Skip to content

PESCANDO

agosto 25, 2007

24-08-07_2150.jpg

Ele sabe que aquilo é uma armadilha porque já acontecera outras vezes. Preparava-se para escrever a dedicatória de um livro que pretendia dar a seu filho, mas ainda não havia comprado o livro.

Então, sentado ali, com a caneta na mão, olhando para a folha em branco do caderno, pensa: “E se eu morrer antes de comprar o livro? Imagine a tristeza do meu filho, se por acaso um dia descobrir, entre meus papéis velhos, a dedicatória que lhe escrevi para um livro que nunca lhe dei, porque morri!”

Ele sabe, porém, que não é só isso. A questão não é apenas a suposta tristeza que seu filho poderá sentir ao ler sua mensagem póstuma. Lá no fundo, ele teme que, se escrever a dedicatória antecipadamente, poderá, por ação de algum poder mágico indefinível, morrer antes de ter oportunidade de comprar o livro.

quatro.jpg“Isso é loucura”, ele diz em voz alta.

É loucura mas não consegue libertar-se da sensação de quase pânico que o impede de escrever a dedicatória.

“É uma armadilha”, repete para si mesmo.

Tenta reagir. Sim, já passara por situações muito parecidas. Por exemplo: quando tinha sete ou oito anos de idade, na escola, a professora, às vésperas do Dia das Mães, disse que os alunos iriam escrever um bilhete explicando por que amavam suas mães.

A professora afirmou: “Um dia, quando suas mães já tiverem morrido, vocês vão encontrar esse bilhete, amarelado, velhinho, no fundo de uma gaveta qualquer. Só então vocês saberão o quanto a mãe de vocês os amava, a ponto de guardar esse pedacinho de papel como uma dtres.jpgas coisas mais importantes de suas vidas.”

Pronto! De alguma forma, ele deduziu que a morte de sua mãe e o ato de escrever o tal bilhete estavam intimamente ligados. Mesmo assim, como na época tentava ser um bom aluno, escreveu o bilhete num papel azul, copiando as frases que a professora tinha colocado no quadro negro.

No domingo seguinte, entregou o bilhete à mãe, acompanhando um presente do qual já não se lembrava mais. Conforme o dia avançava, ele foi se sentindo triste, cada vez mais triste. No início da noite, aquele sentimento havia se transformado em profunda depressão. Quando sua mãe, vendo-o deitado sozinho no quarto escuro, perguntou-lhe o que estava acontecendo, ele concluiu que jamais poderia contar a verdade.

dois.jpg

Como é que ela iria entender que ele estava naquele estado porque já se imaginava, algum dia, abrindo uma gaveta do guarda-roupa e encontrando, lá no fundo, aquele bilhetinho azul, velho e amarelado, que havia dado à sua falecida mãe, num distante domingo de maio? Embora fosse muito compreensiva, ela deduziria que ele estava enlouquecendo ou, quem sabe, já tivesse pirado de vez. Só que ele tinha certeza de que ficaria totalmente louco se não desse um jeito de quebrar o ‘encanto’ daquele maldito bilhete. Disse então à sua mãe que queria o bilhete de volta.

“Mas por quê? O bilhete é tão bonito. Eu quero guardá-lo, guardá-lo para sempre”, respondeu sua mãe.

“Não, eu não quero que a senhora guarde. Eu quero que jogue fora”, ele rebateu.

“Eu não vou jogar fora uma coisa da qual eu gostei tanto e que é tão bonita.”

“Não fui eu que escrevi.”

“Como não foi você?”

“Eu copiei do quadro. Só isso. Foi a professora que escreveu.”dez.jpg

“Bem, mas isso não importa. De qualquer jeito, foi você que me deu. Não vou jogar fora.”

Ele não se lembrava, agora, do desfecho do caso. Não sabia se convencera sua mãe a lhe dar o bilhete e ele, realmente, o tinha jogado fora ou se tomara coragem de revelar o motivo de sua angústia maluca e de algum modo sua mãe conseguira fazê-lo entender que o bilhete não causaria a sua morte, nem a faria morrer mais cedo.

Mas o que exatamente isso tem a ver com a dificuldade que ele sente agora para escrever a dedicatória do livro que pretende comprar e dar para o filho? Ele não sabe direito por que, mas sente claramente que as duas situações estão relacionadas.

“E daí?”, pensa ele, revoltado com sua incrível capacidade de se perder num labirinto de sentimentos e questionamentos que nunca levam a lugar algum. Levantou-se, foi até a cozinha, bebeu o resto de café morno que sobrartres.jpga na garrafa térmica e saiu direto para a livraria.

Ele pede o livro e o vendedor, depois de consultar o computador, afirma que o livro tinha acabado. Explica que vai telefonar para a outra loja da rede, para saber se lá ainda existe o livro solicitado. Em caso negativo, o livro podia ser encomendado e chegaria dentro de uma semana.

Enquanto o vendedor telefona para a outra loja, ele se questiona se é realmente uma boa idéia dar aquele livro para o filho. Afinal, seu filho nunca foi muito chegado a livros, embora ultimamente tenha lhe contado que anda lendo “algumas coisas”.

“Ainda tem um último exemplar na outra loja. O senhor quer que mande buscar?”, pergunta o vendedor.

“Não, eu mesmo vou lá pegar”, responde.

Toma aquilo como um sinal, um sinal de que devquatro1.jpgia mesmo comprar o livro e dá-lo ao filho, apesar de não saber direito o motivo.

Já em casa, abre o pacote e, mais uma vez, fica observando a foto da capa, onde um homem e um menino de costas, sentados num ancoradouro, dão a impressão de estarem pescando. Abre o livro, pega a caneta e começa a escrever a dedicatória:

“Nós nunca pescamos e é provável que, se isso acontecesse, tivéssemos jogado os peixes de volta na água. Acho, contudo, que nós ‘pescamos’ de outra forma, trocando idéias sobre o passado, o presente e o futuro. ‘Pescamos’ a vida. E é muito bom ‘pescar’ com você.
Pai.
Te amo.”

cinco.jpg

 

One Comment leave one →
  1. agosto 29, 2007 1:14 am

    A habilidade com as palavras é fantástica. Fico apavorado cada vez que venho aqui…

    Como o meu forte não é esse, dá uma olhada aqui então: http://destemperados.blogspot.com/2007/08/uma-noite-agitada-no-la-barra.html

    Não que esse seja o meu forte, mas pelo menos dá pra dar risada 😎

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: