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CIDADE DOS NAVIOS

junho 23, 2007

Cidade dos navios

cidade-dos-navios-1.jpg

Um amigo, que lera algumas coisas que ele escrevera, lhe disse: “Você parece alguém que, sentando à beira do cais, aguarda a chegada de um navio que nunca partiu.”

Naquele fim de tarde, olhando da janela do quarto os navios e barcos que passavam, era impossível não pensacidades-dos-navios-2.jpgr em chegadas e partidas.

Um poeta, que já morrera e que, como ele, sempre vivera naquela cidade, também vivia lhe falando sobre sua atração por navios e pelo cais do porto.

Um de seus poemas mais famosos falava justamente da angústia de ser tão fascinado pelo ir e vir das embarcações, sentindo, lá no fundo, que nunca partiria para lugar algum, pois suas raízes estavam por demais fincadas naquela terra visitadacidade-dos-navios-4.jpg por tantos navios.

O poeta cumpriu seu destino. Morreu sem partir, mas passou adiante a fascinação, a mesma fascinação que ele sempre sentia, quando, da janela, como acontecia naquele momento, acompanhava o vai-e-vem dos navios no mar.

“Um velho sujo demais
Sentado à beira do cais
E ninguém olha pra mim
Crianças brincam no escuro
E se arriscam no mar
Os homens perdem suas almas
E já não podem voltar
Velhos clandestinos já não têm valor
Não há mais promessas seja onde for.”

A noite já havia caído e os navios que aguardavam na barra a ordem para atracação piscavam suas luzes na linha escura do horizonte distante.navios-a-noite.jpg

Não era um poeta como o poeta que morrera.

Viveram épocas diferentes, viram navios diferentes, devem ter sonhado sonhos diferentes, mas eram igualmente fascinados pelo ir e vir das embarcações no mar que cercava a cidade.

Ainda debruçado na janela, perguntava-se quantas pessoas viviam hoje, naquela cidade, que ainda se fascinavam com o vai-e-vem dos navios, ou mesmo percebiam a presença deles ao largo da praia. Muito poucas, com certeza.

Mas que importância tinha isso, se o navio que ele aguardava chegar nunca havia partido?

cidade-dos-navios-3.jpg

One Comment leave one →
  1. marô permalink
    junho 24, 2007 2:19 pm

    Fidalgo:
    lindo, muito lindo este conjunto de sua obra!
    tô espalhando pra meio mundo e, com mó orgulho, dizendo que o autor é um amigão meu!
    beijos, que a seiva continue ( e a lhama te visite mais vezes!)
    Marô

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