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PESSOA COMUM

março 31, 2009

senso-comum1
Algum tempo atrás, a mera suposição de que aquilo fosse verdade teria feito com que ela cogitasse seriamente meter uma bala na cabeça. Com certeza não se atiraria de cima de um prédio, já que considerava a alternativa muito angustiante, devido ao seu desconforto com lugares altos. Talvez pulsos cortados numa banheira de água quente ou, melhor ainda, uma OD de soníferos, bem mais ao seu estilo.
De qualquer forma, não importava o modo, mas sim a decisão. E a decisão era de que não haveria qualquer motivo para continuar vivendo. Ou pelo menos era isso o que ela imaginava que teria sentido, algum tempo atrás.
Contudo, agora que a perspectiva tinha realmente se confirmado, ela estava ali, sem saber o que fazer, mas, com toda a certeza, não iria se matar.
Já que não existiam dúvidas a esse respeito – e tal constatação a surpreendia muito -, teria que começar a se acostumar com a idéia. E isso, sob certo aspecto (aliás, sob todos os aspectos), era totalmente assustador, pois teria de reconstruir toda a sua vida a partir de…
Era esse o problema. Não havia sobre o que reconstruir porra nenhuma, já que toda a sua vida tinha sido construída a partir de uma alucinação, que agora, não sabia direito por que, havia se desvanecido completamente. Então, começar de onde?
A idéia de que era uma pessoa absolutamente comum, sem nenhum dom especial ou predestinação cósmica nunca tinha lhe passado pela cabeça. Bem, na verdade, não era exatamente assim. Ela tinha que admitir que houve alguns momentos, alguns breves momentos, ao longo daquela vida que agora ela sabia ter chegado ao fim, em que ela chegou a pressentir que podia estar completamente equivocada.
Em alguns desses momentos, inclusive, chegou a ter quase certeza de que tudo aquilo era uma grande farsa que ela mesmo inventara e na qual algum demônio muito malvado a fizera acreditar.
No entanto, ela sempre vislumbrava um pedaço de tábua flutuando nas proximidades, dava um jeito de nadar até ele, se agarrava fortemente à madeira e continuava navegando naquele oceano lisérgico que ela parecia conhecer tão bem.
Recordar isso agora, porém, não refrescava nada, porque não havia mais nenhum pedaço de madeira à vista. Aliás, não havia mais qualquer oceano também. Ela sentia seus pés profundamente fincados em terra firme.
E ela teria que conviver com isso, a partir exatamente do lugar onde agora se encontrava, um lugar onde nunca havia estado antes.
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