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CENÁRIOS

junho 17, 2007

Cenários

h0230v3e.jpg

Tinha certeza de que mergulharia em cenários estranhos do passado. Mesmo assim, dobrou a esquina. A “rua principal” continuava lá, com a loja de artigos de pesca, outra de ferragens, outra de ervas e velas…

Parou em frente à loja que vendia pássaros e rações e ficou observando três aves em exposição numa gaiola redopassaro1.jpgnda. Tivera uma daquelas em casa, anos atrás.

Chamava-a de Maria, embora não soubesse se era um macho ou uma fêmea. Até hoje não descobrira o nome daquela espécie de ave, mas talvez, um dia, resolvesse levar outra Maria para casa.

Prosseguiu a expedição de reconhecimento pela “rua principal”, constatando que alguns bares haviam fechado. Até os bares estavam em decadência, pensou. Em todo o caso, os que tinham resistido até que estavam cheios, para aquela hora da manhã. Lembrou-se, então, que era domingo, e que muitas das pessoas que estavam nos bares deviam estar emendando a noite do sábado. Em outros tempos, teria ficado por ali, mas como os tempos eram outros, continuou caminhando.

casaroes9.jpgOs casarões antigos também resistiam, embora, se nada fosse feito com urgência, eles simplesmente ruiriam, da noite para o dia, ou do dia para a noite.

O velho mercado também continuava de pé. Na verdade, conforme lera nos jornais, havia sido reformado há não muito tempo. No entanto, para ele, o grande prédio tinha agora o aspecto de um enormemercadopsd.jpg edifício-fantasma.

Mesmo que algumas pessoas caminhassem por seu interior e que alguns boxes continuassem a funcionar, vendendo frutas e verduras, não conseguia livrar-se da sensação de estar percorrendo uma imensa casa mal-assombrada.

Enquanto ouvia o barulho de seus próprios passos no saguão principal, 20060719cvsvmind1mm.jpgteve uma breve alucinação.

O saguão, de repente, ficou cheio de gente indo e vindo, carrinhos transportando mercadorias para dentro e para fora, aroma de café expresso da lanchonete que funcionava logo na entrada misturando-se ao cheiro inebriante da grande variedade de frutas expostas em dezenas de bancas coloridas.

Sentiu-se um pouco tonto com aquela repentina e intensa profusão de odores, cores e sensações. Voltou ao presente e caminhou em direção aos fundos do mercado. Passou por vários espaços vazios e fechados por grades.

foto92616.jpg Chegou à parte de trás do prédio, onde as peixarias e os pequenos armazéns já não existiam mais. Grades enferrujadas também cercavam essas áreas agora desertas. Avistou finalmente os pequenos barcos, as catraias flutuando na água escura e suja do mar.

Avistou também um grupo de moradores de rua, homens e mulheres, discutindo em voz alta sobre alguma coisa a ver com uma garrafa que alguém havia quebrado ou roubado.

Prosseguiu pela calçada que contornava externamente o mercado e viu três ou quatro bares do outro lado da rua. Também estavam relativamente cheios para aquela hora da manhã, mas era evidente que os “clientes” estavam bem mais altos do que os freqüentadores dos bares da “rua principal”boteco.jpg.

Recordou-se que, no seu tempo, aquela dicotomia etílica e toxicológica entre os bares das duas regiões já existia.

Lembrou-se também do pequeno e estreito bar onde, no seu tempo, só ia para comer e nunca para beber. E lá estava o bar, bem do outro lado da rua, que ele atravessou devagar, sob o sol quente daquela manhã de domingo.

Embora mais velhos, o casal de portugueses e os dois filhos ainda continuavam por ali, fazendo salgadinhos e sanduíches e servindo uma freguesia que parecia, como antes, sempre fiel. Felizmente, nem o homem nem a mulher, nem os dois rapazes o reconheceram, ou talvez tivessem fingido que não se lembravam dele. Pediu um pastel de camarão e uma Coca.
O pastel continuava excelente.fo17perdoes_pastel_capa_mandioca.jpg

Pensava nisso e se perguntava por que aquela família permanecia ali, levando aquela vida que lhe parecia tão dura, em meio a uma vizinhança aparentemente tão hostil. Parecia óbvio que, àquela altura, já deviam ter acumulado dinheiro suficiente para mudar para outro local, mais agradável e menos perigoso.

A mãe e o pai já eram bem idosos e os filhos, dois homens maduros, provavelmente já eram casados e tinham suas respectivas famílias. Mas lá continuavam eles, servindo as pessoas, às vezes sorrindo entre si, às vezes fazendo comentários sobre bêbados ou mendigos que passavam pela rua em frente. Era incrível como o “sentido de família” parecia resistir e se sobrepor a tudo.

botequim-2.jpgSaboreando o último pedaço do pastel, ele teve noção de que estava presenciando uma cena única, protagonizada por pessoas especiais, apesar da banalidade que tudo aquilo pudesse aparentar. Sem saber direito o motivo, sentiu-se emocionado e teve uma certa inveja daquelas pessoas, daquela família.

Saiu do pequeno e estreito bar e foi caminhando de volta à “rua principal”. Mas, ao chegar à esquina, deparou-se com vários homens, de diversas idades, sentados, em fila, nas soleiras das quatro ou cinco privagabundo.jpgmeiras casas da rua transversal.

Todos, de um jeito ou de outro, tinham a expressão da derrota estampada em seus rostos e, em certo sentido, pareciam ter ultrapassado o limite do simples desespero, adentrando num distante e profundo pântano, onde, apesar da desolação e do isolamento, talvez houvesse uma certa paz, advinda da definitiva, avassaladora e irreversível resignação.

Que diabo estariam aqueles homens fazendo ali, sentados em fila em soleiras de portas, numa manhã de domingo de sol? O que estavam eles esperando acontecer? Teve receio de aproximar-se e perguntar, mas percebeu, com extrema clareza, que, por mero acaso ou capricho dos deuses, não estava também ali, naquele momento, sentado nas soleiras daquelas portas, naquela fila, esperando sabe-se lá o quê.

Voltou a se sentir meio tonto e, quando deu por si, tinha se afastado da “rua principal” e dobrado mais uma esquina. Lembrava-se também daquela rua transversal. Era ali que, vez ou outra, almoçava num restaurante japonês que ficava no meio da segunda quadra. E, como outros “fantasmas”, o restaurante, embora fechado, talvez devido ao horário, continuava lá.

No final da rua, junto a um canal de águas pluviais, deu de cara com uma feira de trocas de objetos velhos e roupas usadas. Ficou algum tempo perambulando entre os mais variados tipos de quinquilharias, que pareciam interessar a muita gente, visto o grande número de pessoas que também perambulava pelo local e examinava as ofertas estendidas ao longo das calçadas.

feira-do-rolo.jpgO que alguém faria com um liqüidificador tão velho como aquele? E o secador de cabelos, será que ainda funcionava? Quem compraria um fogão tão detonado assim? E os discos de vinil, será que alguém teria para vender também uma vitrola capaz de tocá-los?

Absorto por esses pensamentos, não percebeu que estava bem na esquina da rua onde havia morado, aos 10 ou 11 anos de idade. Dobrou mais uma esquina e sentiu novamente aquela tontura, agora já bem familiar. Poucas vezes teve sensação tão forte de como o tempo transformava radicalmente certos cenários do passado.

Não era, logicamente, uma cena de guerra, mas apenas e tão somente porque nos combates ali travados não haviam sido utilizadas armas de grande poder de destruição. Mas que uma batalha cruel acontecera naquela rua ninguém poderia negar. Como também era impossível não perceber que casas-velhas.jpgsó os perdedores continuaram a viver no local.

Não restara uma única casa que não estivesse necessitando de reparos de emergência, pois todas davam a impressão de estarem abandonadas há longo tempo, embora fosse óbvio que eram habitadas. Parou finalmente na casa onde morara, que tinha sido transformada numa habitação coletiva. Aliás, várias casas da rua haviam tido o mesmo destino. Na última quadra, bem perto da esquina, três homens, sentados ao redor de uma carroça, em frente a uma casa quase em ruínas, passavam uma garrafa entre si e conversavam alto numa língua que ele, por mais que tentasse, não conseguia compreender.

img_0819copia.jpg

4 Comentários leave one →
  1. junho 17, 2007 1:44 pm

    O tempo descasca as paredes, esfarela o asfalto, apaga a memória. O tempo é um ácido corruptor. O tempo é bom quando sobra.

  2. oanodalargartixa permalink*
    junho 17, 2007 2:14 pm

    E como já diziam os tais dos Stones, “time waits for no one”. Ainda bem que, no mesmo disco, eles explicam que “it’s only rock’n roll, but…but…but I like it”.

  3. Gilvan permalink
    junho 25, 2007 12:51 pm

    Fantástica essa descrição de um território que tb conheço bem (trabalho nele há dez anos e acompanhei essa decadência, hoje trabalho com os enlouquecidos dessa guerra)

  4. oanodalargartixa permalink*
    junho 26, 2007 4:26 pm

    Pois é Gilva, as vítimas dessa guerra são incontáveis…
    Abraços, e continue fazendo o possível pelos enlouquecidos. Eles merecem!

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