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DIÁLOGOS DE PLANTÃO

ÔNIBUS

– Ela tem uma cara de quem fode gostoso?

– Como é que você pode deduzir isso, ainda mais olhando a cara dela de um ônibus em movimento?

-Ah, sei lá. Essas coisas a gente saca assim, no tapa.

– No tapa?

– É, no tapa, está no ar e você capta.

– Então você captou no tapa que ela fode gostoso só olhando a cara dela?

– Foi o que eu disse.

– Você acredita mesmo nessas coisas?

– Que coisas?

– Tipo saber, só olhando pra cara de uma mulher, se ela fode gostoso ou não?

– Bom, isso a gente nunca tem certeza…mas às vezes dá certo.

– Já deu certo com você alguma vez?

– Tipo o quê?

– De você olhar pra cara de uma mulher, achar que ela fode gostoso, foder com ela e descobrir que ela realmente fode gostoso.

– Pra ser sincero, não. Mas deve acontecer com um monte de gente.

– Você conhece alguém?

– Alguém como?

– Alguém que tenha fodido gostoso com uma mulher que tinha cara de quem fode gostoso?

– Você tá complicando. Eu só vi a cara daquela mulher, atravessando a rua devagar, com o sinal fechado, e achei que ela tinha cara de quem fodia gostoso. Você reparou bem na cara dela?

– Eu estava olhando mas não estava vendo.

– Como é que é?

– Eu estava olhando a mulher atravessar a rua, pela janela do ônibus, mas estava pensando em outra coisa.

– Em que você estava pensando?

– Já não lembro mais. Mas que importância tem isso agora?

– É que eu acho que, se você estivesse reparando bem na mulher que estava atravessando a rua, em vez de ficar olhando sem ver, você ia reparar que ela tinha cara de quem fode gostoso.

– Puta papo idiota, cara. Você já imaginou se uma mulher estivesse ouvindo isso, imagina o que ela ia estar achando de nós?

– Qualquer mulher não faço idéia, mas gostaria de saber o que aquela mulher que tem cara de quem fode gostoso e estava atravessando a rua ia achar de nós, se ela estivesse ouvindo essa conversa.

– Provavelmente ia acabar sendo atropelada.

– Só que o sinal estava fechado enquanto ela atravessava a rua, lembra?

– É, mas ela ficar paralisada, no meio da rua, pensando em como podem existir dois caras tão estúpidos como nós, e ao mesmo tempo se indagando se ela tem ou não cara de quem fode gostoso. Aí o sinal ia abrir e o ônibus onde nós estamos ia atropelar ela.

– Ia ser uma pena.

– Com certeza. Ainda bem que ela não ouviu nada.

– Pois é. Toca aí que a gente vai descer no próximo ponto.


 

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RESPIRANDO

– E agora?

– E agora o quê?

– O que você vai fazer?

– Por que a gente tem sempre que fazer alguma coisa?

– Por que é a ordem natural das coisas. Acaba uma coisa, começa outra.

– Se  é assim, a gente não precisa fazer nada, já qua as coisas simplesmente começam assim que as outras coisas acabam.

– Não enrola. Você sabe do que eu estou falando.

– Não, não sei do que você está falando e gostaria que você me deixasse em paz, aqui no meu canto. Eu não preciso fazer porra nenhma pra continuar existindo. Basta continuar respirando, é o suficiente. Será que você é tão idiota que não percebe isso?

– Você vai acabar se intoxicando, tendo uma overdose.

– De quê?

– De tanto ar entrando pelo seu nariz.

– Não seja estúpido.

Tubo bem, então diz aí!

– Diz aí o que, porra?

– O que você vai fazer agora?

– Nada, absolutamente nada. Vou ficar sentado aqui, quieto, bem quieto, respirando…

-Boa sorte, então.

– Obrigado. Abra a janela antes de sair.

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CALA A BOCA!

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– Cala a boca!

– O quê?

– Cala a boca, porra!

– Mas eu não disse nada.

– Pois é, mas antes que você diga eu estou avisando. Chega!

– Chega de quê?

– Dessas coisas , dessas suas teorias de merda.

– Que teorias de merda?

– As suas teorias, todas as suas teorias são teorias de merda, portanto enfie as suas teorias no rabo.

– Por que, de repente, você ficou tão agressivo?

– Eu não estou agressivo. Só quero que você cale a boca.

– Mas eu não disse nada!

– Ótimo. Continue assim!

 

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NO QUÊ?

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– Você acredita mesmo nisso?

– Na verdade, não. Quer dizer, no fundo, no fundo, não.

– E no que você acredita?

– Não sei direito. Já acreditei num monte de coisas, ou acho que acreditei, mas agora acho que não acredito em mais nada.

– Você acha ou tem certeza?

– Certeza eu não tenho. Seu eu tivesse certeza de alguma coisa, acho que eu também acreditava em alguma coisa.

– Então você se considera um descrente?

– Também não.

– Por quê?

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– Exatamente pelo que eu disse. Não tenho certeza de que eu não acredito em nada.

– Isso não te desespera?

– Só às vezes, mas com o tempo a gente vai se acostumando. E você, acredita em alguma coisa?

– Pra ser sincero, não sei não.

– Então somos bem parecidos.

– Acho que não.

– Não? Por quê?

– Porque eu não consigo ficar quieto.zecai.jpg

– Como ficar quieto?

– É, ficar quieto, quando as pessoas ao teu redor ficam fazendo aquelas coisas.

– Que coisas?

– Coisas de quem acredita.

-Não é que eu fico quieto, eu fico na minha.

– Pois é, eu não consigo. Eu tenho que sair andando, senão faço merda.

– Que tipo de merda?

– Ah, sei lá, tipo chutar o pau da barraca. Aí vai todo mundo ficar puto comigo e eu não quero que as pessoas fiquem putas comigo só por causa disso.

– Então, é justamente por causa disso que eu fico na minha, ou quieto, como você diz.

– E você acha que as pessoas não percebem?

– Acho que não.

– Você acredita mesmo nisso?

 

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O POSSÍVEL, POR HOJE

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– A gente fez o que foi possível.

– Você acha mesmo?

– Acho. Sei que podíamos ter ido mais longe, conquistado mais coisas, vencido mais batalhas, mas aí já começamos a falar de situações ideiais, não da realidade dos fatos.

– É, odh-front1.jpgtalvez você tenha razão.

– Pelo menos é isso o que eu acho hoje. Amanhã talvez eu pense diferente. Aliás, é bem provável que amanhã eu pense diferente. É isso o que geralmente acontece, mas hoje eu penso desse jeito.

– E qual é a sensação?

– Bom, eu me sinto um pouco mais tranquilo, menos peso nos ombros, menos pressão nas têmporas, parece que o sangue flui mais fácil dentro das veias.odh-front.jpg

– A gente devia viver com essa sensação sempre.

– Pois é, eu também acho, mas parece que isso é impossível, parece que só restam esses pequenos momentos de trégua. Logo, logo aquele sentimento de que não só devíamos mas de que realmente podíamos ter feito mais volta com toda a força.

– Por que será que a gente é desse jeito?

– Não sei, parece tipo um defeito de fabricação, um circuito que vive contantemente em curto e nunca completa seu cliclo natural.

– Não entendi.

– Esquece. A gente fez o que foi possível. Por hoje isso basta.

– Valeu!

 

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DESISTIR?

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– Esquece, você nunca vai conseguir chegar lá.

– Olha, desistir sempre foi o caminho mais fácil. É por isso que eu sempre desisti, mas agora eu cansei disso.

– Você está se iludindo mais uma vez. Primeiro, porque você, na verdade, nunca desistiu, porque você simplesmente não consegue desistir. E depois, não adianta, porque também desta vez você não vai conseguir chegar lá.

– Legal, então eu estou num beco sem saída.

– Eu não disse isso. Eu só disse que você nunca vai chegar lá.

– Você disse sim. Você disse que eu, na verdade, nunca desisti porque eu não consigo desistir. E, ao mesmo tempo, você diz que eu também não vou conseguir desta vez. Ou seja, eu tô fodido, porque, segundo você, eu devia desistir porque eu não vou conseguir, só que você mesmo diz que eu não consigo nunca desistir.

caminhoiii.jpg– Vamos colocar as coisas de outra maneira. Você, por acaso, já parou pra pensar com cuidado se é isso mesmo que você quer?

– É lógico. Tanto que você mesmo reconhece que eu não desisto nunca.

– Não desistir nunca não significa que a gente quer mesmo aquilo que a gente acha que quer.

– Então significa o quê?

– Que a gente pode estar simplesmente obcecado por uma coisa, mas que a gente, no fundo, não quer mesmo essa coisa.

– Ah, isso é blá-blá-blá de psicanalista, psicólogo, essas merdas…

– Vamos colocar as coisas de outra maneira.

– Caramba, quantas maneiras você conhece de colocar uma coisa?

– Isso não vem ao acaso.

– Você quis dizer que isso não vem ao caso?

– Foi o que eu disse.caminho-thumb.jpg

– Não, você disse não vem ao acaso.

– Que seja, eu me enganei. E isso também não vem ao caso. O que eu queria te dizer é o seguinte: por que você não escolhe uma coisa mais fácil?

– O que, por exemplo?

– E eu sei lá, é você que tem que saber.

– Bom, eu só consigo pensar na mesma coisa.

– Pois é, mas essa coisa aí, eu já disse, você nunca vai conseguir chegar lá

– E o que você sugere?

– Já disse, que você arrume uma coisa mais fácil.

– O que, por exemplo?

– Olha, eu desisto. Continue fazendo aí o que você estava fazendo.

– Tá legal. Então vê se não me atrapalha!

 

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CIDADES DIFERENTES

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– Vivemos em cidades diferentes!
– Acho que você vive é num planeta diferente.
– Pode até ser, mas estou falando de cidades, agora. E eu e você vivemos em cidades diferentes, mesmo que tenhamos nascido e sempre vivido aqui.
– Eu acho que você não está enxergando a cidade real. Você vive na cidade que está na sua cabeça, não na cidade que está aqui, na nossa frente.
– Engraçado, eu acho exatamente o contrário. O que me fode é quando eu vejo esta cidade real que está aqui. A cidade da minha cabeça é bem diferente.
santos8p.jpg– É lógico, a cidade na sua cabeça é imaginária, idealizada do jeito que você acha que a cidade deveria ser.
– Não é nada disso.

– Então o que é?

– Eu acho que, na verdade, quem não está vendo a cidade real é você, porque você não está vendo no que esta cidade está se transformando.
– A cidade continua sendo bonita.
– Continua, e daí? Tão fodendo com ela e ela vai acabar ficando horrível.
– Você tá falando que nem velho!
– E você tá falando que nem esses bostas aí que acham que tudo isso é progresso. Pensando bem, talvez seja isso mesmo.
– Seja isso mesmo o quê?
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– Não é que você não tá vendo a cidade real, é que você ta vendo a cidade real e achando que tá tudo bem, que nem esse monte de babaca aí.
– Sabe o que eu acho? Eu acho que você tá, como o pessoal dizia antigamente, vivendo no mundo da Lua.

– Só que Lua não é planeta, é satélite da Terra.
– E daí?
– Ora, você começou dizendo que eu não estava gostando da cidade porque eu vivia em outro planeta. Agora você diz que eu vivo no mundo da Lua, e Lua não é planeta.
– Sabe o que eu acho?
– Sei lá, você acha tanta coisa…
– Eu acho que, se você tá assim tão incomodado com a cidade, é melhor você cair fora.
– Tô me preparando pra isso. Assim a cidade vai ficando cada vez mais pra vocês, os babacas!

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PERPLEXIDADE

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– Não entendo.
– Não há nada pra entender. É só uma coisa que eu pensei outro dia, andando na rua.
– Pois é, mas eu não consigo entender o que você quer dizer com isso.
– Que a única atitude possível é a perplexidade.
– Por quê?
– Você sabe o que é perplexidade?

gato-esbugalhadoa.jpg– É claro que eu sei o que é perplexidade. Eu não sei é de onde você tirou essa idéia.
– Já te disse. Eu tava andando outro dia na rua e…
– Não foi isso o que eu quis dizer.
– Você não perguntou de onde eu tirei essa idéia. Então, eu tava andando na rua e aí pintou.
– Vamos tentar de outro jeito. Por que você acha que a perplexidade é a única atitude possível?
– Ah, isso?
– Isso!
– Ora, porque, pensa bem, a perplexidade é a única atitude possível.
– Porra, isso você já disse. Eu quero saber por quê?

gato-esbugalhado.jpg– Não fica nervoso. É simples, eu explico.
– Então explica logo.
– Você tá com pressa? Porque se você estiver com pressa não dá. Essas coisas precisam ser explicadas com bastante calma.
– Eu não tô com pressa. Tenho todo o tempo do mundo. Vai, explica aí.
– Bom, eu acho o seguinte. A perplexidade é a única atitude possível, porque é a única atitude segura ou menos idiota diante da vida, entende? Qualquer outra atitude, confiança ou desconfiança, fé ou descrença, qualquer outra atitude não dura muito. Bastam alguns minutos de reflexão pra você ver que tudo o que você está achando e sentindo pode ser absolutamente ao contrário, sacou?
– Algumas coisas não, algumas coisas não mudam.
– É o que eu pensava, mas nesse dia, andando na rua, eu de repente percebi que até aquelas coisas que eu tinha certeza que não mudavam também podiam mudar, se as circunstâncias mudassem.
– Ah, isso é muito confuso.
– Bom, confusão é um sentimento muito próximo da perplexidade. Eu poderia também dizer que o único sentimento possível diante da vida e do mundo é a confusão.
– Confusão não é perplexidade.
– É quase a mesma coisa.
– Não é, não. Olha no dicionário pra ver como é diferente.
– E desde quando dicionário dá o sentido exato de como as palavras são usadas no dia a dia?
– Bom, isso não vem ao caso. O que importa é a perplexidade.
– É isso!
– Isso o quê?
– O que você disse. O que importa é a perplexidade. Você pegou o espírito da coisa.
– Eu não peguei espírito de porra nenhuma. Essa conversa não faz sentido.
– Faz sim. Tudo está ficando mais claro, e graças a você. Veja bem, eu só tinha uma frase “a única atitude possível diante da vida é a perplexidade”. Você acrescentou a confusão. Então ficou assim: “A única atitude possível diante da vida é a perplexidade ou a confusão.” E agora você fechou o ciclo, com uma última e definitiva frase: “O que importa é a perplexidade”!
– Sinceramente, eu estou perplexo.
– Eu disse. É a única atitude possível!

 

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MULEKE

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– Será que eu vou ter que ficar voltando lá, no meu moleque, pelo resto da vida?
– O que você quer dizer com isso?
– Ah, aquela coisa, tudo o que somos e fazemos hoje é reflexo daquele moleque que fomos um dia.
– Mas qual o motivo de voltar ao moleque, ou de voltar a ser esse moleque, sei lá do que você tá falando.
– É que, quando você começa a mexer com essas coisas, fica cada dia mais claro que todas as tuas ações, todos os teus sentimentos, teu jeito de sentir, reagir, até de trepar, é tudo reflexo daquele moleque.
1349.jpg– Tá legal, mas e daí?
– Daí que você percebe também que esse moleque vive lá ou viveu lá, naquele tempo, e você vive aqui, agora.
– Desculpe a minha estupidez, mas não estou entendendo porra nenhuma.
– Veja bem, se você continua agindo como aquele moleque lá atrás, e você está aqui, agora, você só vai fazer merda.
– Não necessariamente.
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– Quase necessariamente, porque aquele moleque era totalmente pirado, cheio de nóias, complexos, resumindo, um merda de um garotinho imaturo, com medo da própria sombra, entende?
– Mas nem todo o moleque é assim, quer dizer, nem todo o moleque foi assim.
– Pois é, mas eu estou falando dos moleques que são ou que eram como eu falei.
– Você era assim?
– Se eu não tivesse sido assim, por que diabos eu ia ficar perdendo tempo com essa merda toda?
– Sei lá.
– Tá, então esquece!
– Sabe o que me passou pela cabeça agora?
– Não.
– Seguinte, é que esse moleque aí, que você tá falando, é resultado de um outro bostinha que veio lá atrás.
– Como assim?
– Ora, aquele moleque foi mais novo, foi criancinha e, antes, mais criancinha ainda e antes…
– Escuta, esse negócio de útero me enche o saco, tá? Eu já disse pra esquecer essa merda toda.
– Tudo bem, mas foi você que começou.
– Não fui eu, foi a porra do muleke!

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VOCÊ TEM QUE SER ESPÍRITO

 

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– Você tem ser um espírito, não um fantasma!
– O que isso quer dizer?
– Não sei. Um cara ficava falando isso num filme que eu vi ontem à noite.
– Que filme?
– Não sei o nome, comecei a ver da metade pro fim.
– E qual era o cara que falava isso?

evolui_espirito.jpg– Ah, era um mendigo, negro. Ele falava isso toda hora, pra todo mundo.
– E o que isso tinha a ver com a história do filme?
– Pois é, fiquei vendo o filme até o final porque achava que, no final, iam explicar direito esse negócio de espírito e fantasma, mas o filme acabou e não explicaram nada.
– Não explicaram ou você não entendeu?
– E como é que eu vou saber? Se eu não entendi, não adiantou nada eles terem explicado, porque eu fiquei sem saber de que porra se tratava, então, pra mim, eles não explicaram.
– Acho que eu entendi.
– Você também viu o filme?
– Não, mas é que espírito e fantasma são duas coisas diferentes.
– Pra mim é tudo assombração.
– Não, não é não. Espírito é uma coisa elevada, que inspira, conecta. Fantasma só assusta e atrapalha. Entendeu?
– Não. Quer dizer, mais ou menos. Mas não faz sentido.
– O que não faz sentido?
– No filme, aquele mendigo ficar falando isso o tempo todo, você tem que ser um espírito, não um fantasma, você tem que ser um espírito, não um fantasma. Não faz sentido.

fenomeno-fantasma.jpg– Vai ver ele tava querendo dizer isso mesmo, que as pessoas têm que viver num nível mais elevado e não viver como se fossem assombrações delas próprias.
– Como é que é?
– As pessoas têm que viver num nível mais elevado.
– Não, não, esse negócio aí das pessoas viverem como se fossem assombrações delas próprias, o que significa isso?
– Ah, sei lá, foi só um troço que me veio à cabeça.
– E o que isso quer dizer, porra?
– Já disse que não sei, foi só um jeito de falar.
– Não, não, eu sei o que você quis dizer, você quis dizer que, às vezes, os fantasmas mais assustadores estão dentro de nós.
– Olha, foi só uma expressão.

motoqueirofantasma.jpg – Os fantasmas sufocam nossos espíritos, eles não deixam o espírito fluir, aí a gente só olha pra baixo.
– Eu acho que você tá complicando. Vamos esquecer essa história.
– Tá legal, mas eu só queria entender.
– Entender o quê?
– Por que o diabo do mendigo ficava falando que você tem que ser um espírito, não um fantasma?
– Bom, parece que você já encontrou uma boa explicação.
– Que explicação?
– Essa aí de espírito ser um troço mais elevado e fantasma só assustar.
– Mas não encaixa.
– Não encaixa aonde?
– No filme, no roteiro do filme.
– Então, da próxima vez, desliga a televisão e vai dormir.
– É, você tem razão!

