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O ANO DA LAGARTIXA, O LIVRO

A crônica de um autor pelado Por Mauri Alexandrino (*)

Em seu primeiro romance, O Ano da Lagartixa, o jornalista santista José Roberto Fidalgo, ou JR Fidalgo como está na capa do livro, é um autor pelado. Não porque a história tenha a ver com nudismo, o que não tem. Também não é porque, num sentido figurativo, ele teria desnudado sua vida frente aos leitores, num desses stripteases autobiográficos que andam em voga. A história usa episódios e recursos que só brotam da vivência e da convivência evidentemente, mas está longe dos livros de auto-ajuda, outra praga recente das prateleiras. JR Fidalgo está pelado no que mais interessa: o ato de escrever, a motivação de escrever, as dúvidas e a insatisfação permanente à espera de palavras, linhas e sentenças. A luta nua do autor com sua obra. Impossível deixar de ler em O Ano da Lagartixa os ecos de John Fante, escritor norte-americano falecido em 1983, em especial o Fante de Pergunte ao Pó, embora no oposto simétrico das situações. Arturo Bandini, o personagem do livro de Fante, julga-se um grande escritor injustiçado — mas não é. Está sempre à espera pela primavera, o que é literal no conto Espere a Primavera, Bandini, que lhe deu nascimento. O personagem inominado de O Ano da Lagartixa percorre o caminho narrativo oposto, sempre duvidando da qualidade, jamais repleto, que joga textos fora, que reescreve, que pára, vazio, defronte à tela vazia de um velho computador num quarto de uma casa de cômodos. Espera apenas palavras, não primaveras, que de resto seriam inúteis sob a insanidade do vento noroeste. Como o personagem de Fante, o personagem de JR Fidalgo está sempre Walk on The Wild Side, frase, por sinal, que sempre se atribui ao músico e performer Lou Reed, mas é o título de um roteiro de filme de John Fante, que foi (re)utilizado pelo compositor, seu fã declarado. Mas o escritor lutando com o texto em O Ano da Lagartixa está mais próximo das agruras dos personagens de Charles Bukowski, autor magnífico que também é uma criatura de John Fante ou, como preferia, um “seu irmão literário”. Jonh Fante, Charles Bukowski, Lou Reed — em boa companhia está esse JR Fidalgo. Em comum, mais que o atacado de temas e situações, há o varejo do texto vertiginoso e cambaleante, bêbado de uma energia descontrolada e efêmera, de emoções substantivas que explodem e consomem-se em segundos. A graça às vezes amarga, mas nem por isso menos cômica. Se Bandini parece mover-se em meio a uma trilha sonora de jazz, o inominado personagem de JR Fidalgo nada em rock’n roll puro. As menções sobre uma época inteira estarão aqui e ali, espalhadas no ar quente e pegajoso. Bandini, o personagem, é o alter-ego de Fante. Fidalgo desloca seu personagem para o lado, para dar lugar ao alter-ego do autor, que é a lagartixa que batiza o livro. Ou antes, ambos são, como num caso de dupla personalidade, evadindo-se de fatos passados, de uma vida anterior, de uma outra encarnação quase. Bichos falantes são tão velhos quanto a literatura. A lagartixa é mais esperta que um grilo, uma raposa ou um cachorrinho que ri. É mais prática que um porco pretendendo andar em duas pernas. Lagartixa é bicho liso, frio, rápido e rasteiro. Lagartixa é dos raros seres que expõem uma nudez despudorada vida afora. Tem, ainda, a vantagem suprema de viver em uma realidade verdadeiramente tridimensional, na qual não há paredes nem teto, só chão.

* Mauri Alexandrino é jornalista, webdesigner, etc, etc, etc…

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“O ANO DA LAGARTIXA”

(A História de uma História)

JR Fidalgo

Completamente bêbado, reuni o que encontrei pela casa e levei para o fundo do quintal. Fui interrompido pelos gritos de minha ex-mulher quando tentava acender o primeiro fósforo. De qualquer forma, tudo o que havia escrito até então acabou apodrecendo em algum canto úmido da casa ou se perdendo durante as mudanças de endereço que se seguiram. Agora eu estava ali, vários anos depois, concluindo que tudo o que tinha escrito após aquela fogueira abortada também era inútil, impreciso, descartável. Mas não pensava em fazer outra fogueira. Andava sóbrio nos últimos tempos e não tinha mais quintal. Tocar fogo numa pilha de papéis no meio da sala de um apartamento poderia ter conseqüências desagradáveis, para mim e para os vizinhos. Decidi deixar que tudo apodrecesse de novo em algum canto…ou se perdesse nas próximas mudanças.

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Sobre o livro anterior

Agora aquilo tudo parecia um livro de auto-ajuda, babaca e mal resolvido. De qualquer forma, era a única coisa, digamos, completa que eu havia escrito até então. Tinha começo, meio e fim. Quer dizer, a coisa começava em algum lugar e terminava em um outro, com alguma coisa entre esses dois pontos. Ou algo bem perto disso. De qualquer forma, as quase cem páginas que eu segurava nas mãos deveriam agradecer pelo fato de eu não ter mais quintal. De qualquer forma, decidi que não perderia mais tempo com aquilo, até porque as pessoas que eu gostaria que lessem já haviam lido. E até algumas que não estavam incluídas na lista também o tinham feito. Que aquelas quase cem páginas ficassem como referência, do que eu não sabia direito. De qualquer forma, como dizia aquele meu amigo que havia sido punk durante algumas semanas e depois se tornado carteiro: “Foda-se a República, fodam-se os reis, morte às ditaduras. De novo, sempre e outra vez!”

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Capítulo I

Nunca tive intenção ou vontade de fazer literatura. Toda vez que escrevi alguma coisa, fora de meu ganha pão como redator de roteiros turísticos para a terceira idade, catálogos de móveis antigos, fascículos sobre armas medievais e aviões de guerra modernos – ou o que mais aparecesse -, foi por pura necessidade de tornar o mundo um pouco mais suportável ou para me tornar um pouco mais suportável para mim mesmo.

Talvez por isso mesmo nunca tenha conseguido escrever uma história, com desenvolvimento de enredo, personagens, essas coisas. Com 12 ou 13 anos havia tentado fazer isso pela primeira vez, inventando uma história sobre agentes secretos que tinham a missão de salvar o mundo e, no caminho, encontravam belas mulheres que acabavam se apaixonando por eles e essas coisas. Então ficava deitado, de noite, antes de dormir, imaginando as cenas que colocaria no papel no dia seguinte. Foi quando descobri que viver aquelas coisas todas na imaginação era bem mais excitante e fácil do que escrevê-las. A partir desse dia, fiquei só deitado, imaginando…

Mas como o mundo, volta e meia, ficava insuportável – e como, volta e meia, eu comecei a ter grandes dificuldades de me suportar -, continuei tentando escrever. Porém, acabava achando os enredos de minhas histórias tão ruins que desistia no meio. Sempre funcionava melhor quando eu deitava e imaginava.

