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MUDO?

abril 17, 2009

macacos-cegosurdoemudo4
Ele gostaria de fica calado. Não totalmente mudo, mas falando apenas o essencial, deixando o resto implícito, talvez na sua postura, talvez nos seus olhos, talvez no seu jeito de simplesmente virar as costas e sair andando.
Cada vez que tentava se explicar ou explicar alguma coisa a alguém, se perdia num discurso vazio, que ficava girando em círculos e se espatifava no chão, espalhando estilhaços em todos os sentidos.
Verdade que, muitas vezes, se metia a falar sobre o que não entendia ou entendia muito pouco, ou até entendia, mas já havia esquecido dos detalhes do tal assunto. É lógico que isso podia ser conseqüência da idade, mas ela achava que era sintoma de algo mais grave, embora não soubesse do quê.
Outras vezes, porém, estava falando a respeito de alguma coisa sobre a qual definitivamente entendia, contudo, na hora de defender seus argumentos, uma névoa parecia envolver sua mente e tudo ia aos poucos se apagando.
De qualquer forma, o que mais o incomodava era a sensação de cansaço que tomava conta dele após essas inúteis tentativas de se explicar ou de explicar determinados aspectos do mundo que ele considerava relevantes de serem comentados.
Por tudo isso, adoraria ficar calado, isto é, falar somente o essencial. Lá no fundo, acreditava também que, se conseguisse isso, se tornaria mais sábio, porque teria mais tempo de ouvir, digerir e analisar o que os outros ficavam dizendo. Ou, na pior das hipóteses, não se sentiria tão idiota como se sentia após aqueles discursos imbecis que, compulsivamente, fazia, quando lhe davam motivos ou não.
O X da questão, como diziam os antigos – que já não eram tão antigos assim, porque ele sentia que também estava se tornando antigo -, bem, seja como for, o X da questão é que ele não conseguia manter sua boca fechada. Preparava-se, concentrava-se e até ficava em silêncio quando alguém começava a falar sobre determinado assunto, mas, logo, logo, lá ia ele de novo. Não só se sentia na obrigação de dar sua opinião como esta, quase sempre, era totalmente antagônica a do interlocutor.
E o ciclo se repetia: mais um discurso vazio, que ficava girando em círculos e se espatifava no chão, espalhando estilhaços em todos os sentidos. Ah, e o cansaço, aquele imenso e insuportável cansaço.
Bem, de qualquer forma, já estava escurecendo. Ele tinha baixado alguns episódios novos de séries de TV na internet. Ou seja, a noite, pelo menos aquela noite, estava salva. Amanhã ele pensaria de novo sobre o assunto.
E, quem sabe, quando ela chegasse, eles até trepassem.
cego-surdo-mudo1

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