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ACIDENTES ACONTECEM…

junho 16, 2011


Os fios estão bem na sua frente. Vermelho, azul e verde. Você sabe a sequência em que devem ser desconectados para, digamos, evitar acidentes. Vcoê foi treinado para isso.

É tudo uma questão de lógica, você pensa, enquanto observa os fios: um azul, outro verde, outro vermelho. Incrível como ainda há gente que se confunde, e você não consegue entender como isso acontece.

Não importa, você conclui: é tudo questão de lógica.

Não há, portanto, motivo para esse suor frio escorrendo da sua nuca pescoço abaixo. Como também não há razão para suas mãos, de repente, estarem úmidas.

Não, nada disso está realmente acontecendo. Você deve estar imaginando coisas. Uma breve alucinação, mero sintoma de um possível e leve estresse. Sim, é somente isso.

Interessante, essa sensação nunca surgiu antes. Você sempre foi lá, desconectou os fios, fechou a maleta e deu o fora. Agora está aí, olhando fixamente para esses fios, hipnotizado. Vermelho, azul, verde e amarelo.

 Amarelo? Não, não há nenhum fio amarelo. Apenas um verde, outro azul, outro vermelho. Só três fios, três: um azul, outro vermelho, outro verde. Três e somente três, e não quatro, e nunca amarelo.

Tudo é uma questão de lógica, apenas e tão somente lógica. Amarelo, azul, vermelho. Espere! Você disse azul,vermelho e amarelo? E onde está o verde? O verde!  Apenas três fios, lembra? Três, nenhum deles amarelo.

Afinal que diabos está acontecendo? E essa merda de suor gelado ainda deslizando de sua nuca pescoço abaixo? E essas mãos úmidas? E esse fio amarelo?

Porra, não há nenhum fio amarelo aí, você esqueceu? Só vermelho, azul e verde. Lógica, questão de lógica. Três, apenas três, três fios amarelos. Não! Amarelo, não. Apenas três fios, azuis, vermelhos e verdes. Nove, no total.

Ei, você está se perdendo de novo. Volte a fita, vá com calma. Apenas três fios, esses três fios que estão aí, nas suas mãos, bem próximos à sua cara. Você precisa desconectá-los na sequência correta para, digamos, evitar acidentes. Uma questão de lógica, pura e simples lógica. Você foi treinado para isso.

Então você puxa primeiro o segundo fio amarelo, depois o primeiro fio amarelo e, por fim, o último fio amarelo.

Incrível, tão simples que até uma criança seria capaz de fazer. Claro, se as crianças tivessem um senso mínimo de lógica.

Você respira fundo, bem fundo, e continua respirando fundo, ritmadamente, cada vez mais fundo e mais ritmadamente, até sentir seus batimentos cardíacos voltarem ao normal.

Sua nuca não está mais fria e úmida, suas mãos estão secas. Uma intensa e arrebatadora sensação de paz e totalidade envolve você como um grande casulo aquecido.

Pronto, passou.

Tudo está bem agora.

Interessante, esse sentimento  nunca surgiu antes também. Você sempre foi lá, desconectou os fios, fechou a maleta e deu o fora. E, por falar nisso, onde a maleta? Ela devia estar bem aí, ao seu lado, ao alcance da sua mão direita, mas não está. Sua mão tateia o vazio até tocar alguma coisa gosmenta, pegajosa.

Como tudo ficou escuro quando você desconectou o último fio amarelo, você não consegue ver onde está sua maleta, nem identificar essa coisa gosmenta e pegajosa que você tocou, depois apertou e agora está grudada em sua mão direita.

Com a mão esquerda, você tenta limpar sua mão direita, mas elas acabam ficando grudadas. Quanto mais você tenta afastá-las, mais elas ficam presas uma na outra.

O estranho é que isso não chega a incomodar muito, pelo menos não tanto quanto a sensação de que suas pernas, do nada, pareceram crescer alguns metros, talvez muitos metros, entre seus pés e suas virilhas.

Então você percebe que essa sensação de pernas elásticas não pode ser  real, porque, na verdade, você não consegue sentir seus pés e, assim, não há como saber se suas pernas cresceram muitos metros entre seus pés e suas virilhas, até porque você descobre que também não consegue  sentir suas virilhas.

Você aperta os olhos e tenta enxergar alguma coisa, quem sabe sua maleta, através da escuridão, mas não consegue ver um palmo diante no nariz. Aliás, você gostaria, neste momento, de coçar seu nariz, apenas porque sabe que isso é impossível, já que suas mãos estão grudadas.

Mas, espere um pouco. Estranho, suas mãos agora não estão mais grudadas. Então você tenta tocar seu nariz com a ponta do indicador da mão direita, mas você não consegue ter a noção exata de para onde encaminhar seu dedo em direção à ponta do seu nariz. Seu polegar vaga no escuro, de um lado para o outro, para cima e para baixo, até, de repente, tocar naquela coisa pegajosa e grudenta que você já tocou antes, com sua mão direita.

Você fica com raiva e enfia o dedo bem fundo na coisa pegajosa e grudenta e sente como se a sua mão toda estivesse sendo sugada para dentro dessa coisa nojenta. Agora metade de seu braço direito já está dentro da coisa. Você tenta puxar o braço, mas percebe que está completamente sem forças.

Você começa a desconfiar que algo muito sério está acontecendo.Tenta repassar os fatos a partir do momento em que  puxou o último fio amarelo e tudo ficou escuro, mas não consegue lembrar de absolutamente nada, embora tenha certeza de que tudo aconteceu minutos ou mesmo segundos atrás.

Você sente um gosto horrível na boca. Oh, não, a coisa pegajosa e nojenta está agora grudada em seus lábios, o que signifca que sua mão direita, seu braço direito e pelo menos metade do seu rosto já foram sugados pela coisa. Mas você não sente dor, apenas um terrível enjôo e vontade de vomitar, vomitar muito. Mas como vomitar com os lábios grudados por essa coisa nojenta?

Você procura se controlar. E, curiosamente, tenta fazer isso pensando nos fios que há pouco você desconectou, os três fios amarelos. Espere um pouco, não havia nenhum fio amarelo, lembra? E você desconectou três fios amarelos. Como isso é possível?

Fique calmo, fique calmo, você implora para si mesmo, mas algo está subindo como um míssil a partir de seu estômago em direção à sua boca. E sua boca está grudada pela coisa nojenta, e o míssil está subindo, e sua boca está grudada, e o míssil está subindo…e você desconectou os três fios, três fios amarelos, mas não, não poder ser, não existia nenhum fio amarelo, lembra? Então, como é possível?

O míssil, a sua boca grudada, a coisa pegajosa e nojenta, as luzes se acendendo de novo, fortes, muito fortes, um grande clarão, sua maleta voando em direção…em direção de onde?

Não, não importa, nada disso importa agora. É tudo uma questão de lógica, pura e simplesmente lógica.

E, afinal, acidentes acontecem…

 

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