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A COISA

setembro 5, 2007

sala.jpg

– Não podemos nos esquecer do que realmente importa ou não. Passamos grande parte de nossos dias, de nossas vidas, nos preocupando com coisas que não são realmente importantes. E esse conceito de importância não deve se basear em normas éticas, políticas, nem mesmo filosóficas ou religiosas, mas sim em nosso discernimento particular sobre o que é realmente importante ou não para cada um de nós.
A boca estava seca, a garganta doía um pouco e ele precisava desesperadamente de um gole de água. Olhou para a platéia e, ao fixar o semblante de dois ou três rostos bem à sua frente, teve certeza de que não havia conseguido expressar exatamente o que queria dizer.
– Alguém tem alguma pergunta?
, indagou, limpando a garganta com uma tosse forçada.
– Ao desprezar a ética, a política, a filosofia, a religião, o senhor está defendendo um individualismo extremado, disse um rapaz loiro da terceira fila.
– Eu não estou desprezando ética, política, filosofia ou religião. Só estou afirmando que esses sistemas de pensamento, que em geral são sistemas pré-concebidos e fechados, não servem, às vezes, para que descubramos o que, em nosso íntimo, realmente importa ou não.

1705.jpg– E qual o sistema que devemos usar para sabermos o que é importante ou não para nós? , perguntou uma garota japonesa, que mascava chiclete e enrolava compulsivamente a ponta dos cabelos com a mão esquerda.
– Não existe um “sistema” para isso. Não é uma coisa que você encontra em algum livro ou num site de auto-ajuda na Internet. É algo que vem de dentro.
– De dentro de onde?
, insistiu a garota.
– De dentro de você, de dentro de nós…
– E como é que a gente acha?
– Acha o quê?
– Essa coisa dentro da gente, essa coisa que faz a gente saber o que é importante ou não?

garota.jpgEle se sentiu encurralado num beco escuro. Não sabia como explicar à garota japonesa de que forma ela poderia achar a “coisa” que nos ensinava a perceber o que é importante ou não. Ele próprio não sabia como encontrar a “coisa” dentro dele. Na verdade, achava que cada um tinha a sua “coisa” particular e, portanto, os caminhos para encontrar a “coisa” eram pessoais e intransferíveis.

– Só você pode descobrir a sua “coisa”, disse ele, por puro instinto de sobrevivência.

Embora seu olhar demonstrasse que estava cada vez mais confusa, a garota japonesa não perguntou mais nada.
Foi a vez então de um homem de meia-idade, quase careca, no fundo da sala, perguntar:
– O que é importante para o senhor, afinal de contas?
– Depende de cada situação.

– O senhor está fugindo do assunto. O senhor disse que precisávamos descobrir o que era ou não importante. Muito bem, eu até concordo. É por isso que estou perguntando: o que é importante para o senhor?

1708.jpg– Não estou fugindo do assunto. Repito que saber o que é ou não importante depende de cada situação.
– O amor é importante? ,
perguntou uma mulher de cabelos ruivos, quase vermelhos, aparentando 30 e poucos anos.
– O amor é sempre importante, ele respondeu.
– Foi a sua “coisa” que lhe disse isso? , emendou de repente a garota japonesa, como que despertando de um transe.
– É, foi a minha “coisa” que me disse isso, ele respondeu.
– Ah, então agora eu já sei como encontrar a “coisa” dentro de mim, afirmou, entusiasmada, a garota japonesa.
– Acho tudo isso muito individualista, voltou à carga o rapaz loiro da segunda fila.
– Não acho que o amor seja uma coisa individualista, reagiu a mulher de cabelos ruivos, quase vermelhos.
– Não estou dizendo que o amor é individualista. Individualista é esse negócio de ficar procurando uma “coisa” que te diz o que é ou não importante, defendeu-se o rapaz loiro da segunda fila.
– Senhores, estamos perdendo o rumo do nosso debate, ponderou do fundo da sala o homem de meia-idade, quase careca.
– Vocês estão discutindo e complicando tudo porque ainda não aprenderam a descobrir a “coisa” dentro de vocês mesmos, disse quase gritando a garota japonesa, que não parava de mascar seu chiclete e de enrolar o cabelo.
– Não há “coisa” nenhuma a descobrir. Vocês estão todos loucos, berrou uma velha senhora que se encontrava próxima à porta de saída e até então ficara calada.
images.jpg A senhora diz isso porque já está perto da morte. Eu ainda quero descobrir muitas coisas, berrou mais alto ainda a mulher de cabelo ruivo, quase vermelho.
– Estamos desviando o rumo do debate, estamos perdendo o rumo do debate, repetia sem parar o homem de meia-idade, quase careca.

Definitivamente, ele tinha perdido o controle da situação. As pessoas da platéia estavam exaltadas, discutindo entre si. Ninguém mais parecia lembrar de que tinham vindo àquele local para assistir a uma palestra sobre “A Essência do Existir”, proferida por aquele sujeito que agora estava ali, paralisado diante daquele grupo de pessoas cada vez mais enfurecidas, defendendo argumentos que ele não conseguia mais entender.
Apanhou suas anotações sobre a mesa, colocou na pasta, deu uma última olhada para a platéia ainda ensandecida e saiu da sala. Ninguém percebeu a sua ausência.

untitled-1.jpg

 

 

 

 

4 Comentários leave one →
  1. setembro 15, 2007 2:47 pm

    Oano, deixa só eu abrir – e fechar – parênteses: o Betão http://omeulugar.wordpress.com completou 20 mil visitas!!!

    Chama o Corvo e vamo lá tomar umas com ele!!!

    Foi?

    To indo lá 😎

  2. setembro 15, 2007 3:12 pm

    Que COISA! Já cheguei!

  3. setembro 15, 2007 4:00 pm

    Hehehehe, tu é rápida pra cacildis, hein Larga!

    Não tem como disputar contigo merrrmo 😀

  4. Maria Aparecida permalink
    maio 18, 2008 5:02 pm

    FIDALGO,

    Achei muito criatividade na sua abordagem;
    não lhe falta imaginação.
    PARABÉNS.

    CIDA LORO

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