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A EXPERIÊNCIA

fevereiro 25, 2009

aexperic3aanciadolugar1

“Não fizemos experiências com você. Você é a experiência!”.

Não havia como negar que aquilo era assustador, mas, por outro lado, explicaria muita coisa. Quem sabe, talvez, explicasse definitivamente tudo.
Ao mesmo tempo, aquela informação desconcertante o eximia de qualquer responsabilidade por seus atos, passados, presentes e futuros. Não era nada desagradável sentir-se, pela primeira vez na vida, totalmente livre de qualquer espécie de culpa, até mesmo por aquilo que poderia fazer dali para frente.
No entanto, uma outra coisa que eles disseram o preocupava, e muito.
A experiência ainda estava em curso e não existia previsão de quando terminaria.
Isso o colocava diante da perspectiva de uma ansiedade infinita.
Concluiu que, quando lhe revelaram a sua condição de experiência – experiência em curso, bem entendido -, eles sabiam que, juntamente com o alívio, causado pelo fim do sentimento de culpa por seus atos, surgiria a angústia por descobrir que continuaria sendo um mero joguete num projeto experimental sabe-se lá com que objetivo.
Resumindo, tudo fazia parte da experiência, e ele era a experiência.
Na manhã seguinte, ele acordou se perguntando quando, exatamente, a experiência devia ter começado. Logo que nascera ou em algum ponto determinado da sua vida?
Embora não dispusesse de nenhum dado concreto para isso, estava inclinado a achar que a coisa tinha começado em algum ponto entre a sua puberdade e adolescência propriamente dita.
Era naquele período que identificava a ocorrência de algumas atitudes e pensamentos seus muito estranhos e sem o mínimo sentido.
Na verdade, era capaz de apostar que a coisa começou ali. Ali, naquele ponto, eles, de alguma forma, conseguiram dar início a tal experiência.
Duro admitir, mas tudo o que acontecera daquele ponto em diante havia sido monitorado e, muito provavelmente, em grande parte, provocado por eles.
Então, todos aqueles sentimentos, todas aquelas descobertas, todas aquelas emoções, até mesmo as drogas e o sexo, tudo aquilo não lhe pertencia, era apenas produto das diretrizes traçadas dentro de um projeto que eles simplesmente denominavam de “a experiência”.
Gostaria de saber pelo menos– e provavelmente nunca saberia – por que eles o escolheram.
Sobre isso não conseguia identificar quaisquer indícios.
Tinha sido uma criança normal, criada por uma família normal, vivendo numa casa normal localizada num bairro normal de uma cidade normal.
Bem, aquela digressão toda era, agora, inútil como tentar trocar os pneus de um carro em movimento. E, com quase toda certeza, aquela reflexão toda também estava sendo estimulada ou, no mínimo, monitorada por eles.
Mesmo assim sentia que havia algumas brechas, brechas onde ele conseguia pensar e agir por si próprio. Essa percepção, se correta, significava que o sistema deles não era tão perfeito, pelo menos por enquanto.
Aliás, o próprio confronto que os obrigara a revelar que o tinham transformado numa experiência devia ter sido provocado por uma dessas falhas no sistema.
Não havia razão alguma para informar à cobaia sobre a existência do experimento, a menos que…a menos que essa informação fosse parte da programação da experiência.
Se fosse assim, ele teria que reconhecer que o sistema deles era, sim, perfeito e que até mesmo o que parecia ser falha era, na realidade, sofisticação de processo.
Isso o colocava frente a uma constatação terrível: eles o tinham totalmente sob controle.
E até mesmo essa dedução havia sido estimulada por eles.
Enquanto seu rosto se aproximava do asfalto, durante o mergulho do prédio mais alto da cidade, ele lembrou que, há três dias, não tomava suas pílulas.
Uma experiência que, no final das contas, não tinha dado muito certo.

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One Comment leave one →
  1. noemi macedo permalink
    fevereiro 25, 2009 3:09 pm

    Dessa vez a Lagartixa foi cruel demais.
    Aguçou minha cuirosidade e me regelou denunciando medo de ler e de ver para não lembrar o passado vivido por outros, alguns muito próximos de mim.

    A experiência me fez lembrar os anos sessenta, quando no silêncio, tentava imaginar o que se passava na saleta do 5º andar do Palácio da Polícia e na sala do 6º BPM/I .

    Puta crueldade

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