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ÉTER

janeiro 11, 2009

limbo
Ela não sabia por que aquilo acontecia. Simplesmente acontecia e todas as buscas por motivos – e foram muitas as buscas – haviam sempre se revelado inúteis. Por sorte, chovia lá fora, obrigando o calor a dar uma trégua. Seria muito mais difícil – talvez impossível – suportar tudo aquilo que estava sentindo, se a temperatura estivesse tão alta quanto nos últimos dias.

Mas a chuva, agora, e o vento que de vez em quando soprava impediam que ela entrasse em completo desespero. Sim, o gato que brincava com uma bolinha de tênis ao lado da cama também ajudava. Na verdade, tudo ajudava a evitar o pior, mas ela sabia que aquilo tudo era passageiro. Uma trégua, como a trégua no calor daquele verão, permitindo um pouco de chuva e a queda da temperatura. Aliás, essa era uma das suas manias ultimamente, vasculhar as previsões de tempo nos telejornais e nos sites especializados da internet.

Lógico que seu interesse era pelas previsões de chuvas, chuvas que permitissem aquelas breve tréguas no verão inapelavelmente pesado que sempre se abatia sobre a cidade. Esse era um de seus segredos, quer dizer, ela jamais contaria a ninguém que torcia para que chovesse no verão. Todos a chamariam de louca, doente, adjetivos dos quais ela, afinal, não discordava muito. De qualquer forma, fosse pela chuva, fosse pela queda da temperatura – e ainda que tudo aquilo fosse temporário -, ela provavelmente conseguiria sobreviver a mais aquele mergulho no éter.

Estranho a palavra éter ter surgido naquele momento. Fazia muito tempo que ela não a usava, não a ouvia, nem pensava nela. Nunca achou que o éter tivesse qualquer outra utilidade a não ser amenizar a dor das picadas das injeções na bunda. Isso até aquele dia, quando a mãe daquela sua amiga, referindo-se a uma mulher que conhecia, afirmou: “Ela não presta. Bastar chegar perto dela e a gente já sente o cheiro do éter.”

Alguns anos depois, descobriu que éter, além de ser usado para dar injeção, também servia para cheirar. Ela, porém, nunca gostou do efeito. Também não gostava de clorofórmio, ao qual foi apresentada no colegial, ironicamente, por um professor de química, que compartilhou com alguns alunos, num lenço, um pouco da substância, encontrada numa das prateleiras do pequeno laboratório da escola.

Nada disso, contudo, vinha ao caso agora. O éter no qual ela de vez em quando mergulhava não era acondicionado em vidros. Estava armazenado em algum lugar dentro dela, embora não fizesse a mínima idéia onde. Mas não podia negar que a sensação era parecida.

Como quando aspirava o éter num lenço, aquele mergulho no “seu” éter a deixava completamente tonta. E por isso ela não sabia por que aquilo acontecia.

Simplesmente acontecia.

E não havia nenhum motivo para aquilo.

dali

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