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MENSAGEM NA GARRAFA

julho 11, 2009

naufragio
Agora ele estava ali, rascunhando o mapa do tesouro perdido,  procurando remover escombros que escondiam pistas que talvez o trouxessem de volta à estrada principal.

Reconhecia alguns estilhaços, mas não conseguia juntá-los a ponto de criar uma imagem coerente, nem mesmo o arremedo de uma flecha que indicasse o caminho da praia.

O barco, avariado várias vezes, tentava manter-se à tona, a despeito das ondas imprevisíveis, provocadas por fantasmas conhecidos e desconhecidos. Então, um vento repentino apagou a luz de todos os faróis num raio de quilômetros e quilômetros de distância.

Até mesmo os piratas não se arriscariam, agora, a prosseguir em busca de suas presas, por mais fáceis que elas fossem.

Os dias iam passando e as marés se alternavam com a velocidade de aviões supersônicos, cujos pilotos, com mãos trêmulas e suadas, não conseguiam mirar os mísseis para abater os inimigos.

De que valem radares para rastrear o invisível? De que valem lemes pendurados por um fio de cabelo?

O coelho fugiu da cartola do mágico, enlouquecido em meio a uma plantação de cenouras gigantes.

Deslizando na escada rolante do shopping, o vendedor esquece a ordem das mercadorias nas prateleiras da loja onde trabalha. Ao chegar ao andar térreo, esquece também onde fica a loja. Saca de sua caneta e aponta para um segurança, que lhe diz: “É proibido fumar nesta área”.

Dois policiais algemam o vendedor. Em vez de uma viatura, suge uma ambulância, que atropela um cachorro antes de parar. Um enfermeiro aparece com uma grande seringa na mão.

A picada. O nevoeiro. O barco à deriva. O comandante bebe o último gole de rum, atira a garrafa no mar, ajoelha-se e suplica às estrelas cobertas pelas nuvens que sua mensagem lançada do vazio chegue até alguma praia.

Por que a tripulação toda desapareceu e só ele restou? Seria um milagre ou um castigo? “Mãe, eu não quero morrer sozinho.”

O surfista pensou ter ouvido um grito enquanto tentava equilibrar-se na crista da onda. Seus ouvidos zuniram, caiu da prancha e engoliu muita água. Com dificuldade, conseguiu chegar à areia.

Sua prancha desaparecera. Permaneceu alguns  instantes sentado, na esperança de que as ondas lhe devolvessem o que perdera.

O mar, estranhamente, foi tornando-se cada vez mais calmo. O zumbido nos ouvidos diminuiu, misturando-se agora ao ecos do que parecia ser um grito desesperado que vinha de longe.

Olhou para o lado e notou algo na areia. Aproximou-se e apanhou o objeto.

Uma garrafa de rum, vazia.
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One Comment leave one →
  1. neusa permalink
    julho 13, 2009 11:23 pm

    Beto, eu não tinha entendido o lance do Peter Pan, mas agora entendi que são crônicas, não é um novo livro…Gostei…Todas juntas dão um livro…

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