Descobri então que escrever sobre o que acontecia comigo mesmo podia ser quase tão divertido quanto ficar deitado imaginando histórias. Sentava na escrivaninha do meu quarto, geralmente durante a tarde, e enchia folhas de um caderno sobre tudo o que se passava comigo e ao meu redor. Até que um dia, ao sair para a escola, esqueci o caderno em cima da cama. Quando voltei, minha mãe estava com ele nas mãos e os olhos cheios de lágrimas. Não imaginava que a minha visão do mundo e de mim mesmo fosse tão dramática, a ponto de despertar sentimentos daquele tipo, ainda mais em minha mãe. Era mais seguro deitar e imaginar, e foi o que eu fiz.

Agora, sentado aqui, fico imaginando o que teria acontecido se minha mãe não tivesse pegado aquele caderno e lido o que eu andava escrevendo. Teria eu me tornado um grande escritor? Teriam aquelas folhas sido o início do meu primeiro grande romance?

De qualquer forma, o romance seria sobre mim mesmo, e não acredito que alguém estivesse tão interessado no que acontecia na minha vida na época. A não ser minha mãe, é claro!

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Capítulo II

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Não que minha vida hoje, aos quase 60 anos, seja mais interessante do que era aos 12 ou 13. Acho até que, naquela época, tinha bem mais coisas a dizer. De qualquer forma, antes ou agora, minha história de vida nunca seria capaz de sustentar convincentemente a narrativa de um livro. Já a vida daquele meu amigo carteiro, que tinha sido punk por algumas semanas, daria, na minha opinião, um romance bem interessante. Éramos quase da mesma idade, mas Arthur tinha um grande imã dentro dele, um imã que atraía situações e acontecimentos sempre inusitados. Hoje, pensando melhor, me pergunto se não seria exatamente o contrário, isto é, não seriam as situações e os acontecimentos inusitados que exerciam atração irresistível sobre Arthur? Bem, não importa. Na época a teoria do imã me parecia adequada para explicar a capacidade que ele tinha de se meter em confusão. E isso nada teve a ver com seu breve período como punk. A meteórica performance como clone de “Joãozinho Podre” foi até amena, se comparada às suas insólitas aventuras como carteiro. Aliás, o fato de ter se tornado carteiro já foi algo totalmente insólito.

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Após o período punk, Arthur resolveu dar uma guinada de 180 graus. Por algum motivo totalmente inexplicável, decidiu se alistar na Marinha, com o estranho propósito de se tornar “oficial de submarino”, embora tivesse verdadeira fobia de gato pela água do mar. Na noite anterior ao exame de seleção para o recrutamento da Marinha, a tal fobia começou a bater forte, deixando-o cada vez mais apavorado. Para relaxar, resolveu ir até a faixa do porto. Queria se familiarizar com o “feeling” dos marinheiros, pois achava que isso talvez o acalmasse um pouco. Não encontrou marinheiro algum, mas encheu a cara e acordou com o dia amanhecendo e uma mulher que não conhecia ao seu lado. Com a cabeça parecendo uma britadeira picando asfalto, vestiu rapidamente suas roupas e pegou um táxi. Pediu ao motorista que o levasse “até o alistamento”. Naquele dia, os Correios estavam selecionando novos carteiros. O taxista tinha, inclusive, lido sobre o assunto no jornal do dia anterior e sabia exatamente onde a coisa ia acontecer. “É pra já!”, disse o motorista para Arthur, que aproveitou para recostar a cabeça no banco e descansar durante o percurso. “É aqui, companheiro!” Ainda tonto, Arthur abriu os olhos e enxergou uma fila de homens no passeio do outro lado da rua. Pagou o motorista e, cambaleando, entrou no final da fila. O sujeito na sua frente estava bebendo algo de uma garrafa envolta num saco de papel pardo. Ofereceu a Arthur e ele deu um gole. Era forte, mas sentiu uma repentina sensação de bem estar dentro do peito. Agradeceu e devolveu a garrafa, mas o sujeito lhe disse: “Tome mais um gole. Você tá com uma cara horrível.” Arthur pegou a garrafa de volta e entornou mais daquele negócio na garganta. O dia amanhecia outra vez e Arthur estava acordando de novo.pintura.jpg Agora estava em sua cama e não havia ninguém ao seu lado. A sensação era de que sua cabeça fora substituída por um enorme buraco negro. Tentou lembrar do que acontecera depois que aquele líquido descera queimando sua garganta, lá na fila do “alistamento”. Tentou lembrar da cara do sujeito que lhe passara a garrafa embrulhada no papel pardo. Tentou lembrar de como tinha sido o processo de seleção para a escolha dos candidatos a recruta da Marinha. Inútil. Quanto mais tentava se lembrar de alguma coisa, mais o buraco negro em sua cabeça parecia aumentar de tamanho. Havia, porém, lá no meio de toda aquela escuridão, uma tênue luzinha piscando que, de tempos em tempos, lhe trazia de muito longe uma vozinha em forma de sussurro: “Aguarde a comunicação.” Mas a vozinha também podia estar dizendo: “Aguarde a confusão!” ou “Aguarde o camburão!” Desistiu de tentar decifrar aquela obscura mensagem que parecia sussurrada dentro de um túnel de metrô enquanto os trens iam e vinham. Decidiu apenas aguardar, seja lá o que fosse.

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Dia após dia, o buraco negro na cabeça ia diminuindo. Arthur chegou até a arrumar um emprego provisório como entregador de um supermercado próximo à sua casa. Numa manhã, bateram à sua porta, mas quando ele abriu não havia ninguém. Reparou então num telegrama jogado no chão. Rasgou o lacre e lá dizia: “Apresente-se na próxima segunda, às 9 horas, para a segunda fase do teste de aptidão.” Não ficou muito animado com a notícia. Já tinha desistido daquela idéia idiota de ser oficial de submarino e se sentia até aliviado de não precisar mais enfrentar a sua apavorante fobia do mar. Aquela história de “alistamento” havia se transformado quase num pesadelo. Nos dias seguintes ao recebimento do telegrama, Arthur teve a sensação de que o buraco negro em sua cabeça estava aumentando de novo. Mesmo assim decidiu, não sabia bem por que, que iria participar da tal “segunda fase do teste de aptidão”, seja lá o que isso significasse. O trabalho no supermercado tinha acabado e Arthur precisava desesperadamente de um emprego. E, afinal, se o estavam chamando para uma “segunda fase”, era sinal de que havia, pelo menos, passado na primeira etapa, embora não se lembrasse de absolutamente nada a respeito. Só esperava que a “segunda fase” não tivesse, ainda, nada a ver diretamente com o mar. Como tinha sido tão estúpido de se meter com essa coisa de querer ser oficial de submarino? Arthur começava a dar razão à sua mãe, que dizia que ele tinha nascido com um parafuso a menos. Aliás, ele estava chegando à conclusão de que não lhe faltava apenas um, mas vários parafusos.

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Quando finalmente a “próxima segunda” chegou, Arthur saiu de casa bem cedo e só então percebeu que não sabia o endereço do “alistamento”. Devia ser no mesmo lugar onde estivera se inscrevendo, o que não ajudava muito, pois não se lembrava de absolutamente nada daquele dia. Já estava a umas cinco quadras de seu pequeno apartamento, mas voltou para pegar o telegrama de convocação. O endereço devia estar lá. Só que, ao chegar no apartamento, percebeu outro pequeno detalhe. Não fazia a menor idéia de onde estava o telegrama Talvez tivesse jogado o papelzinho fora, o que era bem provável. Vasculhou todos os cantos e nada do maldito telegrama. De repente seus olhos se fixaram numa jaqueta azul de brim que estava há dias pendurada no trinco do armário. Foi até o bolso esquerdo da frente, enfiou a mão e lá estava ele, o telegrama. O endereço do “alistamento” não era muito longe, mas Arhtur já estava atrasado. Revirou os bolsos e constatou que todo o dinheiro que tinha deveria dar exatamente para pagar um táxi, evitando assim que fosse desclassificado na “segunda fase” apenas por ter chegado depois do horário marcado. Desceu as escadas correndo e na rua avistou um táxi que vinha em sentido contrário. Fez sinal e o carro parou. Enquanto ajustava o cinto de segurança, ouviu a voz do motorista: “Ei, você não é o cara do alistamento?” Incrível, mas era o mesmo taxista que, naquele dia envolto em névoa pesada, o havia pegado semimorto no cais e levado ao local do “alistamento”.

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“Chegamos”, disse o motorista, estacionando numa rua que Arthur nunca havia visto antes. Mas como tudo naquele “dia do alistamento” tinha se transformado num imenso buraco negro, ele limitou-se a entregar seus últimos trocados ao taxista. “Hã, aonde fica mesmo?”, perguntou Arthur ao motorista. “Ora, ali. Você não lembra?”, respondeu o taxista, apontando para um antigo e imponente prédio do outro lado da rua. “Ali?”, perguntou Arthur de novo. “Claro, onde mais poderia ser”, disse o motorista, dando partida no carro. Arthur ficou um tempo ali parado, olhando para o prédio, tentado a dar o fora e a abandonar definitivamente aquela porra daquela idéia maluca de arrumar um emprego num submarino. Mas acabou atravessando a rua e entrou no velho edifício. Na recepção, entregou o “telegrama de convocação” a uma recepcionista, que examinou o papel e mandou que ele subisse até o terceiro andar. Chegando lá, Arthur deparou-se com uma porta no fundo de um corredor, atrás da qual havia uma grande sala, cheia de caras mais ou menos da sua idade, ouvindo atentamente um sujeito um pouco mais velho que dava algumas instruções em frente a um grande quadro negro. Os caras estavam sentados em carteiras tipo escolar, com algumas folhas à sua frente. Sentou-se numa carteira vazia e logo uma mulher, cuja presença na sala ele não tinha percebido, também lhe entregou alguns papéis. O sujeito em frente ao quadro negro estava explicando como deviam ser preenchidas as folhas da segunda fase do teste de aptidão. Enquanto se esforçava para entender as explicações, Arthur sentiu-se até um pouco reconfortado, pois estava claro que o teste daquele dia não envolveria, ainda, nada relacionado com ser obrigado a enfrentar o mar. Assim que o homem lá na frente deu a ordem, Arthur começou a preencher as folhas. Não achou as questões muito difíceis e foi colocando cruzinhas nos quadradinhos com relativa rapidez. Respondeu todas as questões da primeira folha, da segunda e da terceira. Quando chegou à quarta, havia apenas uma pergunta, bem no alto da página, para ser respondida de forma manuscrita, como se fosse uma redação. A pergunta era: “Por que você quer ser carteiro?”

Só então Arthur descobriu que não havia se “alistado” na Marinha, mas sim num concurso de candidatos a carteiro. Depois que se refez da surpresa, ficou tão feliz de saber que não estava mais ameaçado de acabar seus dias num submarino que sua redação sobre por que queria ser um carteiro chegou a comover a banca examinadora e foi item decisivo para ser aprovado em primeiro lugar no concurso. O mais curioso é que, logo após acabar a prova, Arthur sentiu uma irresistível vontade de ir até a praia e dar um mergulho.

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Capítulo III

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Não tinha notícias de Arthur há anos. Aliás, não sabia nem se Arthur ainda estava vivo. De repente comecei a viajar com a idéia de localizá-lo e propor que escrevêssemos um livro juntos. Ele entraria com as histórias, eu com os textos. Mas onde diabos iniciaria minha busca? Ele simplesmente tinha desaparecido no ar. Coisa, aliás, bem ao seu estilo. Melhor deixar aquela idéia idiota de lado e me concentrar na revisão final do texto de receitas nórdicas. Se alguém me dissesse que algum dia eu estaria preocupado com a culinária viking…Na verdade não entendo nada de qualquer tipo de culinária. Nem fritar um ovo sem estourar a gema eu sei. Seja como for, em geral não entendo absolutamente nada dos assuntos sobre os quais escrevo, embora, ao me apresentar para cada trabalho, garanta ter “larga experiência” no setor. É o que quase sempre um franco-atirador de palavras faz. Mero instinto de sobrevivência! Com os olhos fixos na tela do monitor, estava pronto para dar continuidade ao texto sobre culinária nórdica, mas minhas mãos, de repente, pareceram perder totalmente a força para se movimentar sobre o teclado. Fiquei ali, olhando para a tela em branco, até que percebi algo se movimentando rapidamente na parede à minha esquerda. Desviei os olhos e vi uma grande lagartixa olhando pra mim. Há muito tempo não via lagartixas. Tinha grande “intimidade” com elas aos cinco ou seis anos de idade, isto é, passava horas observando-as, à noite, enquanto apareciam e desapareciam por entre as frestas das telhas de um galpão aberto no quintal da minha casa. Nunca cheguei a tocar em nenhuma delas, mas, ao contrário de outras crianças e também da grande maioria dos adultos, elas nunca me despertaram medo ou nojo. Sempre achei as lagartixas simpáticas, e agora ali estava uma delas, lagartixa3.jpgparecendo olhar fixamente para meus olhos. Hoje, quando olhava para uma lagartixa, ela sempre me parecia a miniatura de um animal pré-histórico e essa lembrança me fazia cair em profundas reflexões sobre a idade do mundo; de como o planeta era velho, se comparado com a brevidade de nossas vidas, mas ao mesmo tempo novo, se comparado à criação do universo. Tudo isso colocava nossa existência humana numa perspectiva pouco animadora, por um lado, mas bastante interessante, por outro, já que, se éramos tão insignificantes assim, as coisas que considerávamos importantes, principalmente aquelas de que não gostávamos, não tinham importância alguma e, portanto, podiam ser mandadas para o fundo do inferno, como, por exemplo, essa porra de culinária nórdica que só servia pra um bando de idiotas ricos matar o tédio e ter onde gastar dinheiro com suas esposas feias e frígidas nas noites de sábado e… la.jpg Por sorte, essas profundas reflexões provocadas pelas lagartixas terminavam assim que elas, as lagartixas, repentinamente, desapareciam em alguma nova fresta. Foi exatamente o que acabara de acontecer. A lagartixa que flertava comigo se enfiou rapidamente numa das pequenas aberturas existentes entre a parede e o começo do telhado de zinco que cobria o pequeno quarto no qual eu trabalhava. Não tinha outra alternativa, senão voltar para a minha culinária nórdica, que me parecia mais suportável quando a chamava de “viking”. Por nada não…mas não acredito que os vikings se importassem com todas essas frescuras na hora de comer. Em todo o caso, como dizia o João, “nós só estamos nisso por dinheiro”. Então, os vikings que se sentirem incomodados que se levantem das tumbas e venham se vingar das histórias estúpidas que inventaram sobre eles. De qualquer forma, os vikings não poderão mesmo se levantar de suas tumbas porque, ao que consta, eles não eram enterrados, mas queimados em seus barcos ou em uma espécie de jangada construída especialmente para esse fim. De qualquer forma, a frase “nós só estamos nisso por dinheiro” não era nem do João, mas do Frank Zappa, embora o João tivesse se apropriado dela e nunca fizesse menção ao autor original. O engraçado é que o João odiava as músicas do Frank Zappa. A única coisa que ele gostava dele era da tal frase, que, na verdade, parece que era o nome de um disco que satirizava os artistas de rock que começavam a se levar muito a sério, pensando que estavam fazendo arte de vanguarda ou contribuindo para salvar o mundo. Mas isso foi há muito tempo, e eu também não via o João há muito tempo.

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Pensando bem, a história de João também daria um bom livro. João tinha se transformado naquilo que as pessoas se acostumaram a chamar de “crítico de rock”. É lógico que, no caso dele, tudo aconteceu por acaso. João, na verdade, era apenas um jornalista em início de carreira, o que, aliás, também aconteceu por mero acaso, mas isso é outra história que, seu eu tiver saco, conto um pouco mais à frente. Pensando bem, vou ter que entrar um pouco no assunto agora mesmo, porque o fato de João ter virado “crítico de rock” está intimamente ligado às suas dificuldades de se adaptar à profissão que, como eu disse, acabou exercendo por acaso. Ele já trabalhava em um jornal há cerca de três anos, mas suava frio toda a vez que precisava datilografar qualquer coisa na máquina de escrever (os computadores só apareceriam tempos depois). Seu problema não era propriamente com escrever o texto, mas com as malditas teclas da máquina, que insistiam em não se adaptar ao ritmo de seus dedos nervosos e desajeitados. Por sorte, seu período inicial de trabalho foi como revisor e copydesk, duas funções pré-históricas hoje extintas, mas que, naquele jornal, podiam ser desempenhadas quase sempre “à mão”, isto é, sem a necessidade daquele combate insano e quase sempre inglório entre os dedos nervosos e desajeitados de João e as teclas da máquina de escrever. Só que alguns colegas de redação viviam insistindo para que João escrevesse “alguma coisa” para ser publicada no jornal. Ele não sabia direito de onde haviam tirado a idéia de que ele tinha um bom texto, já que não se lembrava de nenhuma ocasião em que aquelas pessoas houvessem lido qualquer das “coisas” que ele escrevia e não mostrava pra quase ninguém. De qualquer forma, aquela insistência toda para que publicasse algo começou a se tornar meio perigosa. João temia que a sua resistência a escrever acabasse, de alguma maneira, sendo relacionada com sua incompatibilidade congênita com as teclas das máquinas de datilografia, e isso seria o mesmo que ser flagrado se masturbando. ffff.jpg Passou então a dizer que não escrevia porque não tinha idéia sobre o que escrever. E a resposta das pessoas, invariavelmente, era: “Escreve sobre qualquer coisa”. Contra a parede, passou a admitir que teria que colocar qualquer merda no papel pra que o deixassem em paz. Mas exatamente o quê? Não havia nada que quisesse realmente dizer e não entedia o suficiente sobre qualquer assunto para escrever a respeito, ainda mais para ser publicado num jornal. Bem, mas teria que resolver aquilo. Trancou-se uma noite em seu quarto, pegou um caderno e ficou esperando que algo acontecesse. Acabou adormecendo. Acordou com o caderno em cima da cara. Levantou assustado e, ao olhar para o caderno, percebeu que havia algumas linhas escritas na folha. Era algo sobre a influência da música, mais precisamente do rock and roll, na cultura contemporânea. Não lembrava de ter escrito aquilo, muito menos sabia de onde havia tirado aquela idéia, pois nunca tal coisa havia lhe passado pela cabeça. De qualquer forma, aqueles dois parágrafos pareciam fazer algum sentido. Resolveu por isso levar o negócio adiante. Pelo menos era um começo. Nos dias que se seguiram, João tentou dar seqüência àquilo, mas não conseguia começar o terceiro parágrafo. Tentou até mesmo usar a “técnica” de dormir com o caderno em cima da cara, mas não funcionou. Por sorte, não mencionou a ninguém que tinha começado a escrever a tal coisa, mesmo assim ficava arrepiado quando alguém, por acaso, voltava àquele assunto de que ele precisava escrever uma porra qualquer pra botar no jornal. Às vezes, corrigindo, à mão, é lógico, os textos de seus colegas de redação, se pegava remoendo aqueles dois parágrafos. O que se seguiu depois não tinha qualquer explicação lógica.. Estava ele lá, na redação, no final de uma noite de quinta-feira, tentando fixar a atenção num texto que o repórter policial acabara de lhe entregar, ao mesmo tempo em que o “mantra dos dois parágrafos” se repetia em sua cabeça, quando, de repente, uma frase surgiu no nada e, na seqüência, outra e mais outra e mais outra. Largou a matéria policial, pegou uma folha de papel e foi registrando aquelas frases que brotavam não sabia de onde em sua cabeça. Ao final, estava diante do terceiro parágrafo do que estava se transformando no seu artigo sobre “a influência da música, mais precisamente do rock and roll, na cultura contemporânea”.

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Não sei exatamente como os outros 73 parágrafos surgiram, porque João não me contou detalhes sobre isso, mas sei que cada um deles teve uma história peculiar e, como João me garantiu, dolorida. Não tão dolorida, é lógico, quanto datilografar toda aquela coisa em longos e sucessivos combates entre seus dedos nervosos e as teclas da máquina de escrever de seu quarto – sim, porque não se atreveu a fazer aquilo na redação. Afinal não queria ser flagrado se masturbando em público. Levou mais ou menos uma semana pra ter coragem de entregar o tal artigo para o editor do jornal, que, como estava no horário de fechamento da edição do dia seguinte, disse a João que leria o texto depois. Aquele “depois” podia significar amanhã ou sabe se lá quando. De qualquer forma, João não tinha pressa. Na verdade, não havia qualquer ansiedade da parte dele a respeito de um veredicto sobre o que havia escrito. Só queria mesmo que as pessoas deixassem de pressioná-lo. Assim ele podia voltar sossegado pra sua mesa, pegar a caneta e ficar lá, corrigindo os textos que chegassem às suas mãos. Mas no dia seguinte, logo que entrou na redação, o editor o chamou. “Este troço está bom”, disse ele, segurando o artigo de João na mão. “Vamos publicar na página de variedades”, completou. rosto.jpg

Alguns dias se passaram e, numa terça-feira pela manhã, ao pegar o jornal numa banca perto de sua casa, João deparou-se com seu artigo impresso na página 32. Enquanto tomava café na padaria, leu repetidamente o texto. Às vezes parecia não ter sido ele que escrevera aquilo. Às vezes se perguntava se aquela seqüência de parágrafos fazia mesmo algum sentido.

Na tarde daquela terça-feira, João deu várias voltas no quarteirão onde ficava o jornal até finalmente ter coragem de entrar e subir para a redação. Foi direto para sua mesa e começou a revisar a primeira matéria do dia. Um assunto interessante: as pessoas que moravam nos cortiços do centro da cidade. Só que o repórter parecia ter se impressionado tanto com a merda em que aquela gente vivia que acabou fazendo uma espécie de manifesto, contra tudo e contra todos. João se sentia até solidário com os sentimentos do repórter, mas não podia deixar aquilo daquele jeito. Se deixasse passar, ia sobrar não só para ele, mas também para o repórter. Isso o colocava na incômoda situação de ter que reescrever o texto e, portanto, usar a ameaçadora máquina de escrever que estava ao seu lado.

Quando, conformado, já se levantava pra enfrentar mais um combate insano com as teclas que insistiam em não se adaptar aos seus dedos nervosos, o repórter que cobria o setor de política no jornal se aproximou e disse: “Gostei do artigo. O que mais me impressionou foi a fluência do teu texto. Você escreve fácil, né?” João limitou-se a agradecer com um tímido “obrigado”, ignorando a pergunta sobre a sua presumível “facilidade” para escrever. Se o sujeito que o elogiou soubesse o verdadeiro parto a fórceps que trouxe à luz aqueles 76 parágrafos impressos… Enquanto João se atracava com a máquina de escrever, alguns outros colegas de redação vieram fazer comentários favoráveis sobre o artigo. A última palavra do dia coube ao editor: “Então, parece que o pessoal gostou. Você poderia manter uma coluna semanal. Que tal?” João não respondeu. Deu apenas um sorriso amarelo e foi embora. “Puta merda!”, era o único pensamento que lhe vinha à cabeça enquanto caminhava para casa.

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Capítulo IV

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Como ia dizendo, há muito tempo não tinha notícias do João. Aliás, há muito tempo não tinha notícias de muita gente. E, afinal, pra que ter notícias de pessoas que já não devem ser as mesmas pessoas de quando convivemos com elas? Levantei do computador e saí para o quintal. Aquele último pensamento me deu falta de ar. Era como se, de repente, eu fosse um astronauta que, durante uma breve exploração fora da nave, tivesse meu cabo de sustentação cortado, vendo-se diante da escuridão infinita do espaço, sem nenhuma chance de retornar ao planeta Terra. Uma imagem até bonita, mas assustadora, eu pensei, enquanto voltava para o pequeno quartinho onde fragmentos dispersos da culinária viking me aguardavam na tela do computador. Na verdade, eu mesmo, talvez mais do que qualquer daquelas pessoas às quais estou me referindo, tivesse me transformado em alguém muito diferente. Na maior parte do tempo, me sentia como aquele astronauta. Só que, por um inexplicável acaso cósmico, havia retornado à Terra, pelo menos aparentemente.

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A voz vinha de muito, muito longe. Depois as vibrações, que logo se transformaram em solavancos. Finalmente, acordei. Vi quatro homens sentados ao redor da mesa e um de pé, bem ao meu lado, inclinado sobre meu ombro e sussurrando. “É agora, é agora”, o homem de pé parecia dizer para mim. “O que é agora?”, perguntei, mas o homem de pé não respondeu e continuava a sussurrar no meu ouvido. Por fim, consegui ouvir claramente. “Dá o fora, dá o fora”, ele dizia. Então era isso, ele queria que eu desse o fora. Levantei, pedi licença aos quatro homens sentados ao redor da mesa e saí da sala acompanhado por Antônio. “Cara, que absurdo! Você pegou no sono na frente de todo mundo”, afirmou Antônio, num tom de voz bem acima do sussurro anterior. “Como peguei no sono? Eu estava anotando o que os sujeitos estavam dizendo”, retruquei. “O caralho! Você apagou. Olha, vamos combinar uma coisa. Você não entra mais nessa sala daqui para a frente. Só se eu estiver com você”, sentenciou Antônio, virando as costas e desaparecendo no corredor. Caramba, será que eu tinha dormido mesmo? Se fosse assim, a coisa era mesmo meio complicada. Afinal as pessoas não estão acostumadas a presenciar um assessor de imprensa do prefeito pegar no sono, enquanto estão expondo seus planos para implantar uma fábrica no distrito industrial da cidade. O engraçado é que eu me lembro de estar até achando interessante o projeto que os empresários estavam mostrando, porque eles garantiam que a indústria era não-poluente e geraria cerca de 400 empregos diretos. Só não me recordo de ter apagado. Estranhas essas coisas, né, pensava comigo mesmo, enquanto aspirava uma carreira de cocaína estendida sobre a tábua da privada do banheiro que ficava bem ao lado do gabinete do prefeito, de onde Antônio tinha gentilmente me retirado há pouco. Passaram-se alguns dias e Antônio me chamou na mesa dele. “Olha, vamos fazer o seguinte. Você vai ser transferido, porque ficar aqui não dá mais pé. É muito perto do prefeito e você anda fazendo merda atrás de merda”, afirmou Antônio. “Como assim? Só porque adormeci naquele dia. Poderia acontecer com qualquer um”, argumentei. “Mas não poderia acontecer com qualquer um, por exemplo, você ter tropeçado nas próprias pernas, descendo as escadarias da prefeitura, e ir bater no carro do prefeito, que estava chegando. Por sorte, era de noite é só algumas pessoas viram”. Quando Antônio mencionou o episódio, uma vaga lembrança da cena me veio à cabeça, o que podia significar que aquilo que ele estava falando tivesse realmente acontecido. Então, fiquei calado. “Bom, a coisa já está decidida. Você vai pra outro lugar. Vê se lá você segura as pontas. Caso contrário, a coisa vai ficar meio sem saída”, finalizou Antônio. Sinceramente, achei tudo aquilo uma injustiça. Eu me considerava uma peça importante no serviço de comunicação, estrategicamente ligado ao gabinete do prefeito. Não via por que alguns pequenos deslizes justificariam meu afastamento para outro setor. Ainda voltei a argumentar, fiz uma insólita cena de protesto às portas da prefeitura – o que, aliás, agravou bastante a minha situação -, mas não tive como recusar a “oferta”. Um belo dia, estava eu lá, chegando para assumir minhas novas funções no exílio. Fui deslocado para trabalhar no Mercado Municipal, ficando responsável pela divulgaçãonoturn3a.jpg de todas as ações do setor de abastecimento na cidade. Incentivado pelas pessoas da repartição, que pareciam encarar os contratempos junto ao gabinete do prefeito como um simples “acidente de percurso”, passei a produzir bastante. Em pouco tempo, a seção de abastecimento era uma das mais agitadas da assessoria de imprensa oficial. O ambiente em torno do Mercado também era, digamos, acolhedor: havia botequins dos mais variados tipos e formatos. Foi num deles, inclusive, que me vi envolvido em outro lamentável “acidente de percurso”. Desci de um táxi e já ia me dirigir à repartição, mas antes resolvi telefonar de um orelhão, pra explicar ao Antônio por que não tinha aparecido no escritório central na tarde anterior. “Pois é, tive um contratempo e não deu pra ir”, disse eu. “A gente já está acostumado”, respondeu Antônio, num tom que me parecia oscilar entre a ironia e a ira. De repente, senti alguém puxando minha bolsa pendurada no meu ombro esquerdo. Vi dois garotos, dos seus 9 e 10 anos, que ficaram assustados quando comecei a gritar e saíram correndo. Entrei no bar em frente ao orelhão e comecei a reclamar, aos gritos, que tinha quase sido assaltado e que ninguém tinha feito nada, embora várias pessoas certamente tivessem visto quando os dois moleques se aproximaram de mim para tentar roubar a minha bolsa. Como ninguém parecia interessado no meu problema, continuei gritando e encarando as pessoas, até que um sujeito, de óculos escuros, do nada, me meu um soco na cara. O soco pegou nos meus óculos escuros, que estavam em cima da minha cara e se partiram com o impacto. Saí meio atordoado do bar e me sentei no meio fio. Senti uma coisa quente escorrendo pelo meu rosto e percebi que estava sangrando. O sangue jorrava direto da minha testa (os óculos, ao se quebrarem, tinham cortado meu supercílio, descobri depois) e respingava na minha camisa. Fiquei ali não sei quanto tempo, tentando entender o que acontecera. Quando finalmente compreendi que simplesmente tinha levado uma porrada na cara, percebi também que estava muito atrasado. Então me levantei e fui direto para a repartição.

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Todo mundo ficou assustado com aquela figura de filme de terror adentrando na sala, sangue escorrendo pelo rosto e camisa toda manchada de vermelho. Muito compreensivo, o pessoal da repartição encarou o ocorrido como “mais um acidente de percurso”. Eles me aconselharam, assim que retornei do pronto-socorro com vários pontos na testa, a não freqüentar os bares afastados, pois eram muito barra pesada. “Fique pelas proximidades”, sugeriu o chefe do setor. Foi o que fiz, pelos próximos meses. Até mesmo o sujeito de quem comprava cocaína vinha me trazer as encomendas no botequim bem frente à repartição, do outro lado da rua. E as coisas foram indo até que chegaram minhas férias. No dia em que voltei, encontrei todas as salas da repartição vazias. Perguntei o que tinha acontecido e um dos funcionários da manutenção, que ainda estava por ali, me respondeu com outra pergunta: “Não acredito que você não sabe?”. “Não sabe de quê?”, respondi com mais uma pergunta. “A repartição fechou há 15 dias. Não tem mais, não existe mais”. “E o pessoal que trabalhava aqui, pra onde foi?”, perguntei. “Não faço idéia”, respondeu o funcionário do escritório fantasma. Obviamente liguei para o Antônio. “Pelo menos podiam ter me avisado”, reclamei. “Escuta, todo mundo que trabalhava aí sabia que esse negócio ia fechar há mais ou menos uns três meses. Acho que só você não sabia, o que, aliás, já era de se esperar”, respondeu ele. “E pra onde eu vou? Pra aí”, perguntei. “Não, não, pelo amor de Deus, aqui não. Olha, vamos fazer o seguinte. Volta pra casa e fica lá esperando. Quando a gente decidir pra onde vai te mandar, a gente te avisa.” Desliguei o telefone com a impressão de que tinha, mais uma vez, arrumado um problema para o Antônio, e o problema era onde me exilar agora.

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Capítulo V

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A lagartixa voltou a aparecer entre as frestas do teto. Seria a mesma que havia flertado comigo antes? Poderia muito bem ser outra, embora fosse de tamanho idêntico à anterior. Finalmente cheguei à conclusão de que seria muita coincidência duas lagartixas tão parecidas estarem circulando por ali em tão curto espaço de tempo, ainda mais porque a lagartixa parou e ficou me encarando, como havia acontecido antes. Passava das 3 da manhã, o silêncio era total e estávamos ali os dois, eu e a lagartixa, nos encarando no meio da madrugada. Tive um impulso de começar a escrever um diálogo entre eu e a lagartixa, mas depois achei pura insanidade. De qualquer forma, queria terminar logo aquela merda daquele texto da porra da culinária viking, pois odiaria ver o dia nascendo e eu ainda com aquela bosta nas mãos. Só que não conseguia tirar os olhos da lagartixa, que parecia também não conseguir tirar os olhos de mim.

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– Por que você está me encarando? – Porque você está me encarando! – Você começou a me encarar primeiro. – Quem disse? – Eu percebi. – Pois eu percebi exatamente o contrário.

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– Percebeu errado.

– Vocês, humanos, são arrogantes demais. – Por quê? – Porque acham que a maneira como vêem o mundo é a única maneira de ver o mundo, e pior, a maneira certa! – Não é bem assim…

– Se não é bem assim, por que você tem certeza de que fui eu que comecei a encarar você, e não o contrário?

– Ora, porque eu percebi… – Olha só! Pura arrogância. – É absurdo! – O que é absurdo?

– Eu estar aqui, a essa hora da madrugada, discutindo com uma lagartixa parada na parede.

– Qual é problema de discutir uma lagartixa? Vivemos no mesmo planeta. – E daí? – Daí que, nós, lagartixas, estamos aqui há muito mais tempo do que vocês. – Aqui aonde? – No planeta. Vocês chegaram muito depois e agora acham que sabem mais sobre a vida do que nós.

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– Ah, pelo amor de Deus! – Pronto, agora vem você com essa história de Deus. Vocês são tão arrogantes que inventaram um Deus só de vocês. Inventaram até que Deus tinha essa forma. – Que forma, porra? – A porra da forma humana! – Não é bem assim… – É a segunda vez que você fala isso! – Isso o quê? – Não é bem assim, não é bem assim! Isso é falta de argumento. – Você não passa de um projeto de réptil rastejante e nojento que não deu certo. – Bom, se você vai apelar…Seguinte: posso ser um projeto de réptil nojento, mas não estou transformando o planeta num monte de merda fedida! – Dá o fora! – Dá o fora você! Eu estava aqui há mais tempo! O livro sobre culinária viking, com os textos originais que eu estava resumindo para o fascículo, estatelou-se contra a parede, a poucos milímetros da lagartixa, que sumiu rapidamente entre as frestas do telhado.

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Merda! Lá fora o dia já estava amanhecendo. Também amanhecia quando João, naquele dia, deixava o hotel onde tinha passado a noite a pretexto de entrevistar o vocalista e compositor daquela banda de rock nacional que começava a vender muitos discos e iria fazer um show na cidade, na noite seguinte. Seus olhos doíam, quando pôs os pés na rua banhada pelos primeiros raios de sol da manhã. No caminho para casa, percebeu que tinha se esquecido de fazer justamente o que fora fazer naquele hotel, isto é, a droga da entrevista. Também, com tanto uísque e tanta maconha rolando, quem é que ia se lembrar de fazer entrevista? Mas o que mais preocupava João, naquele momento, não era esse detalhe, já que poderia tentar falar com o vocalista de novo antes ou depois do show marcado para aquela noite. A questão mesmo é que havia dado uma mancada com o sujeito e com o produtor da banda dele. Na verdade, não havia sido bem ele o autor da mancada, mas tinha, pelo menos, sido conivente, porque era óbvio que a cosia não ia dar certo. Logo que João e um amigo chegaram ao apartamento do hotel, o vocalista e o produtor da banda perguntaram se alguém sabia onde arrumar um pouco de “poeira”, isto é, cocaína. João não fazia a mínima idéia, mas seu amigo logo se prontificou a resolver a “parada”. O vocalista perguntou quanto dinheiro seria necessário para arrumar cinco ou 10 gramas, mas o amigo do João disse: “Não, deixa aí. Eu pego e na volta você paga”. Logo em seguida, saiu em busca de seus “contatos”. João, o vocalista e o produtor da banda ficaram lá, enchendo a cara, fumando e esperando a “poeira” chegar. João foi se sentindo cada vez mais desconfortável. Primeiro porque seu amigo parecia simplesmente ter sumido; depois porque não agüentava mais ouvir as “novas composições” que o vocalista insistia em lhe mostrar, uma após a outra. Ele até gostava das músicas do sujeito, mas, depois de tanto uísque e de tanta maconha, João se sentia tão embaçado que até ele começou a torcer para que o amigo, por milagre, ainda aparecesse trazendo algum aditivo.

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Só que o amigo não apareceu e o dia amanheceu. O vocalista e o produtor da banda foram até gentis, poupando João de maiores comentários sobre o furo que o amigo havia dado. Bem, pensou João, pelo menos seu amigo não tinha levado a grana dos dois embora. A situação, porém, foi sem dúvida constrangedora. A falta de, digamos, maior “profissionalismo” do João na cobertura de shows de rock, que na época aconteciam com freqüência na cidade, já tinha criado muitas situações constrangedoras para ele. A questão é que, há tempos, João já não tinha mais saco para escrever sobre rock ou sobre qualquer outra coisa. Em vez de escrever e falar a respeito, ele queria fazer rock and roll. Só que não havia avisado seus chefes no jornal nem seus entrevistados famosos sobre essa sua súbita e histórica decisão. Na verdade, depois da terceira ou quarta pergunta, João sentia-se íntimo das celebridades e passava, então, a falar de sua própria vida. Não raro, dava longas “entrevistas” para cantores, guitarristas e outros membros daquelas bandas famosas. E, privando de toda essa intimidade, é claro que João também bebia, cheirava e fumava tudo o que era disponibilizado nos camarins e quartos de hotel. O único probleminha é que ele sempre bebia, cheirava e fumava bem mais do que os outros, saía do ar e só acordava quando todo mundo já tinha ido embora. Aí, com o dia amanhecendo, iniciava o penoso e longo caminho de volta para casa, já antecipando a dificuldade que teria para escrever a “crítica” sobre o show da última banda que havia passado pela cidade. Saí novamente para o quintal. O dia ia ser de sol e talvez a lagartixa tivesse toda a razão. Estávamos transformando o planeta numa montanha de merda fedida. Acho que João concordaria com ela e, provavelmente, lhe daria uma longa entrevista sobre sua experiência como “crítico de rock”. Eu, de minha parte, só queria dormir. Os vikings que esperassem até mais tarde, ou partissem em seus navios para as terras onde um dia devem ter sido felizes.

