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TODAS AQUELAS COISAS

maio 2, 2009

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E havia todas aquelas histórias e havia todas aquelas canções e havia todas aquelas coisas. E, afinal, quem se interessava de verdade por aquilo tudo? Muita pouca gente, com certeza, ele pensou. Ou talvez apenas ele ou talvez, na melhor das hipóteses, mais uns dois ou três malucos naquela cidade.

Então, por que continuar insistindo? Talvez por causa daquela insana sensação de que, em algum momento, em algum ponto, ao longo do caminho, encontraria o arco, a flecha e o alvo. Não qualquer arco, qualquer fecha ou qualquer alvo, mas o seu arco, a sua flecha e o seu alvo.

Se era assim, ele precisava seguir em frente. Mas para onde, se não conseguia sair do lugar? Ficava lá, dia após dia, sentado todas as tardes na mesa daquele bar, olhando para a rua pela janela e consumindo litros de café, servidos homeopaticamente  em pequenas xícaras pela garçonete gorda com cabelo pintado de amarelo desbotado.

Tinha de fugir logo dali, daquele bairro, daquela cidade, daquele mundo onde ele mesmo se aprisionara. Sabia exatamente o risco que corria, mas, estranhamente, sempre pedia outra xícara de café à garçonete gorda com cabelo pintado de amarelo desbotado, até anoitecer e ele voltar se arrastando para casa.

Ao abrir a porta do apartamento, depararia, como sempre, com todas aquelas coisas jogadas pelo chão e amontoadas em cima dos móveis da sala. Como costumava acontecer com freqüência, talvez procurasse o maço de cigarros nos bolsos, para então se lembrar de que há anos havia deixado de fumar e que aquele reflexo condicionado era mais um sinal de que estava realmente enlouquecendo.
Logo, porém, deixaria de se preocupar com a própria loucura e, após apagar todas as luzes que acabara de acender, sentaria no único lugar vago do sofá, já que os outros assentos estavam ocupados com parte de todas aquelas coisas empilhadas e espalhadas pela sala. Sentaria ali e começaria, novamente, e tentar entender o que havia acontecido com ela.

Tudo aconteceu muito de repente. Embora, como nas tempestades de verão, alguns raios e trovões tivessem anunciado a possibilidade de que algo maior surgisse, quem sabe até mesmo um furacão, ele nunca poderia imaginar que, após uma daquelas tormentas, o dia nunca mais iria clarear. Isto é, que ela se trancaria em algum lugar dentro dela, seja lá onde fosse, e nunca mais iria querer sair.

Depois de refletir sobre tudo isso, ele então se levantaria do único lugar vago do sofá, acenderia, primeiro, a luz da sala e, depois, a da cozinha. Na sequência, como costumava acontecer, ele esquentaria um pouco do café que havia feito ainda pela manhã, antes de sair. Aí beberia o café velho e requentado e acenderia um cigarro.

Então se lembraria, mais uma vez, de que estava há anos sem fumar e que o fato de estar agora com aquele cigarro na boca, sem ter a mínima idéia de onde ele havia surgido, era mais um sinal de que estava realmente enlouquecendo.

E havia todas aquelas histórias e havia todas aquelas canções e havia todas aquelas coisas. E, afinal, quem se interessava de verdade por aquilo tudo?

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