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SALVO PELO CONGO

março 11, 2009

night81-7021831

Não era certamente a primeira vez que chegava até ali. Se isso era de certa forma tranquilizador, já que de um jeito ou de outro tinha conseguido escapar das vezes anteriores, era sinal também de que, como das vezes anteriores, acabaria, sabe-se lá quantas vezes, voltando para aquele lugar.

Não que isso fosse uma espécie de maldição eterna ou qualquer coisa do tipo, pois sabia que, em alguns desses seus repetidos retornos, acabaria definitivamente preso ali, sem absolutamente nenhuma chave de escapar de novo.

Agora, porém, não era hora de ficar filosofando sobre essas coisas. A urgência, no momento, era descobrir como escaparia dali desta vez.

Não muito tempo atrás, àquela altura, já teria pensado em quatro ou cinco maneira de vazar dali. Desta vez, contudo, sua cabeça se recusava a focar qualquer projeto de fuga decente.

Aliás, sua cabeça se recusava a focar qualquer outra coisa que não o fato de que, como já havia estado ali tantas vezes, mesmo que escapasse de novo, acabaria sempre retornando para onde estava agora.

Pensou, então, que talvez aquela fosse a tal da última vez. Não estava conseguindo imaginar nenhuma rota de fuga porque, daquela vez, não haveria mais como fugir.

Estava preso ali para todo o sempre.

Ele sabia que, mais dia, menos dia, isso acabaria acontecendo. Mas agora, que estava realmente acontecendo, ficou cheio de raiva, como uma criança logo após ser apanhada em flagrante fazendo algo que já lhe haviam proibido de fazer milhares de vezes antes.

De repente, a luz da sala se acendeu.

– O que você está fazendo aí, no escuro, ela perguntou.

– Nada, só descansando um pouco, ele respondeu.

– Você fez café?

– Não.

devaneiowordpress

2 Comentários leave one →
  1. Ricardo permalink
    março 11, 2009 11:11 pm

    Ou seja, só tem mesmo um lugar para nós nesse mundo, tranquilizador e opressivo, e não há nada a fazer além de trabalhar nesse espaço restrito – se dermos sorte, com um café fresco e uma boa mulher do lado. Não há última vez nem rota de fuga.
    Falando nisso, você leu o livro que conta a história da gravação de Exile in Main St.? Vale a pena. Um beijo.

  2. Angela Antunes permalink
    dezembro 29, 2009 12:04 pm

    Cada um tem o seu próprio”esconderijo” ,qvamos e voltamos quando queremos ou quando precisamos….
    Não há lugar, para um café ou uma companhia…ou melhor ..é vs com vc mesmo….a fuga não está na saída e sim na entrada…
    bj
    Angela

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