 

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VOCÊ DIZ QUE NÃO TEM IMPORTÂNCIA

 

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– Você diz que não tem importância, mas eu acho que tem importância!
– Não tem, não. Não tem importância nenhuma. Será que você não percebe?
– Olha, sabe aquela história do cara que vem no teu jardim e rouba uma porra de uma flor e você não se importa, porque, afinal, era só uma porra de uma flor e você não ia arrumar uma puta de uma confusão só por causa de uma porra de uma flor. Mas aí o cara volta no outro dia e rouba outra flor e você também deixa pra lá. Até que um dia você simplesmente percebe que a bosta do teu jardim está sem mais nenhuma flor porque o filho da puta roubou todas elas e você não fez merda nenhuma pra impedir?
– Não é desse jeito.

jardins-da-quinta-da-macieirinha-1.jpg– Como não é desse jeito?
– Essa história, essa história não é desse jeito.
– E como é então?
– Também não sei direito, mas não é desse jeito.
– Bom, não importa se a porra da história é desse jeito ou não, o que importa é que eu continuo achando que, se a gente começa a deixar essas coisas pra lá, só porque a gente acha que eles não têm muita importância, de repente acontece que nem com o jardim.
– Como assim, com o jardim?
– É, de repente, a gente percebe que aquelas coisinhas pequenas, que a gente achava insignificantes e, por isso, deixava pra lá, aquelas coisinhas viraram uma puta coisa enorme e engoliu a gente.
– Acho que isso é paranóia. Acho que você anda convivendo muito com essa gente que tem essas paranóias, aí você fica desse jeito, preocupado com essas merdas aí.
– E você, faz o quê? Fica aí fingindo pra você mesmo que essas coisas não têm importância porque tem medo.
– Medo de que, porra?
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– Medo de se envolver.
– Cara, se você acha que eu vou me envolver com lá o que quer que seja por causa dessas coisinhas de merda que você ta falando aí, pode ter certeza que eu não vou me envolver com porra nenhuma, mas não é por medo, é por falta de saco e porque eu não quero ficar paranóico.
– Tá vendo, você tá admitindo que tem medo!
– Medo de quê, caralho?
– De ficar paranóico!
– É claro que eu tenho medo de ficar paranóico, paranóico que nem você e essas pessoas aí que você conhece.

– Maravilha, quer dizer então que quem não tem medo se envolver, que quem não tem medo de se importar com as coisas, de achar que as coisas não estão certas e que é preciso mudar as coisas, quer dizer que quem é assim é paranóico?

– Não foi nada disso que eu disse. Eu disse que paranóico é gente que nem você, que fica se preocupando com essas coisinhas idiotas que não têm a mínima importância.
– Quero ver quando você acordar um dia de manhã e perceber que foderam com o teu jardim.
– Ah, meu Deus, lá vem você de novo com essa história de jardim.
– É, você tem razão, é besteira ficar levando esses papos com você. Você sempre morou em apartamento.

 

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A GENTE SÓ ACHA

 

– A gente só acha.

– A gente só acha?

– É, a gente só acha.

– Por exemplo?

– Por exemplo, a gente só acha que a nossa mulher está satisfeita.

– Mas ele pode realmente estar.

– Mas pode realmente não estar, mas a gente acha que está, porque é mais confortável.

– A gente faz isso pra não ficar maluco. Já imaginou se você, a todo o momento, ficar achando que você só acha que as coisas são como são, mas que, na verdade, elas podem ser totalmente diferentes?

– É, é complicado. Mas acho que também não é bom só ficar achando que o que a gente acha é o que é.

– Por exemplo?

– Por exemplo, ficar achando que a nossa mulher está satisfeita .

– Você tá obcecado com esse lance de mulher, né?

– Não é isso, é só porque foi essa a primeira coisa que me veio na cabeça quando eu pensei nesse lance de que a gente só acha, mas pode acontecer também com os nossos amigos. A gente fica achando que eles estão satisfeitos conosco e, na verdade, podem não estar.

– Olha, se a gente sair por aí perguntando pra nossa mulher, pra nossos amigos se eles estão mesmo satisfeitos conosco ou se somos só nós que achamos que eles estão satisfeitos, acho que eles vão achar, com toda a razão, que nós ficamos malucos.

– É, acho que sim. Então, o que gente faz?

– Acho que é melhor a gente continuar achando o que a gente acha.

– É, eu também acho.

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PROMESSA

 

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– Eu não prometo mais nada.
– E o que é que eu tenho a ver com isso?
– Nada.
– Então por que você está me dizendo isso.
– Porque você é a pessoa que está mais próxima de mim neste momento. E eu precisava dizer isso pra alguém, rápido.
– Posso saber por quê?
– Não sei direito, só sei que precisa dizer isso pra alguém, e bem rápido.

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– E que diabo você quer dizer com essa merda de “não prometo mais nada”?
– É que eu estou farto de ficar fazendo promessas e determinadas promessas, justamente aquelas mais importantes, aquelas que eu precisava mesmo cumprir, eu não consigo cumprir. Então eu não vou mais ficar fazendo promessas.
– E pra quem você faz essas promessas que você não consegue cumprir.
– Há algum tempo eu só faço essas promessas pra mim mesmo. Antigamente eu fazia promessa pra todo mundo, aí era pior, porque uma porrada de gente ficava sabendo que eu não tinha cumprido as promessas que eu tinha feito. Então, agora eu só faço promessa pra mim mesmo.
– E nem essas você consegue cumprir?
– Olha, pra ser sincero, essas são as que eu não consigo mesmo cumprir.
– Por quê?
– Porque eu vivo me enganando, eu sou um tremendo de um filho da puta de um farsante comigo mesmo. Eu me sacaneio o tempo todo, entende?
– Tá difícil de acompanhar o raciocínio.
– Deixa pra lá. Como eu falei, eu só precisava compartilhar com alguém essa decisão de não fazer mais promessas.
– E por que você precisava contar pra alguém?
– É que contando pra alguém fica mais difícil de eu me sacanear e descumprir a promessa.
– Que promessa?
– De não fazer mais promessa.
– Então isso também é uma promessa?

dsc00445.jpg– É, de certa forma é, né?
– Acho que eu estou começando a entender essa tua capacidade de se auto-sacanear?
– Como assim?
– Bom, primeiro você decide não fazer mais promessas, mas aí você transforma isso numa nova promessa e, como você sabe que você não consegue cumprir as promessas que você faz pra você mesmo, você precisa comunicar essa sua nova promessa de não fazer promessas a alguém, pra que fique mais difícil descumprir a promessa que você fez pra você mesmo, só que, ao mesmo tempo, você sabe que também não consegue cumprir as promessas que você faz aos outros.
– Você me deixou tonto com essa coisa toda aí.
– Então vou colocar o negócio de uma maneira mais simples: você conseguiu foder você mesmo outra vez.
– Tá vendo, é isso que eu digo.
– Então vê se você não faz mais promessa nem pra você mesmo.
– É, acho que é melhor fazer isso, então. Mas, pensa bem, será que isso também não é promessa?

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ENCRUZILHADA

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– Tem um furo nessa história de encruzilhada aí.

– Que furo?

– Um furo, um puta furo. Pensa bem. Uma encruzilhada não é um lugar onde quatro caminhos se cruzam?

– É.

crossroads_logo_words_wmf_brown.jpg– Então, se você está numa encruzilhada, você tem quatro opções a seguir: pra frente, pra trás, pra direita e pra esquerda. Não é isso?cpl001a.jpg

– É.

– Então, não faz sentido.

– O que não faz sentido?

– Pensa bem, sempre que alguém fala em encruzilhada, seja em música, poesia, essas coisas, é sempre no sentido de que a pessoa está ali, na encruzilhada, sem saber qual dos quatro caminhos deve seguir. Não é assim?

– É, mas e daí?

– Daí que tem um furo aí, porque, se você tá numa encruzilhada, você chegou até ali por um dos quatro caminhos. Então você já conhece um dos caminhos, o caminho pelo qual você veio até ali.

– Mas aonde é que está o furo?

– O furo é que você não está na encruzilhada indeciso sobre qual dos quatro caminhos deve tomar pra seguir em frente. Você só está indeciso sobre escolher entre três caminhos, apenas três caminhos, porque um você já conhece, porque você chegou até ali por ele.

– Ah, mas você também pode estar indeciso sobre se pega um dos três caminhos desconhecidos ou se volta até onde você estava antes, usando o caminho que você já conhece.

– Isso seria muito improvável.

0145.jpg– Por quê?

– Exatamente porque você já conhece aquele caminho que te trouxe até aquela encruzilhada. Você está ali querendo avançar, tomar um novo rumo na vida, não voltar pra trás.

– Talvez a encruzilhada então seja isso, um lugar onde o passado e o futuro se encontram.

– Isso não faz sentido, até porque, se o caminho pelo qual você veio até ali representa o teu passado e o caminho que está à sua frente representa o teu futuro, o que são então os caminhos que estão à tua esquerda e à tua direita?

– É, nisso você tem razão.exu_na_encruzilhada-thumb.jpg

– É por isso que essa história de encruzilhada com quatro opções de caminhos a seguir só faria sentido se você tivesse sido colocado ali a partir do alto, tipo assim por um disco voador.

– Mas escuta, essa coisa de encruzilhada também não tem a ver com o lance do demônio?

– Tem gente que diz que sim.

– Então vai ver que é isso.

– Isso o quê?

– Isso, quem coloca a gente na encruzilhada não é um disco voador, é o demônio.

– Você tá misturando estação. A gente vai pra encruzilhada pra encontrar o demônio, não é ele que leva a gente lá.

– Então devem existir duas encruzilhadas, uma pra encontrar o demônio e outra onde a gente fica indeciso sobre qual dos quatro caminhos deve seguir.

– Três caminhos.

– Que seja, três caminhos.

– Bom, já que nós concordamos nesse ponto, que tal a gente prosseguir. Vamos em frente, viramos à direita ou viramos à esquerda?

– Acho melhor seguir em frente. A estrada pelo menos parece um pouco menos esburacada.

– Então liga o carro e vamos nessa!

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GANHANDO TEMPO

 

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– No fundo, eles acabam sempre te pegando.

– Nem sempre é assim.

– É sim. De um jeito ou de outro, eles acabam te pegando.

– Anovotempobig.jpgcho que isso é muito fatalista.

– Fatalista porra nenhuma! É um troço quase científico.

– Lá vem você!

– É sim. Veja bem, quantas pessoas você conhece que pareciam finalmente terem conseguido e de repente…

– Não acho que seja assim.

– Então pensa aí e me diz: quantas pessoas que você conhece quenovotempobig.jpg escaparam?

– Mas aí você tá sendo muito radical.

– O que é que tem de radical nisso? São fatos, apenas os fatos.

– Se todo mundo fosse pensar assim, nem levantava da cama de manhã. Pra que começar um novo dia se, no final, você vai se foder de um jeito ou de outro?

– Pensando bem, vamos continuar deitados então. Quem sabe assim eles demorem um pouco mais pra descobrir a gente.

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A SAÍDA

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– O que exatamente você quer dizer com isso?

– Que a saída está lá na frente.

– Mas que tipo de saída?

– A saída pra tudo, a solução, o sentido da vida.

– Mas lá na frente aonde?

h0045aa.jpg– Sei lá, é uma sensação, embora às vezes eu até tenha a impressão de que a saída também depende do lugar onde a gente está.

– Como assim?

– Olha, outro dia, por exemplo, eu estava caminhando por uma rua e, antes de dobrar numa esquina, tive a sensação de que, se eu continuasse caminhando mais à frente, naquela rua onde eu estava, eu encontrava a a saída.

– E por que você dobrou a esquina, então?

– Porque eu sabia que era só ma sensação. E depois eu tinha hora marcada com o meu terapeuta e já estava atrasah0045aab.jpgdo.

– E você contou pra ele?

– Pra quem?

– Pro terapeuta.

– Contar o que pro terapeuta?

– Essas coisas que você sente.

– Não. Ele ia achar que tô ficando maluco.

– Mas terapeuta não é pra isso?

– Pra isso o quê?

– Tratar de loucura?

– Não é bem assim. E depois eu já tentei contar pra ele essas cosias e ele nunca deu muita atenção.

– Acho que você devia insistir. Essa sensação aí deve ser perturbadora.

– Só de vez em quando. Só quando eu entro numas de que a coisa pode mesmo ser real e eu é que não estou percebendo, entende?

h0045aa.jpg– Não, é muito confuso, explica melhor.

– É o seguinte. Parece que o que realmente importa não está acontecendo aqui, neste momento, nesta hora. Enquanto estamos aqui, as coisas que realmente importam pra nossa vida estão acontecendo em outro lugar.

– Mas em que lugar, porra?

– Aí é que está o problema. A gente não consegue saber direito onde é esse outro lugar onde as coisas importantes acontecem. A gente só consegue perceber de leve, tipo intuir que as coisas não estão rolando aqui e que devem estar rolando em outro lugar. Você nunca teve essa sensação?h0045aab.jpg

– Pra ser sincero, não. Eu ainda acho que você devia conversar sobre isso com o teu terapeuta.

– Tá vendo, você também acha que é loucura.

– Não foi isso o que eu quis dizer.

– Então o que você quis dizer?

– Eu só quis dizer que você devia conversar com quem entende desse assunto. Eu não entendo nada disso.

– Você tem certeza de que nunca sentiu isso?

– Caramba, nunca senti exatamente o quê?

– Olha, respira fundo, solta o ar, respira de novo e solta, respira e solta. Agora, pensa bem: você acha que o que interessa pra minha vida e pra tua vida está acontecendo aqui, neste momento?

– Bom, pensando bem…

– Pensando bem o quê?

– Continuo achando que você devia conversar sobre isso com outra pessoa…

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FIO DESENCAPADO

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Um fio recentemente desencapado acabara de provocar uma pane geral no sistema.
Irracional, deplorável, mas inevitável.
Como o ruído incômodo de sua respiração descompassada no meio da madrugada.
Contudo, cuidaria daquilo sozinho.
Não falaria nada a respeito daquela absurda, absurda e enorme confusão.
Mas ela não precisou insistir muito.
Bastou que lhe perguntasse por que ele estava com aquela cara de garotinho contrariado.

giancarlo.jpg– Sei que é absurdo, ele admitiu.

– Bem, pelo menos agora eu sei do que se trata, ela reagiu.
– Mas também não adianta muito, continua sendo absurdo.

– É absurdo, mas estamos conversando. É melhor do que fingir que não está acontecendo.

– Tudo bem, está acontecendo. E daí?

– Daí que nós temos que aprender a conviver com isso, com nossas diferenças, nossas necessidades individuais. Na verdade eu gostaria de nunca te contrariar, nunca te magoar.

– Interessante, eu gostaria de fazer o mesmo, desde que, é claro, você nunca me contrariasse e me magoasse.

– Só que isso é impossível.

-É, impossível.

– Viver sempre de acordo com as expectativas do outro é impossível.

– Do jeito que você coloca, parece que só você teve que renunciar a algumas coisas. Acontece que eu também tive que fazer minhas renúncias.”

conene.jpg– Mas eu não quero que você renuncie a coisas que são importantes para você. Isso não é bom, é uma coisa doente.

– Acontece que, até o momento, o nosso relacionamento sempre foi mais importante do que as coisas às quais renunciei. Minhas renúncias foram totalmente egoístas. É fácil renunciar a algumas coisas quando estamos interessados em conseguir outras coisas. Mas talvez você tenha razão. Nosso amor talvez seja doente mesmo.

– Não foi isso o que eu quis dizer.

– Então o que você quis dizer?”
– Ah, já não sei mais. Estou cansada…tenho medo de te perder.”

– Eu também tenho medo de te perder. É importante sentir e admitir isso, mas não resolve aquilo.”

– Aquilo o quê?

-Aquilo que eu senti e que provavelmente vou continuar sentindo por algum tempo.

– Tenho medo de te perder.

– Também tenho medo. Você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida até hoje.”

– Por que você disse até hoje? Isso quer dizer que amanhã pode acontecer outra coisa melhor?”

– Foi só um jeito de falar.”

– Entendi…

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PODER

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– Por que eu deveria estar preocupado?

– Se você devia ou não, é outra história. Agora, que você está preocupado você está, embora não queira admitir.

– Nunca quis ser chefe de porra nenhuma.

– Até concordo. Afinal, você nunca quis ter esse tipo de responsabilidade. Mas está te incomodando, não está?

maximopoder800x600a.jpg– Vou repetir a pergunta: por que eu deveria me incomodar?

– Porque você está se sentindo desprestigiado.

– Sempre fugi desse tipo de prestígio.

– Como o diabo da cruz, exatamente porque você sempre teve medo de assumir a responsabilidade. Às vezes fico em dúvida se é mesmo medo ou se, na verdade, é somente preguiça.

– Parece que você tirou o dia pra me agredir.

– Não estou te agredindo. Estou apenas colocando as coisas nos devidos lugares.

– E quem te deu esse poder divino de ordenar as coisas no universo?

– Não fuja do assunto. Estou falando de algo bem terreno, o fato de você não gostar de se sentir perdendo poder.

– Poder é algo relativo.

– Lá vem você de novo fugindo do assunto. Assuma de uma vez: você está puto!poder.jpg

– Não estou puto, não estou merda nenhuma. Estou cagando e andando pra tudo isso.

– Está vendo como isso te irrita.

– Você é que está me irritando, com essa história de poder pra cá, poder pra lá…Eu quero que o poder se foda!

– Só que é o poder que está fodendo você. Quer dizer, a perda de poder é que está deixando você fodido. Por que você não desabafa? Eu vou compreender.

– Você não vai compreender nunca. Aliás, acho que você nunca compreendeu nada.

– Pode ser, mas uma coisa eu compreendo bem: você não suporta perder poder.

– Eu ainda tenho poder.

– Poder de quê?

– De te dar uma porrada na cara.

– Isso não é poder. É desespero!

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BEM-AVENTURADOS

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– Você não ia escrever sobre aquele troço?

– Ia, mas agora não dá.

david-terk.jpg– Por quê?

– Porque, pra escrever sobre aquilo, a gente precisa estar num certo clima.

– Que tipo de clima?

– Um clima em que a gente consiga sentir realmente a coisa.

– Então você já voltou a pensar como eles?

-Eu não voltei a pensar como eles, eu continuo pensando como eu penso, só que a coisa não vai fluir agora, sacou?

– Eu acho tudo isso uma grande besteira.

– O quê?

– Essa história de clima. Eu acho é que você mudou de idéia e não tá querendo admitir.stairway_to_heaven2.jpg

– Eu não mudei de idéia, porra!

– Então bota esse negócio no papel de uma vez.

– É impossível fazer você compreender, né? Eu não tô na porra do clima, porra!

– Como era mesmo a frase?

– Sei lá, já nem lembro mais.

– Claro que lembra, você vive repetindo essa coisa.

– Pois é, mas travou, deu branco.

– Era alguma coisa falando de céu e inferno.

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– Não era.

– Era sim, céu e inferno.

– Não era céu e inferno, era céu e terra.

– Tá vendo como você lembra.

– Não lembro, só sei que não falava de céu e inferno, mas de céu e terra.

– E sobre religião.

– Não, não falava exatamente sobre religião, mas sobre vida e morte, e como tentam fazer com que a gente não dê à vida a importância que ela merece.

– Mas tinha um lance de religião sim.

– Todas as religiões tentam fazer isso.heaven.jpg

– Isso o quê?

– Dar mais importância pra morte do que pra vida.

– Algumas não.

– No final é tudo igual, sempre a mesma história. Devemos nos preparar para a morte, a vida é mero acessório.

– Por que você vive repetindo essa frase?

– Eu não vivo repetindo, eu só uso quando me provocam.

– De que maneira?

– Como, de que maneira?

– De que maneira te provocam?

– Dizendo que a vida não é tão importante assim, que este mundo não é importante, que estamos aqui só de passagem, que o importante mesmo é depois.

final_de_tarde_de_luz_perfeita_em_paraiso_pe.jpg– Depois de quê?

– Da morte, lógico.

– De quem é a frase mesmo?

– Esqueci. É de um sujeito aí. A frase estava na abertura de um livro, tipo uma introdução pro livro.

– Então a frase deve ser do autor desse livro.

– Não, era uma citação que o autor do livro fazia, era um toque que ele dava.

– E o autor do livro, quem era?

– Também esqueci.

– Porra, você esquece de tudo.

– Lembrei.

– Do autor do livro ou do autor da frase?

– De nenhum dos dois. Lembrei da frase.

– E como é?

“As pessoas costumavam dizer que os bem-aventurados ‘veriam o céu’, meu desejo seria ver a terra para sempre.”

– É o que você também sente?

– É o que eu sinto.

– Tá vendo como essa história de clima é bobagem?

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VILÃO

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– É duro se sentir o vilão da história.

– Mas, quando você era pequeno, você sempre preferia ser o vilão que o mocinho.

– Isso era quando eu era pequeno. Agora é diferente.

– Agora você quer ser o mocinho?

– Olha, não precisava nem ser o mocinho, só não queria ser o vilão.

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– Então tenta não ser o vilão, droga!

– Não se trata de tentar ou deixar de tentar, é questão de ser ou não ser.

– Então basta não ser o vilão e pronto.

– O problema é que eu sou o vilão, então não dá pra simplesmente deixar de ser. Eu já sou, será que você não entende?

– Muda a história. Muda pra uma história onde você não é o vilão nem o mocinho, é só um personagem secundário.

– Como coisa que eu posso mudar a história assim, do nada e só porque eu quero.

-Quando a gente era pequeno, a gente vivia fazendo isso.

coringa1.jpg– Pois é, mas agora a gente é grande. Não dá mais pra fingir que não aconteceu, porque a gente sabe que aconteceu.

– Você tem certeza?

– De quê?

– De que realmente aconteceu?

– É claro, caso contrário não teria vindo te procurar pra conversar sobre isso.

– É que eu estou achando tudo isso meio absurdo. Você tem certeza de que não sonhou, não?

– É lógico que eu não sonhei. Tudo isso aconteceu exatamente como eu contei.

– Pois é, às vezes a gente conta uma história apenas sob o ponto de vista da gente.

– E como é que a gente conta uma história que aconteceu com a gente sob o ponto de vista de outra pessoa?

– Não é disso que eu estou falando. Eu estou dizendo que, como você contou a história apenas sob o teu ponto de vista, pode ser que você não seja realmente o vilão.

– Como assim?

– Veja bem, uma outra pessoa, contando a mesma história, sob o ponto de vista dela, poderia muito bem achar que você não é o vilão, entende?

– Entendo, mas e daí?

– Daí que talvez você seja somente um personagem secundário nessa história, ou quem sabe até o mocinho. Tudo depende do ponto de vista.

– E daí?

– Daí nada. Eu só queria te animar um pouco.

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O BECO

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– Na verdade estou cansado.

– Cansado de quê?

– De ficar tentando.

-Então desiste.

– Esse é o problema. Eu não consigo deixar de tentar.

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– Há quanto tempo você vem tentando?

– Sei lá, há bastante tempo.

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– E você conseguiu pelo menos um pouquinho?

– Teve vezes que eu achei que sim. Eu chegava a ter certeza de que havia conseguido avançar pelo menos um pouco. Hoje, sinceramente, não sei se aquilo aconteceu mesmo ou se foi pura ilusão.

– Acho que você não devia desanimar.

– É isso que me fode, essa esperança idiota de que ainda é possível.

– Você tem outra alternativa?

– Desistir, desistir completamente.

– Mas você mesmo disse que não conseguia desistir.

– Pois é, não tem saída.

– Então desiste, porra!

– Eu não consigo, porra!

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CRIME E CASTIGO

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– Afinal, por que você acha que não merece?

– Por uma série de fatores. Mas, resumindo, eu diria que não mereço porque não sou uma pessoa boa.

– E o que você entende por uma pessoa boa ?

– Não poderia te explicar assim em poucas palavras. Definir uma pessoa boa é uma coisa complexa.

– E uma pessoa ruim, o que é pra você uma pessoa ruim?

imagem-0122.jpg– Bem, uma pessoa pode ser ruim em vários níveis. Pode ser muito ruim, bastante ruim, mais ou menos ruim…

– E, como uma pessoa ruim, onde você se encaixaria?

– Acho que sou uma pessoa mais ou menos ruim.

– Por quê?

– Porque, de vez em quando, percebo algumas coisas boas em mim. Então não sou uma pessoa totalmente ruim.

– Você acha que, por ser uma pessoa mais ou menos ruim, você chega a prejudicar as pessoas?

– Acho que sim, de vez em quando, quer dizer, acho que prejudico no aspecto emocional. Às vezes eu ajo de uma maneira que deve causar desconforto pras outras pessoas, as pessoas mais próximas.

– Como você sabe isso?

– Ora, eu percebo, quer dizer, eu acho que eu causo desconforto, às vezes, com as minhas atitudes, os meus sentimentos.

imagem-012.jpg– Com seus sentimentos também?

– Principalmente!

– Você sempre expressa esses sentimentos?

– Olha, nem sempre, só às vezes. Na verdade, pelo que eu percebo, até que eu expresso bem pouco esses sentimentos, sentimentos ruins, quero dizer.

– Então você imagina que as pessoas se sentem desconfortáveis por causa dos seus sentimentos ruins que você quase nunca expressa?

– É, é mais ou menos isso.

– Você não percebe a loucura que é tudo isso?

– Olha, essa conversa não está levando a lugar nenhum. A questão imagem-0122.jpgé que eu não mereço e pronto.

– Porque você é uma pessoa mais ou menos ruim?

– Isso.

– Você, então, é uma pessoa mais ou menos ruim que causa desconforto às pessoas porque, de vez em quando, muito de vez em quando, você expressa seus sentimentos ruins?

– Isso.

– E é por isso que você não merece?

-Exatamente. Eu nunca mereci. Desde que eu era criança, eu nunca mereci, entendeu?

– E o que você espera da vida, então?

– Ser castigado, ora!

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A HISTÓRIA

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– Afinal, por onde eu começo?

– Por qualquer lugar, por onde você quiser.

– Mas eu gostaria de ter um ponto de partida definido.

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– Pra quê?

– Ora, não se começa a contar uma história assim, do nada. É preciso ter um ponto de partida definido, para se chegar a algum lugar.

– E onde você quer chegar?

– Na verdade eu ainda não sei.

– Então que importância tem de onde você vai começar a contar a história?

– É que eu acho que a gente não pode começar do nada.

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– Você não vai começar do nada, até porque é impossível começar qualquer coisa do nada. Simplesmente escolha algum fato, algum momento significativo e comece daí.

– É que, sabe, embora eu não saiba direito aonde quero chegar, eu tenho uma leve idéia.

– Idéia de que?

– De como deve ser a história.

– Ótimo. Já é um começo. Agora escolha um ponto de partida e mande bala.

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– Tinha que ser importante.

– O quê?

– O ponto de partida, tinha que ser uma coisa importante.

– Então escolha uma coisa importante e comece.

– O que você sugere?

– A respeito de quê?

– Que coisa importante você sugere?

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– A história é sua. Você é que tem que escolher o que é importante ou não. Como é que eu vou saber o que é importante na sua história?

– Não é isso, isso eu vejo depois. Eu só quero saber a partir de que coisa importante eu devo começar a contar a história.

– É o que eu estou dizendo. Você é que tem que escolher essa droga de coisa.

– Acho que vou esperar mais um pouco?

– Esperar pra quê?

– Pra começar a contar a história.

– Você é quem sabe. A história é sua.

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E SE FOR TUDO LOUCURA MESMO?

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– E se tudo isso for loucura mesmo?

– Já que você fez a pergunta, talvez você mesmo tenha condições de responder.

– Na verdade acho que já sabia a resposta antes disso tudo começar.

– É qual é?

– É loucura mesmo. Sempre foi loucura.

– Eu acho que a maior loucura de todas foi você ter começado isso.azul-b.jpg

– Às vezes eu acho que não tinha alternativa. Era isso ou simplesmente desistir. E isso implicava em admitir que todos eles tinham razão, desde o começo.

– Mas não é exatamente isso que você vai ter que fazer agora, admitir que todos eles estavam certos, desde o início?

– É, acho que não tem outro jeito. Mas pelo menos eu ganhei algum tempo. E confesso que, enquanto durou, foi até divertido. Você sabe que até minha respiração melhorou?

– Algumas pessoas realmente me disseram que andavam te sentindo mais leve, com uma expressão mais tranqüila, serena.azul-a.jpg

– Pois é, mas agora acabou.

– É uma pena que tenha acabado desse jeito.

– Podia ser pior.

– Quanto a isso não há dúvida. Poderia sempre ser pior. Mas seria muito bom se tivesse dado certo. Você até que se esforçou bastante.

– Talvez seja mesmo aquela história de destino, pra umas pessoas dá certo, pra outras, não.

– Será que algum dia você vai tentar outra vez?

– Acho difícil, mas nunca se sabe.

– E agora, o que você vai fazer?

– Não sei.

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POR QUE VOCÊ ACHA QUE SERIA DIFERENTE?

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– Por que você acha que seria diferente?

– A gente precisa acreditar que pode ser diferente.

– Por quê?

– Porque senão a gente fica sem nada na mão, sem nenhuma esperança de que possa ser diferente.

– Isso parece coisa de religião.

– Não tem nada a ver com religião. Tem a ver com instinto de vida e instinto de morte. Aquele negócio de Eros e Thanatos.eros2.jpg

– Eu ainda acho que é coisa de religião.

– Você sabe o que é instinto de vida e instinto de morte?

– Mais ou menos.

– Então, é disso que eu estou falando. Essas duas forças vivem em combate dentro da gente, o tempo todo.

– Instinto de morte não é coisa de suicida?

– Você não precisa ser suicida pra ter instinto de morte.

– Quer dizer que qualquer um pode ter vontade de se matar, de uma hora par3709574thanatos2.jpga outra?

– Na verdade, acho que sim, mas não é disso que eu estou falando?

– Então do que é que você está falando?

– Dessas forças, Eros e Thanatos, uma te impulsiona pra vida, pra luz, a outra pra morte, pra escuridão.

– E como é que a gente controla isso?

– Primeiro você tem que identificar o que essas duas forças estão fazendo dentro de você.

– E como é que a gente faz isso?

– Observando.

– E como é que a gente observa?

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– Sentindo.

– Sentindo o quê?

– Como você está sendo levado para um lado ou para o outro.

– Tá, e quando a gente descobre, o que a gente faz?

– A gente dá força pro lado da vida e evita o que te levada pro lado da morte.

– E se a gente aprender direitinho a fazer isso a gente vive mais?

– Na verdade, vive!

– Quer dizer que, se eu ia viver 50 anos, se eu aprender a fazer esse negócio direito eu vou viver tipo 100?

– Não é nesse sentido.

– Como não é nesse sentido?

– O viver mais, nesse caso, refere-se ao fato de que, você lidando melhor com Thanatos, com o seu instinto de morte, você tem uma vida mais plena, mais real.

– Sinceramente não estou vendo grande vantagem nessa coisa. E depois deve dar um puta trabalho.

– Como um puta trabalho?

– Esse negócio de ficar sentindo o que esses caras – como é mesmo o nome? Eros e Thanatos – ficam fazendo dentro da gente. Aí, de repente, você perde o maior tempão tentando sacar esse joguinho de Thanatos fodendo Eros, aí você morre e não viveu nada.

– Olha, não é assim que funciona. Depois que você entende, fica até divertido.

– É, tem gente que gosta.

– Gosta de quê?

thanatos2.jpg– De sofrer, de ser masoquista.

– Tá vendo como você não entendeu nada? Masoquismo, por exemplo, é coisa do instinto da morte.

– Escuta, afinal o que essa conversa toda tem a ver com as pessoas se interessarem ou não pelo que você escreve?

– Legal, agora você tocou num ponto concreto pra eu poder te explicar esse lance de vida e morte.

-Você não tava falando em Eros e Thanatos?

– Isso.

– Então por que você agora vai começar a falar de vida e morte? Tá vendo como isso é papo de religião?

– Vida e morte, Eros e Thanatos, é tudo a mesma coisa, e não tem a ver com relgião, porra!

– Então, recapitulando, Eros e Thanatos e vida e morte são a mesma coisa?cosmogonia_de_eros.jpg

– Não exatamente.

– Mas foi o que você disse.

– Tá certo, eu me confundi, quer dizer, você me confundiu. Você faz tanta pergunta que parece retardado, atrapalha a minha linha de raciocínio.

– Eu não sou retardado.

– Eu sei que você não é retardado, eu disse que você parece retardado.

– Eu não pareço retardado. Só porque eu não consigo compreend er essa babaquice toda que você tá falando aí sobre esses sujeitos – como é mesmo o nome deles? Ah, Eros e Thanatos -, não é por isso que eu sou ou pareço retardado.

– Eu não quis te ofender, desculpe, mas essa história de Eros e Thanatos não é babaquice. Aliás, essa tua mania de ficar classificando de babaquice tudo o que você não entende ou te ameaça é uma pura manifestação do teu instinto de morte.

– Você pede desculpas e ofende mais ainda. E depois é o seguinte: quem disse que eu vou ter medo desses dois merdas aí?

– Que merdas?

– Esse tal de Thanatos e esse tal de Eros, esses caras nem existem de verdade.

– Eles são mais reais do que você imagina.

– Então me mostra eles. E depois é o seguinte, vou repetir a pergunta que eu já fiz: o que essa conversa toda tem a ver com as pessoas se interessarem ou não pelo que você escreve?

– Eu ia explicar, mas você não deixou.

– Então agora eu deixo, explica aí!

– É simples. Eu achar que ninguém vai se interessar pelo que eu escrevo é uma atitude comum do meu instinto de morte, do meu Thanatos. Achar que as pessoas podem se interessar pelo que eu escrevo é uma atitude do meu instinto de vida, do meu Eros.

– Coisa mais estúpida!

– Você acha estúpida porque você se recusa a aceitar que você tem Eros e Thanatos dentro de você.

– E por que você acha que seria diferente?

– Porque a gente precisa acreditar que pode ser diferente.

– Essa história de religião é engraçada mesmo!

 

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VIVOS, POR AÍ

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– Quantas vezes mesmo?

– Cinco ou seis.

– Na seqüência?

– Quase.

– Você ia sozinho?easy-11.jpg

– Não, ia sempre um pessoalzinho junto, sempre o mesmo pessoalzinho.

– Coisa de maluquinho, né?

– Na época parecia importante.

– Mas por que tantas vezes assim?

– Não sei. Acho que, como não pintava nada melhor pra fazer, a gente se encontrava na porta do cinema e assistia de novo.

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– E como é que foi assistir mais uma vez agora, depois de tanto tempo?

– Bom, tem uma história antes. Há muito tempo eu não lembrava dele nem de nada relacionado com ele. Então, um amigo me mandou um link do Youtube com alguns trechos. Aí, eu, de repente, senti vontade de ver de novo e saí batalhando nas locadoras, mas não encontrei. Depois procurei na net, mas tava esgotado em todo o lugar. Finalmente, consegui um exemplar.

– E como foi então?

– Ainda não sei direito, ainda estou pensando. Primeiro é diferente você ver no cinema e em DVD. Acho que a maior parte das coisas continua fazendo sentido, algumas até mais, hoje em dia. Outras não.

