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MINHA CONVERSA COM A LAGARTIXA

maio 14, 2008

Minha conversa com a Lagartixa

*Por Marcos Augusto da Silva Ferreira

_ Olá!
_ Você por aqui?
_ Surpreso?
_ Não podia ser diferente, não acha?
_ E então?
_ Então o quê?
_ O livro
_ Acabei de ler
_ Sei disso. E aí?
_ Aí o que, porra?
_ Não apela. Calma lá. Vai dizer que você perdeu algumas horas do seu início de madrugada, sentado nessa privada desconfortável, e só vai-me dizer que acabou de ler?
_ E você, vai me dizer que passou as mesmas horas de inícios de madrugadas me vigiando, aí de cima?
_ Não disfarça. Também não foi fácil para mim. Foi bastante desconfortável, pois seu banheiro está precisando de uma boa reforma e os cupins estão adorando essa velharia toda. Além disso, você há de concordar comigo: vê-lo sentado em uma privada, pelado, está longe de estar entre os zilhões de coisas prazerosas. Mas vamos, desembucha. O que achou?
_ Achei sua participação fantástica, repleta de ironia e sarcasmo.
_ E…
_ Confesso que senti um pouco sua ausência na segunda parte da história (ou da quase história… ou sei lá… do livro).
_ Mas eu estava lá. Além do mais, a história é do cara e ele tinha prioridade, tinha que aparecer mais. Do contrário, poderia me eliminar de vez.
_ Conheço o cara, não faria isso. Além do mais, ele não estava escrevendo ´Em busca da Lagartixa Perdida`.
_ Que trocadilho babaca, uma pseudo-citação pseudo-intelectual. Você está me enrolando. Continua.
_ Porra, não sou crítico literário. Gostei do livro, mas há passagens que achei um pouco chatas.
_ Como assim?
_ Ora, assim sendo.
_ Exemplifique.
_ Que aporrinhação.
_ Não seja imbecil, sei que você está louco para ver o cara e dizer que acabou de ler o livro e dizer o que achou, suas considerações e elogios. Então, desembucha.
_ Confesso que achei o início do caralho. A coisa das ´obras` queimadas etc. e tal. , que depois foram muito bem aproveitadas no final do livro. Aquela coisa do cara achar que vai se alistar e acabar com um emprego de carteiro. Lembrou um pouco Cartas na Rua, do Bukovski. Aí, depois…
_ Aí o quê?
_ Deixa eu falar, caralho.
_ Já vi que você também é daqueles que usa os palavrões como se fosse pontuação gramatical. O supra-sumo da manifestação cerebral do ser racional: a ignorância. Prossiga.
_ Depois, achei que íamos entrar naquela coisa do escritor em crise, escrevendo sobre o comportamento de um escritor em crise, atrás de uma obra-prima… Sabe aquela coisa de artista, intelectual: a obra dentro da obra, as agonias da criação etc. e tal.
_ Creio que você teve neurônio suficiente para perceber logo que não era nada disso, não é?
_ Tive uma agradável surpresa, pois temia que viesse aquela divagação de escritor ´beat, sabe? Aquela coisa de ficar chapadão e conversar com o copo de cerveja, pendurado num balcão imundo de um boteco imundo… e ainda justificar que tudo é uma verdadeira manifestação da alma.
_ Pode ser isso, já que o cara conversa com uma lagartixa.
_ Uma não, você. E aí é que está o surpreendente do livro. Sua participação é fundamental para que o cara, o escritor, não transforme o livro em um muro de lamentações e angústias.
_ Taí, gostei disso.
_ Por esse motivo, senti sua falta na segunda parte.
_ O que incomodou você?
_ Não foi incômodo, pois incômodo é sempre bom numa obra.
_ Agora está falando como crítico.
_ Deixa eu falar. Não me convenci daquela história de quartinho de hotel no centro da cidade, o tal do Ronaldo, aquele troço de Poeira Invisível, A Coisa… Se bem que gostei do Esconderijo.
_ O cara estava se exercitando, meu chapa. Queria tomar coragem para escrever um livro.
_ Eu sei. E gostei muito da estrutura do livro: uma história dentro da história.
_ Então, é isso mesmo.
_ Veja bem, não tenho a menor certeza sobre isso e também não quero saber. Só sei é que gostei quando você reapareceu e botou o cara, a coisa, a porra do Ronaldo, a puta que o pariu… todos eles você fez acabarem com a ladainha.
_ Demorei para encontrar o cara naquele hotel desclassificado.
_ Eu sei. Até rezei para chegar logo a hora do reencontro. Já estava a ponto de estourar os miolos do cara ou mandá-lo comprar uma plantinha e esquecer o livro.
_ Ainda bem que você resistiu.
_ Não foi difícil, gostei e vou falar para o cara. Li (e ri também) e gostei.
_ Gostou mesmo?
_ Sim, o suficiente para estar em postura imbecil, em situação horrenda, contando tudo para uma lagartixa. Ou seja, gostei de forma tão absurda que cá estou, sentado em uma desconfortável privada, posando de crítico literário para inflar o ego de uma lagartixa e de um cara que conversa com lagartixa.
_ Não seja imbecil. Não tenho ego. O cara é que vai ganhar todas as glórias, o loros da vitória.
_ Às lagartixas, as batatas.
_ Mais uma citação babaca.
_ Mas é você que está na capa e domina as imagens do livro.
_ Taí, gostei disso, também. Você é uma espécie de crítico ou escritor frustrado e agonizante?
_ Êpa, peralá. Não venha querer ganhar espaço em história alheia. Vá infernizar seu criador, ó criatura.
_ Então, da próxima vez, procure um lugar mais agradável para entrar na história alheia.

_ Vá embora, isso aqui é insano. Já perdi muitas horas do meu início de madrugada e daqui a pouco tenho que estar pronto para o trabalho. Direi pessoalmente ao autor que gostei do livro.
_ Como quiser. Mas espere eu sumir atrás do armário para depois você se levantar e dar a descarga. Me poupe desta cena hedionda e surreal. Oh, não. Não ouse levantar-se. Adeus…..

* Marcos Augusto da Silva Ferreira é jornalista

O LIVRO “O ANO DA LAGARTIXA” PODE SER ENCONTRADO NO SITE OS VIRALATA, NAS LOJAS DA REALEJO LIVROS (Av. Marechal Deodoro, 2, ou no Shopping Miramar, 2º piso, Gonzaga, Santos) E NA LIVRARIA MARTINS FONTES (Av. Ana Costa, 530, Gonzaga, Santos)

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