Skip to content

CAFÉ, PÃO E MANTEIGA

janeiro 5, 2009

imagem4
Era como se precisasse sempre voltar ali, ao lado escuro, para perceber a luz. Por isso estava novamente naquelas ruas sujas e escorregadias, molhadas pela chuva forte que caíra pouco antes. Por isso procuraria alguma das mulheres que, como ele, também caminhavam agora naquelas ruas sujas, escorregadias e molhadas. E por isso, como era inevitável, acabaria aquela noite totalmente bêbado e dopado.

Por alguns segundos pensou que, desta vez, poderia escapar de tudo aquilo. Afinal, era só não dobrar a próxima esquina e voltar à avenida do porto, pela qual tinha chegado até ali. Mas tudo se dissipou quando aquela mulher ruiva e magra o chamou. Logo estava sentado naquele bar e, após três ou quatro doses, a fumaça, os gritos, as risadas e o cheiro deixaram de incomodá-lo.

Também não se incomodou com o fato daquela cama estar coberta por uma colcha rosa que parecia não ser lavada há séculos. Afinal, não estava naquele quarto de hotel para verificar as condições sanitárias do estabelecimento. Estava lá para trepar com a mulher ruiva e magra que havia ido para ali com ele. Isso se seu pau ficasse ao menos um pouco duro, apesar da enorme quantidade de álcool que agora circulava em suas veias. Isso se a mulher ruiva e magra não desmaiasse antes de abrir as pernas. Isso se os dois não morressem, antes de fazer qualquer coisa.

Mas, como o amor sempre vence, eles conseguiram trepar, ou pelo menos foi isso que lhe pareceu que eles tinham feito, quando adormeceu naquela cama coberta por aquela colcha que não via água há séculos. Acordou com a boca seca e sabendo que precisava dar logo o fora dali e procurar o cara, se ainda quisesse ter alguma chance.

Por isso estava de novo agora naquelas ruas escuras, que continuavam escorregadias e molhadas, embora ele logicamente não houvesse percebido que chovera – e muito – de novo. No quarto ou quinto bar – ele não tinha certeza porque em cada bar que entrava ele bebia várias doses -, ele finalmente encontrou o cara, que não ficou exatamente feliz de vê-lo, já que ele estava lhe devendo dinheiro das duas últimas compras. Mas, como sempre acontecia, tudo acabou se resolvendo após uma tensa e rápida negociação, desta vez envolvendo um relógio de pulso, dois cheques pré-datados e um pouco de dinheiro vivo.

Agora ele estava de novo num quarto escuro e malcheiroso, mas a mulher ruiva e magra não estava com ele. Não reparou se a colcha da cama havia sido lavada ou não nos últimos anos porque sentou-se no chão e logo acendeu seu isqueiro.

Quando o dia começava a amanhecer, ele arrastava seu corpo pelas ruas, que agora não estavam mais escuras, mas continuavam molhadas e escorregadias, embora ele logicamente não houvesse percebido se chovera mais ou não. Já na avenida do porto, foi obrigado a se esconder atrás de um caminhão estacionado para tentar vomitar algo que se recusou a sair de dentro do seu estômago. Na verdade, percebeu que queria mesmo era dar uma cagada, mas de algum modo conseguiu segurar suas tripas, diante da impossibilidade de limpar a bunda depois de feito o serviço. Lembrou-se então de que estava sem dinheiro e que teria que voltar a pé para casa. E, naquele momento, se surpreendeu com o fato de ainda ter um lugar para onde voltar e que podia ser chamado de casa.

As ruas não estavam mais molhadas e escorregadias. Na verdade, talvez fizesse sol, se o sol conseguisse espantar as nuvens que ainda flutuavam pelo céu do início daquela manhã. A vontade de cagar havia desaparecido e, ao que parece, seu estômago tinha entrado em um acordo com os objetos estranhos que tentara expulsar pouco antes.

Esqueceu-se de que não tinha dinheiro e entrou na padaria. Pediu um café e, quando a balconista já ia se afastando, resolveu pedir também um pão com manteiga.

Enquanto mastigava o pão e sorvia alguns goles de café, as coisas pareciam ter voltado a fazer algum sentido.

imagem6

2 Comentários leave one →
  1. janeiro 5, 2009 11:24 pm

    Pela primeira vez consegui espichar o tempo parar ler um texto seu inteiro e direito. Há uns bons anos estou vivendo um tanto atrasada, me desculpe. Mas li e gostei demais. Muito bom mesmo. Beijos.

  2. janeiro 7, 2009 11:31 pm

    po, legal fidalgo. vem aí um novo livro?

    quero muito ver o gran torino. parece que sai por aqui só em fevereiro… fico esperando.

    abraços!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: