaria de saber o quê. Descobrir aquilo parecia ser da máxima importância para a sua sobrevivência.

Mas, de qualquer forma, quem conhecia hoje Jefferson Airplane naquela cidade? Com certeza, muito pouca gente. E depois, quando ele chegasse em casa, provavelmente já teria esquecido aquele negócio todo e nunca mais conseguiria colocar aquilo no papel, como a princípio pretendia, até para tentar compreender o motivo daquela preocupação toda com coisas que haviam acontecido há década num lugar tão distante.

A questão é que o dinheiro estava acabando e ele precisava dar um jeito, qualquer jeito. Isso se tornou evidente quando chegou em casa e descobriu que o telefone estava mudo.

“Porra, o telefone, a merda do telefone”, ele pensou em voz alta, recolocando o fone no gancho.
Concluiu, contudo, que a situação iria ficar bem pior dali a alguns dias, quando certamente a luz também seria cortada.

Como não havia nada que ele pudesse fazer no momento para mudar esse triste destino, foi para o computador e ligou o aparelho. Era algo que ainda podia se dar ao luxo de fazer, enquanto houvesse energia circulando pelos fios dentro das paredes da casa.

“Ficar solitário, pensou ele, é o tipo de jogo no qual não se pode fingir ou blefar, é preciso ser algo real, tão real que dói.”

Isso estava escrito num livro de David Goodis, “Sexta-Feira Negra”. Mas, como acontecia com o Jefferson Airplane, muito pouca gente devia conhecer David Goodis naquela cidade. E que importância isso realmente tinha diante do fato de agora ele estar sem telefone e prestes a ficar sem luz?

De qualquer forma, havia escrito aquela frase na tela do computador, compreendendo que era exatamente aquilo que precisava fazer naquele momento, isto é, encarar sua própria solidão para que dali, daquele refúgio desolado, pudesse enxergar com um pouco mais de clareza onde estava e qual o rumo a seguir.

A questão é que, como o tal Goodis advertia, não era possível fingir ou blefar. Ou, como o escritor alertava um pouco mais adiante, era “você dando as cartas para você mesmo”. E isso doía, ah como doía. E ele sabia bem disso ali, em frente à tela do computador, agora sem telefone e às vésperas de ficar no escuro.

Então, algo dentro dele, lhe mandou uma espécie de aviso: “Você está tentando, mais uma vez, controlar tudo. E você sabe que isso é uma tremenda besteira.”

Bem, ele até concordava com isso. Estava, mais uma vez, tentando assumir o controle do rumo das coisas, como se isso tivesse dado certo em alguma ocasião antes. Aliás, como se controlar o rumo das coisas fosse de alguma maneira possível em qualquer ocasião.

Ok, ok, ok, era insanidade dele, a velha insanidade, mas, ao mesmo tempo, não podia simplesmente ficar parado, esperando que as coisas acontecessem.

Nunca tivera a mínima vocação para práticas orientais – nem ocidentais – de meditação, embora, durante considerável período de sua vida, houvesse tentado atingir algum tipo de estado mental transcendental que lhe permitisse suportar um pouco melhor aquela angústia crônica que sentia bem no meio do peito ou, para ser mais exato, entre o final da garganta e o lugar onde imaginava que seu estômago começava.

Ok, ok, ok, soltar as rédeas, deixar as coisas acontecerem, não apressar o rio, afinal eles não dizem que o rio corre sozinho?

Então, relaxar, relaxar, relaxar…

Não se preocupar nem mesmo com o fato da tela do computador ter, de repente, ficado totalmente escura, já que, ao contrário de suas previsões, os caras da companhia de energia haviam decido cortar a sua luz exatamente naquele momento…

3 Comentários leave one →
  1. junho 9, 2007 9:35 pm

    Mensagem recebida, o problema é a fumaça das motocicletas. É tóxica, estupefaciente:

  2. junho 14, 2007 9:18 am

    To esperando o texto revisado, sabe de um livro ai…..

  3. oanodalargartixa permalink*
    junho 17, 2007 2:23 pm

    O texto revisado está chegando, chegando…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: