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ESTUPIDAMENTE MUDO

agosto 23, 2007

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Ele se perguntava por que ela tinha esse poder. Não o poder de, de vez em quando, deixá-lo mal, pois, na verdade, vinha descobrindo que só ficava mal em relação a ela, quando ele próprio provocava esses estados de espírito negativos, deixando que seus fantasmas inventassem histórias de terror.

O que o intrigava era o poder que ela tinha de deixá-lo bem, muito bem, de uma hora para outra, num passe de mágica, como havia acontecido agora há pouco. Bastou sua voz ao telefone para que ele esquecesse a confusão em sua cabeça, o aperto em seu peito, o frio em sua pele. Sentiu até fome, embora pouco antes tivesse deixado metade da comida do almoço no prato do restaurante.

Para ser honesto, esse poder não apenas o intrigava, mas chegava a assustá-lo. Temia tornar-se irremediavelmente dependente daquele poder, a ponto de não conseguir mais viver sem aquilo, como alguém que se torna prisioneiro de uma droga irresistível.caracal_03a-thumb.jpg

Parou um pouco e chegou à conclusão de que, como costumava fazer, estava complicando e exagerando as coisas. Afinal, se havia encontrado, naquele ponto de sua vida, alguém que, com um simples toque, o colocava para cima, por que simplesmente não agradecer a aproveitar esse presente do presente?

O problema é que, lá no fundo, ele sabia que já estava dependente, tanto que, naquele momento, se flagrou olhando fixamente para o telefone, esperando que ela ligasse mais uma vez. Como é que ia suportar todo aquele resto de dia sem mais notícias dela? Mas que outras notícias ela podia lhe dar, além daquelas que já tinha recebido há pouco, durante aquele telefonema que o içara do fundo do rio para o alto da montanha? Provavelmente, nenhuma notícia nova.
Apesar dessa constatação, continuava, volta e meia, olhando para o telefone, que insistia em permanecer mudo, estupidamente mudo.

Começou, então, a enumerar em sua cabeça os motivos pelos quais ela não ligava. O motivo mais óbvio era, logicamente, que ela havia ligadopicasso-mulher.jpg há cerca de uma hora, e não havia, portanto, por que entrar em contato de novo após tão pouco tempo, só se tivesse acontecido algo grave. E se fosse isso mesmo? Se tivesse acontecido alguma coisa séria, quem sabe até uma tragédia?
Pediu a si mesmo para ir com calma, percebendo que navegava por águas turvas que ele próprio estava agitando. Lembrou das histórias de terror que seus fantasmas costumavam inventar e fez um esforço consciente para recuperar um mínimo de equilíbrio.

O mais provável é que ela não tivesse ligado de novo, primeiro, porque já havia ligado há pouco tempo, e depois porque devia estar muito ocupada em seu trabalho. Com certeza era isso, apenas e tão somente isso. Levantou da cama e procurou se distrair, começando a fazer uma série de coisas que precisavam ser feitas na casa, como, por exemplo, lavar a louça que havia ficado suja na pia da cozinha, colocar no varal as roupas que estavam dentro da máquina desde o dia anterior, trocar a água das flores, flores…botoes_rosas.jpg

Aquelas flores eram as rosas vermelhas que ele havia comprado dois dias antes, para enfeitar o quarto antes que ela chegasse. Engraçado, observou que as rosas continuavam em botão, recusando a abrir totalmente suas pétalas. Seguindo uma sugestão dela, ele havia inclusive colocado as flores na varanda, para que elas pegassem mais ar e luz, mas até agora as rosas continuavam fechadas. De qualquer forma, os botões vermelhos permaneciam bonitos, e isso encerrou o assunto.

Já tinha inventado e feito mil coisas pela casa, até mesmo varrido o quarto, que, afinal, nem estava tão sujo. Sentiu-se subitamente cansado, deitou-se na cama, ficou olhando para o teto e começou a rir de si mesmo. Às vezes se sentia e agia como um verdadeiro louco de pedra.

Ainda com um sorriso nos lábios, flagrou seus olhos pousados sobre o telefone, que permanecia mudo, estupidamente mudo.

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  1. simone permalink
    agosto 23, 2007 10:56 pm

    olá

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