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AQUELA COISA SAGRADA, INVISÍVEL…OU SEJA LÁ O QUE FOSSE

janeiro 18, 2009

cartier-bressonCaminhou até a beira do mar, agarrou um punhado de areia com a mão direita e o atirou na água. Era o mais próximo que conseguia chegar de algo parecido com uma tentativa de se comunicar com o sagrado, o invisível…ou seja lá o que fosse. O problema é que estava muito calor e ele podia sentir o sol fritando seus miolos, embora já fosse início da tarde.

Resolveu então que era melhor deixar aquela merda de lado e voltar para casa. Afinal, que idéia mais estúpida aquela de camelar até a praia, debaixo daquele sol assassino, para atirar um punhado de areia no mar, apenas porque, quando acordara naquela manhã, lhe ocorrera que aquela talvez fosse uma boa maneira de tentar se comunicar com o sagrado, o invisível…ou seja lá o que fosse.

Aliás, quando atravessava a avenida da praia, chegou à conclusão de que, caso se jogasse embaixo de um daqueles carros e ônibus que não paravam de passar, sua tentativa de se comunicar com o sagrado, o invisível…ou seja lá o que fosse, seria certamente muito mais eficiente – e rápida – do que ficar atirando areia no mar, como o idiota da aldeia.

Mas então o sinal fechou, quer dizer, fechou para os carros e ônibus, que tiveram de parar de passar, e abriu para os pedestres, que puderam atravessar a avenida, adiando um pouco mais seu contato imediato com os sagrado, o invisível…ou seja o que fosse. Quando percebeu, já estava do outro lado da avenida, considerando a possibilidade de comprar um chapéu, para se proteger um pouco daquele sol assassino.

Percorreu várias lojas e também as bancas de alguns camelôs, mas não encontrou nenhum chapéu que o agradasse. Em determinado momento, inclusive, começou a achar absurda aquela idéia de comprar um chapéu para se proteger do sol, já que a temperatura havia baixado consideravelmente. Percebeu então que tinha se metido no interior de um shopping, com o ar condicionado funcionando a toda. Como achou difícil encontrar ali alguma loja que vendesse um chapéu de que gostasse, voltou para a rua – e para o sol assassino.

Concluiu então que, se quisesse talvez encontrar o “seu” chapéu – embora não tivesse idéia de como seria esse chapéu -, precisaria se deslocar até o centro da cidade. Então começou a caminhar para lá e, a certa altura do caminho, teve a nítida sensação de que o sol assassino havia torrado totalmente seu cérebro e que, portanto, em alguns segundos, ele teria seu contato imediato com o sagrado, o invisível…ou seja lá o que fosse.

A revelação, porém, foi adiada mais um pouco por grandes goles de água mineral com gás gelada, que ele sofregamente ingeriu junto ao balcão de um bar em que providencialmente tropeçou no caminho.

Finalmente, depois de procurar em diversos lugares, encontrou um chapéu do qual gostou, mas ficou em dúvida sobre se levava o de número maior ou o de número menor. Após colocar seguidas vezes um e outro na cabeça, optou pelo menor. Pagou a balconista, já usando o novo chapéu, e foi tomar o ônibus de volta para casa, pois, mesmo que agora tivesse uma proteção contra o sol assassino, o calor continuava insuportável e desestimulando qualquer tipo de caminhada mais longa.

Já dentro do ônibus, começou a sentir-se incomodado com a leve pressão que o novo chapéu fazia em sua cabeça, em especial junto a sua testa. Ponderou que devia estar entrando numas, como era comum acontecer sempre que usava algo novo, óculos, roupa, perfume, etc., etc. e, logicamente, chapéus. E, afinal, ele, o chapéu, acabaria alargando um pouco com o uso, o que resolveria o problema da leve pressão na testa.

Tudo estava resolvido até que ele, de repente, reparou que o percurso que o ônibus começara a fazer o levaria a passar mais uma vez exatamente diante da loja onde havia comprado o chapéu. Loucura, não iria fazer aquilo, em hipótese alguma, pensou ele, enquanto repassava em sua mente todos os argumentos que o levaram à decisão de ficar com o chapéu que agora estava em sua cabeça. Mas ele bem que poderia…piração, nada a ver…

Não havia nada de errado com aquele chapéu. Ele logo estaria mais largo e a pressão na testa desaparecia. Além disso, o chapéu de número maior, que havia sido preterido na loja, iria ficar muito grande, largo, esquisito…

Pediu ao motorista que parasse no próximo ponto. O motorista deve ter achado um tanto estranho alguém subir no ônibus e descer apenas alguns pontos depois, mas atendeu ao pedido. Ele desceu, entrou na loja e perguntou à balconista se haveria algum problema em trocar o chapéu menor que estava na sua cabeça pelo maior, que voltara para a vitrine. A balconista sorriu, provavelmente recordando a dificuldade que ele teve para escolher entre os dois chapéus de números diferentes. Respondeu, contudo, que não havia problema algum, que ele poderia trocar o menor pelo maior. Ele enfiou o novo chapéu novo na cabeça a foi embora.

Resolveu que não pegaria outro ônibus. Iria a pé, até porque nuvens tinham encoberto o sol e ele se sentia disposto a enfrentar a caminhada até em casa. Ao passar por um vidro escuro, que mostrou seu reflexo, gostou do chapéu em sua cabeça. E o melhor de tudo: não sentia qualquer pressão. Encontra finalmente o chapéu que estava procurando. Naquele momento, por breves instantes, teve a sensação de que havia entrado em contato com aquela coisa sagrada, invisível…ou seja lá o que fosse.

l-73

4 Comentários leave one →
  1. lalia permalink
    janeiro 19, 2009 4:50 pm

    como é bom ligar meu computador e ler essas delícias que voce escreve!

  2. Ratinho permalink
    janeiro 20, 2009 4:02 pm

    Eu sempre viajo na tua viagem, é pra isso mesmo?

  3. janja2009 permalink
    janeiro 22, 2009 7:13 am

    ehehe um chapéu apertado esgana os pensamentos. (paulocorrrea)

  4. janeiro 30, 2009 11:34 am

    Cabeça explode, irmão!!!

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