– Exemplo.

-Não sei se eles deviam morrer no final. Na época, tinha um puta sentido, hoje já não sei. Talvez eles pudessem continuar vivos, talvez fosse mais interessante eles continuarem vivos. A comunicação através da tragédia não parece tão eficiente no mundo de hoje. A possibilidade de se escapar vivo parece mais atraente.easy-3.jpg

– Dá pra você aprofundar isso?

– Não.

– Então me dá um exemplo do que continua fazendo sentido.

– A maior parte das atitudes do Capitão América, quase todas as suas atitudes continuam fazendo sentido hoje. E tem ainda aquela frase dele, pouco antes do final, “nós estragamos tudo”. Aquilo é foda!

esay-72.jpg– Vocês perderam?

– Vocês quem?

– A geração de vocês, perdeu?

– Já tive essa sensação por bastante tempo, mas, como eu disse, a possibilidade de se escapar vivo é mais atraente do que a tragédia.

– O que isso quer dizer, exatamente?

– Que os que escaparam estão por aí, vivos. Isso, com certeza, não é uma tragédia.

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QUE MERDA?untitled-10.jpg

– Eu sou homem e tudo do que é humano me é estranho.

– Não é ao contrário esse troço?

– Olha, pra um tal de Terêncio, que disse esse negócio há não sei quantos anos antes de Cristo, pode ser que sim, mas pra mim não. Pra mim é desse jeito mesmo.

– Mas não fperfil2.jpgaz sentido.

– O que não faz sentido?

– Esse negócio do jeito que você disse. A coisa só faz sentido se você, porque é humano, não acha nada do que é humano estranho.

– Só que eu acho, porra. Eu acho tudo que é humano cada vez mais estranho. Você não acha?

– Não, eu, como humano, compreendo muitas coisas que poderiam até parecer estranhas, mas eu não acho estranhas, porque eu sou humano.

– Sem querer estender muito o assunto, até porque eu já sei que isso não vai levar a nada…mas, me responde uma coisa: exatamente pra quem essas coisas que você não acha estranhas poderiam parecer estranhas?

– Não entendi a pergunta. Dá pra você repetir?

– Bom vamos lá, se você não acha estranhas as coisas humanas que poderiam parecer estranhas e isso acontece porque você é humano, então quem poderia estranhar tais coisas não é humano, certo?perfil.jpg

– Eu entendi menos ainda agora.

– Eu já imaginava.

– O que você já imaginava?

– Que você não ia mesmo compreender minha pergunta. Aliás, que taperfil2.jpgl mudar de assunto?

– Por que, esse assunto está te incomodando?

– Não, está incomodando você.

– Eu não estou nem um pouco incomodado. Eu sou humano, por isso esse tipo de coisa não me incomoda.

– Que tipo de coisa?

– Desse tipo de coisa que a gente tá falando.

– Dá pra você me explicar exatamente de que tipo de coisa a gente ta falando?

– Esse lance de ser humano e não ser humano.

perfil.jpg– Não é disso que a gente tá falando.

– Claro que é. Foi você que começou com isso.

– Eu não comecei porra nenhuma. O que eu disse é que tudo que é humano me é estranho, me espanta. Os humanos vivem me espantando. Aliás, o humano que mais me espanta sou eu mesmo, sacou?

– Não.

– Então esquece.

– Tá vendo como isso te incomoda?

– Como é que isso pode me incomodar se eu nem sei que porra é isso!

– Os humanos.

– Bom, se você vai por esse lado, realmente os humanos me incomodam.

– Ser humano incomoda você?

– Também, sabe por quê? Porque ser humano é estranho.

– É, você é mesmo estranho, mas, como eu sou humano, eu não te acho tão estranho assim.

– Que merda!

– Que merda?

untitled-100.jpg

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CAIXA PRETA

 

black_box_1.jpg

– Se você acha que eu vou falar sobre isso, desista!

– Por quê?

– Porque eu não quero falar sobre isso.

– Agora?

– Não, eu não quero falar sobre isso nunca.

– Então deve ser algo muito grave.

– É, é grave.

– Mais um motivo para você se abrir. Afinal, se estamos juntos nisso, nada mais justo do que compartilharmos o que estamos sentindo, principalmente quando nossos sentimentos mexem tanto conosco.

– Isso é conversa de mãe.812006102513331015gravadordevoz.jpg

– Sua mãe não está junto com você nisso, sua mãe estava junto com você em outras coisas.

– Não estou falando da minha mãe. Estou falando de mães em geral.

– Então você está falando de mim, porque eu também sou mãe, embora não seja a “sua” mãe.

– De qualquer forma, eu não vou falar sobre isso.

– Sobre mães?

– Não, sobre aquilo que você estava querendo que eu falasse.

– Eu não estava querendo que você falasse sobre nada. Eu só disse que, se você estava tão incomodado, eu estava disposta a ouvir você sobre o motivo de todo esse desconforto.

– Pois é, 08_24_011.jpgmas já passou.

– O quê, o motivo do desconforto?

– Não, o motivo permanece. O desconforto é que já passou.

– Ótimo! Já que agora você está mais calmo, que tal conversarmos a respeito?

– A respeito de quê, meu Deus?

– Do teu desconforto.

– Já disse que o desconforto passou.

– Mas o motivo continua. Se você não conversar sobre o motivo, logo, logo você vai estar desconfortável de novo.

– Como você pode ter tanta certeza?1542006041216243615caixa2.jpg

– Eu simplesmente sei.

– Não há dúvida de que você é realmente mãe.

– Não acredito que você vai começar com essa história de mãe de novo.

– Foda-se a mãe!

– O quê?

– Nada, é que você está me pressionando muito. Parece uma torturadora.

– Acho que você está me confundindo com a “sua” mãe.

– Quem disse que minha mãe era torturadora?

– De vez em quando todas as mães são torturadoras.

– Você deve entender bem disso. Afinal você é mãe, não é?

– Já disse que sou.

– Então é por isso que você está me torturando?

– Eu não estou te torturando, droga!

– Mas vosemduvida2.jpgcê quer me obrigar a abrir o bico.

– Não quero te obrigar a porra nenhuma. Só queria que você desabafasse.

– Você não vai me obrigar a abrir o bico, nem minha mãe conseguia.

– Então fica calado, porra!

– Assim está melhor. Talvez agora eu fale.

– Eu não quero ouvir mais merda nenhuma.

– Tá legal, se você prefere assim…Te acordo à mesma hora amanhã?

– Acorda.

– Posso apagar a luz?

– Pode.

– Boa noite!

– Boa noite!

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SEI LÁ..

 

untitled-4.jpg

– “Não acho que isso seja um defeito”, disse ela.

– “Não estou dizendo que é um defeito, mas uma dificuldade de lidar com esse tipo de coisa”, ele respondeu.

– “Uma dificuldade sua. Sou diferente. Gosto de gente.”

– “Não disse que não gosto de gente. Só não gosto de me sentir obrigado a fazer parte de um grupo de gente que pensa da mesma forma, age da mesma forma, sente da mesma forpanico021.jpgma…”

– “Você colocou um muro entre você e as pessoas. Você mesmo disse que o muro que protege das fechas, também impede a chegada das flores.”

– “Quando eu disse isso?”

– “Não me lembro, mas você disse.”

– “Isso é coisa de budista, sei lá.

– “Mas você disse.”

– “Talvez…mas eu também disse que quando os

telefone-dark1.jpg

laços se transformam em algemas, meu desejo de escapar se torna incontrolável.”

– “O muro que protege das fechas também protege do amor.”

– “Amor é a palavra que eles usam antes de te arrancar a pele.”

– “Você inventou isso ou também é coisa de budista?”

– “Nem uma coisa nem outra. Isso eu ouvi num filme. A Faye Dunnaway, afaye1.jpgquela loira do ‘Bonnie and Clyde’, dizia isso para o Kirk Douglas.”

– Michael Douglas!

– Não, o velho mesmo, o pai, Kirk Douglas.

– “Como era o nome do filme?”

– “Não me lembro. Só me lembro da frase.”

– “Você acha realmente isso?

– “Isso o quê?”

– “Que amor é a palavra que eles usam para arrancar a nossa pele”.

– “Não é ‘para arrancar a nossa pele’. É ‘antes de arrancar a nossa pele’.”kirk_douglas.jpg

telefone-dark11.jpg– “Seja como for. Você acredita nisso ou não?”

– “Não.”

– “Não o quê?”

– “Não acredito.”

– “-Ainda bem.”

– “Mas é uma frase do caralho, não é? Às vezes acontece isso mesmo: usam a desculpa do amor pra colocar algemas em você.”

– “Ninguém está colocando algemas em você…”

– “Basta um vacilo e as pessoas começam a dizer opanico022.jpg que você deve ou não fazer, com quem deve ou não andar, o que deve ou não sentir…já vi isso acontecer muitas vezes.”

– “Só se você deixar…”

– “Pois é, eu não quero deixar que isso aconteça comigo de novo…isso.”kirk_douglas.jpg

– “Então já aconteceu antes?”

– “Já, por isso me protejo da melhor maneira possível. Aliás, da única maneira que eu sei, fugindo das armadilhas…das igrejas, das fraternidades, das irmandades, dos partidos, dessas coisas todas. No fundo é tudo igual.

