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UM DIA NA VIDA

fevereiro 2, 2009

sel_10Há tempos ele tinha algumas coisas para ler, algumas coisas para ouvir, algumas coisas para ver, algumas coisas para escrever, algumas coisas para fazer. Bem, ele tinha lá todas essas coisas que, por alguma razão, considerava vitais para a sua sobrevivência nos dias que ainda lhe restavam em cima do planeta.

Às vezes, porém, achava que tudo aquilo era uma grande bobagem, como tantas outras ao longo da sua vida, coisas que pareciam muito importantes, a princípio, mas que, com o passar do tempo, se revelaram o que exatamente eram, ou seja, grandes bobagens.

De qualquer forma, não estava fazendo, naquele momento, nenhuma das coisas que considerava vitais para a sua sobrevivência nos dias que ainda lhe restavam em cima do planeta. E, como intuia que acabaria morrendo antes de fazer qualquer uma daquelas coisas, acabaria nunca descobrindo se eram coisas importantes ou como as outras, no passado, grandes bobagens.

Então ficou ali, olhando para o rosto das pessoas sentadas no trem e se perguntando quantas delas também achavam que tinham coisas importantes a fazer para a sua sobrevivência nos dias que ainda lhes restavam em cima do planeta. Por sorte, sua estação chegou logo e ele desceu, livrando-se daquele exercício inútil e idiota de tentar descobrir quantas pessoas dentro daquele trem achavam que tinham coisas importantes para fazer nos dias que ainda lhes restavam em cima do planeta.

Contudo, enquanto dava seus primeiros passos pela calçada, logo depois de descer do trem, voltou ao seu inferno particular, dessa vez tentando elaborar, mentalmente, uma lista precisa das coisas importantes que tinha para fazer nos dias que ainda lhe restavam em cima do planeta. Talvez desse modo, especificando uma a uma as tais coisas, ele finalmente começasse a tomar providências concretas a respeito.

Foi bem concreta a pancada de sua cara contra o poste. Bater a cara contra postes não era algo totalmente inusitado na sua vida. Já havia acontecido algumas vezes, com uma frequência até razoável. De vez em quanto, ele ficava tão absorto em seus pensamentos caminhando pelas ruas que batia em alguma coisa, geralmente em postes, ou tropeçava em alguém. Preferia colidir com postes, já que estes não reagiam e não reclamavam, além de não ser necessário pedir desculpas.

Em todo o caso, o fato é que fazia tempo que ele não enfiava a cara num poste, como tinha acabo de acontecer há pouco. Chegou a ficar até meio tonto com a batida, pois vinha caminhando relativamente depressa, preocupado em elaborar sua lista minuciosa de coisas importantes para fazer nos dias que ainda lhe restavam em cima do planeta.

Mas o pior foi ter que explicar à mulher que caminhava logo atrás dele, e que o viu enfiar a cara no poste, que ele estava bem, que aquilo, inclusive, era comum de acontecer, porque ele era um sujeito meio distraído e os postes eram muito atentos às pessoas distraídas que passavam pelas ruas.

Quando finalmente se livrou da mulher, percebeu que havia se esquecido completamente da lista que estava fazendo sobre as coisas importes que teria que fazer nos dias que ainda lhe restavam em cima do planeta. Foi como se a porrada no poste tivesse provocado algum tipo de curto-circuito.

Resolveu, então, deixar aquilo para alguma outra hora, até porque acabara de chegar à conclusão de que seu grande problema era com o tempo, isto é, ele não aguentava sentir o tempo que ainda lhe restava em cima do planeta como que se esvaindo pelos dedos das suas mãos. Ficava então dividido entre a angústia de ver o tempo passando e a ansiedade de que ele passasse o mais rápido possível.

Talvez a pancada no poste tivesse sido mais forte do que ele avaliara. Talvez a mulher que caminhava atrás dele, pouco antes da colisão, estivesse certa, quando o aconselhou a passar no pronto-socorro para tirar uma radiografia da cabeça. Talvez todas as pancadas em postes que já havia dado em sua vida, enquanto caminhava pelas ruas tentando entender o que diabos estava fazendo em cima do planeta, tivessem causado algum dano sério e irreversível no seu cérebro. E isso explicaria tudo.

Ou talvez não fosse nada disso. Afinal, era só mais um dia na vida.

One Comment leave one →
  1. fevereiro 7, 2009 4:42 pm

    um dia na vida…

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