– “Eu não sinto desse jeito. Gostaria de sentir do jeito que você sente, mas eu não sinto desse jeito.”

“Eu não gostaria de sentir do jfaye1.jpgeito que você sente. Eu gostaria que você sentisse do jeito que eu sinto.

– “Você é mais egoísta que eu, então.”

– “É, eu sou um poço de egoísmo.”

– “Também não é assim.”

– “É assim, é assim mesmo. Você não fica chocada?”

telefone-dark11.jpg– “A gente ainda não sabe lidar com as diferenças, né?”

– “Eu acho que com essas diferenças a gente não vai aprender a lidar nunca. Quer dizer, eu acho que eu nunca vou aprender a lidar. Não sei quanto a você.”panico022.jpg

– “É melhor a gente mudar de assunto. A gente não consegue conversar sobre isso de uma forma tranqüila.”

– “Eu não tenho a mínima pretensão de conversar tranqüilamente sobre isso algum dia.”

– “Então você acha que não tem solução?”

– “Sei lá.”

untitled-41.jpg

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diabo1.jpg

QUE DIABO?

– Fique com Deus.

– Eu não preciso nem de Deus. Basta que os demônios se afastem.

– Como assim?

– Desse jeito. Basta que os demônios que estão próximos se afastem. E os que estão mais distantes, não se aproximem.

– E sobre Deus?

– O que é que tem Deus?

– Você não quer que ele se aproxime?

– Quem disse?

– Você!

– Eu não disse isso.

– Como não? Veja bem! Eu disse pra você ficar com Deus e você disse que não precisava de Deus, bastava que o diabo se afastasse.

– Demônios.

– Que demônios?
– Eu não falei diabo. Eu falei demônios.

– Demônios, diabo, que diferença faz?

– Diabo é uma coisa muito complicada. Não consigo conceber um diabo, já demônios, bem, demônios é fácil. Eu consigo identificar vários dos meus demônios. Eu osfoto_diabo1.jpg sinto, às vezes acho que até os vejo.

– Você vê demônios?

– Acho que sim, às vezes.

– E como eles são?

– Cara, não é assim, não sei descrever…deixa eu me explicar melhor. Às vezes, eu sinto meus demônios tão perto, tão presentes, que parece que eu consigo até vê-los. Mas eu não consigo vê-los realmente, entende? É apenas uma sensação.

– Então eles podem não ser reais. A gente sente muita coisa que não existe.

– Ah, não! Os meus demônios são reais sim. Tenho certeza de que eles existem. Aliás, a cada dia eu os percebo com maior clareza.

– Mas você não me respondeu por que você ficou nervoso quando eu disse pra você ficar com Deus.

– Eu não fiquei nervoso.

– Digamos inferno10.jpgque você ficou um pouco agressivo.

– Só porque eu disse que queria que os demônios se afastassem?

– Não, porque você disse que não precisava de Deus.

– Meu Deus, eu não disse que não precisava de Deus. O que eu quis dizer é que a situação não era tão desesperadora assim. Então, eu não precisava nem de Deus, bastava que os demônios se afastassem, que isso já estaria de bom tamanho.

– Mas a presença de Deus resolveria tudo isso de uma só tacada.
– Tudo bem, nada contra. Só que eu não tenho problemas com Deus, eu tenho problemas com os meus demônios. Dá pra entender?

– E o diabo?

– Que diabo?

 

anjo_caido.jpg

31 Comentários leave one →
  1. julho 11, 2007 4:29 pm

    Mas, afinal, que fim levaram os seus diabos?

  2. oanodalargartixa permalink*
    julho 11, 2007 4:43 pm

    Viraram demônios, ora!

  3. Gilvan permalink
    julho 11, 2007 8:26 pm

    Diabólico ! (Gilvan)
    Demoníaco ! (Stella)

  4. simone permalink
    julho 11, 2007 10:13 pm

    não comentarei nada…..mas adoro ler suas produções….

  5. julho 13, 2007 4:32 pm

    – Fique com Deus.
    – Eu não preciso nem de Deus. Basta que os demônios se afastem.

    Depois dessa não há o que comentar cada um que tire suas próprias conclusões.

  6. simone permalink
    julho 13, 2007 10:59 pm

    ufa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  7. simone permalink
    julho 14, 2007 11:22 pm

    estive aqui e li……..

  8. CALOPSITA ESTRESSADA permalink
    agosto 2, 2007 2:13 pm

    Eu disse prá vc que eles naum deviam morrer no final, isso é coisa de de thanatos, eles sobreviverem apesar de tudo é EROS!!!!!!
    Sou mãe,com muitos diabos querendo transformar os demônios dos outros em anjos com minha capa de superwoman que tem algum tempo que consigo deixar pendurada atrás da porta, mas como fico estressada, ah como dá trabalho, tentar naum ser mãe, conviver com os meus demonios e deixar que os outros cuidem dos seus. Te amo

  9. agosto 2, 2007 3:02 pm

    Eu sei, eu sei como é duro. Todas as calopsitas estressadas têm esse problema. Mas, no fim, Eros prevalece.

  10. agosto 3, 2007 8:19 pm

    Uepa! Pintó un Eros en lo pedazo. Si jo non estuvir me intrometiendo , quiero decir que esta pagina y el resto del blog eston una cosa de loco. Tiene certeza de qui tu estás a hacer el dibujo? Caramba! Tu estás transformandote nun artista plastico despues de viejo? Está lindo y de un estilo del carajo. Alguién habló carajo?

  11. agosto 3, 2007 9:44 pm

    Los dibujos son presentes de los dioses. Sobre el resto, porqué no lo haces cuidado de tu vida, Lhama estupida?

  12. simone permalink
    agosto 19, 2007 5:55 pm

    oi

  13. agosto 22, 2007 9:55 pm

    Ô lagartixa, diz oi pra menina, pô!

  14. agosto 22, 2007 10:24 pm

    Então tá! Oi!

  15. Zé Rodrigues permalink
    setembro 17, 2007 7:00 pm

    Ufa! Dessa (da encruzilhada), estou tranquilo. Moro nela há mais de um quarto de século. É só por os pés na calçada e caminhar. Qualquer rota serve. Se tomo a direita, chego no Macuco. Se a esquerda, no Gonzaga. Pra frente, na Vila Matias. Zé.

  16. setembro 17, 2007 8:07 pm

    Tá vendo? Macuco, Gonzaga e Vila Matias. Três alternativas e não quatro. O cara lá da “Encruzilhada” tinha razão.

  17. jorge vidal permalink
    setembro 25, 2007 10:31 pm

    bom! lembre-se ! inimiguississimo do otimo.
    talves o portugues nao esteja correto
    mas como disse o bom e inimigo do otimo

  18. Zé Rodrigues permalink
    outubro 7, 2007 9:57 am

    Oba Fidalgo. Pelo que tenho estudado e li nos diálogos:as palavras do mendigo- todo fantasma é um espírito, mas nem todo espírito é um fantasma.
    Abração do Zé Rodrigues.

  19. Ney Diegues Corona permalink
    outubro 7, 2007 5:57 pm

    Sinto muito, mas “espíritos” estão mais para fruto da imaginação, o que é diferente de espírito, verve, etc. Já as assombrações são algum luto mal resolvido, esqueletos no armário ou no DNA dos outros. Que preocupação isso poderia causar? Os vivos estão separados disso por uma barreira de percepção e são justo os vivos que ficam cutucando “os espíritos” dos mortos que criam as assombrações. Devem ser os mesmos “espíritos-de-porco” que arrancam as flores do seu jardim e devastam o dos outros só porque se acham no direito de tomar o que não cultivaram. E olha que nem um ramalhetezinho essa gente vai levar no cemitério para ver se as tais assombrações ficam no lugar que devem. Será que eles acham que flor nasce assim sem mais nem menos?

  20. vidal permalink
    outubro 13, 2007 10:52 pm

    gostei, do papo da encruzilhada anteriormente tinha lido e nao tinha percebido dos tres caminhos que restam.

  21. novembro 1, 2007 3:44 pm

    Gostei do texto, muito bom…

  22. novembro 1, 2007 3:44 pm

    Ah gostei muito também da pintura

  23. permalink
    novembro 14, 2007 10:58 pm

    Para Ney Diegues Corona com um beijo da Lé.

  24. Coca permalink
    novembro 21, 2007 11:08 am

    Tô curtindo…
    Me identifico em muitos momentos da leitura!
    Abraço.

  25. dezembro 1, 2007 10:21 am

    CALA A BOCA!

  26. dezembro 1, 2007 10:26 am

    Mas eu não disse nada!

  27. chico marques permalink
    dezembro 12, 2008 6:39 pm

    Oi Fidalgo

    Isso está ficando cada vez melhor. Go ahead, make my day…

    A propósito, dê uma olhada no blog desse cara:
    http://brancoleone.wordpress.com/

    Ele está vendendo dois livros dele pelo OsViraLata de uma maneira bem apelativa, dando muita visibilidade para os livros no blog, o que de repente pode servir para você também.

    Grande abraço, Chico

  28. novembro 8, 2010 5:57 pm

    io tudobem ae cara isto e maito tri

  29. novembro 8, 2010 6:00 pm

    eai cara muto tri isto

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