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Capítulo VI

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No final daquela tarde, quando retornei ao quartinho dos fundos da casa, para terminar o maldito texto sobre culinária viking, dei de cara com um e-mail do Antônio em minha caixa postal. “O negócio tá aí, anexado. É uma espécie de introdução, mas acho que ficou uma merda”, dizia o texto do e-mail. Antônio era uma das únicas pessoas com as quais eu ainda mantinha contato. Estava tentando convencê-lo a escrever um livro contando a história do tempo em que usávamos cabelos compridos e achávamos que havia uma revolução em marcha, uma revolução de começava em São Francisco, passava por Paris e Londres e desaguava na Bahia. “Vai à merda! Não vou pagar esse mico. Pra começar, não sou sociólogo nem historiador”, foi sua primeira reação à minha sugestão.

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Expliquei, sempre através de e-mails, que não estava pensando num tratado sociológico. Não tinha em mente nem mesmo qualquer coisa autobiográfica. Só queria que Antônio retratasse os personagens que circularam em torno de uma praça onde sempre nos reuníamos naquela época. A descrição desses perfis e de alguns episódios em que essas figuras se envolveram valiam mais do que mil análises sociológicas, históricas ou políticas. E achava que o Antônio era a pessoa ideal para levar isso adiante. Tinha um ótimo texto, mas tinha também a capacidade de contar casos, às vezes até trágicos, de uma maneira bem-humorada, talento que eu não possuía e invejava. O “negócio anexado” a que Antônio se referia no e-mail era a introdução que eu pedira, já que ele só concordou em tentar escrever depois que me ofereci para fazer a edição final dos textos. Agora, porém, não tinha tempo para ler a introdução que Antônio me mandara. Precisava me livrar dos vikings de uma vez por todas. – Por que você mesmo não escreve? – Não escreve o quê? – Esse negócio que você quer que seu amigo escreva. – Não tenho a manha.

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– Quem escreve essa bosta sobre culinária viking consegue escrever sobre qualquer coisa. – Não é bem assim. – Lá vem você com essa história de “não é bem assim”…parece aquele teu amigo que escrevia sobre rock. – Quem, o João? – É, o João. Só quando se sentiu contra a parede é que ele destravou. – É que ele tinha muito medo de ser rejeitado. – Coisa de fresquinho, de filhinho da mamãe! – Por que você está falando desse jeito? Você nem conheceu o João. Aliás, como é que você sabe de todas essas coisas que eu andei escrevendo se eu não mostrei pra ninguém? – Eu andei dando uma olhada por cima, enquanto você escrevia no computador. – Como assim? – Eu estava bem atrás de você. Na parede, perto da estante, dá pra ver a tela do computador direitinho. – Só me faltava essa. Ser espionado por uma lagartixa voyeur. – Não se preocupe. Meu voyeurismo restringe-se à área literária. _ Você deve estar brincando. Ou melhor, eu é que devo estar totalmente maluco, conversando com uma lagartixa. – Problema seu. De minha parte não tenho qualquer problema em estar conversando com um ser humano. Mas, voltando ao assunto, por que você mesmo não escreve a história lá daquela praça, do tempo em que vocês usavam cabelo comprido e tal?

– Já disse que não sou a pessoa indicada. casebre.jpg

– Exatamente, por quê? – Eu nem circulava muito por lá. Quer dizer, circular, circulava, mas acho que não prestava muita atenção nas pessoas, nas coisas. Não me lembro de quase nada. – E por que o Antônio lembra? – Sei lá. Vai ver ele prestava mais atenção em tudo. Vai ver ele está menos seqüelado e a memória dele funciona melhor… – Será que não é preguiça, ou medo de lembrar daquele período de seu passado? – Além de voyeur literário você também é psicanalista? – Não, sou apenas uma lagartixa. Na verdade, nunca achei as histórias daquela época tão interessantes assim, a não ser recentemente, quando Antônio contou algumas delas, por acaso, em e-mails trocados entre alguns amigos daquele tempo que não se viam há muitos anos. Do jeito que ele as conta, puxa, aquilo fica realmente divertido. E tenho certeza de que muita gente também se divertiria de conhecer aqueles casos e aquelas personagens. No final, toda aquela época, todas aquelas pessoas que freqüentaram aquela praça, tudo aquilo fazia parte de uma cena, de uma peça de teatro, de um filme real que o Antônio tinha a capacidade de transformar em palavras escritas. Aí vem uma lagartixa estúpida e fica falando merda no meu ouvido! Virei para trás, virei para a esquerda e para a direita. Esquadrinhei as paredes de lado a lado, do teto ao chão. Se ela continuava a me observar, dessa vez tinha se escondido bem.

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Capítulo VII

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Demorou algum tempo para eu perceber que eles estavam falando sobre crack. Na minha época não era bem assim. Ninguém saía por aí comprando pedras nas esquinas. A gente preparava em casa, no fogão da cozinha e chamava aquela coisa de free-base. De qualquer forma, parece que, desde que eu deixara de consumir a coisa – o que já fazia alguns anos -, o número de seus admiradores havia aumentando muito, enquanto a média de idade dos usuários tinha diminuído em proporção inversa. Entrando na casa dos 40, eu era um estranho no ninho entre os ocupantes daquele quarto. A sensação do isolamento aumentava ainda mais pelo fato de um estar ali por causa do álcool, o que me colocava na posição de paciente de segunda categoria perante os “drogados da pesada”, que eram maioria na clínica. Nos primeiros dias, tive vontade de explicar para aqueles garotos que eu também havia sido “da pesada”, já tinha botado pra dentro da boca e dos pulmões enormes quantidades de uma grande variedade de substâncias, algumas delas certamente até desconhecidas por eles. skyline.jpg Acabei desistindo. Estava, na verdade, muito debilitado para travar qualquer tipo de disputa por território. Resolvi simplesmente tentar demonstrar para os garotos que eu era um “pinguço legal”, o que acabei, sem muito esforço, conseguindo. Ali também aprendi outra palavra nova: “drogadito”, como eram chamados os pacientes que não eram “pinguços”. Sempre achei aquilo meio “argentino”. Em todo o caso, a coisa era dividida assim: drogaditos X pinguços, estes sempre mais velhos. O “alcoólatra drogado”, espécime que logo depois infestaria as clínicas e salas de recuperação do país, ainda era uma figura rara e pouco compreendida, o que aumentava muito a minha sensação de estranheza naquele ninho. “Quanta irresponsabilidade”, foi o veredicto do psiquiatra, depois que eu enumerei todas as substâncias que eu havia ingerido, antes de me fixar, finalmente, no álcool. Havia viajado quilômetros e quilômetros para alguém me dizer que eu era irresponsável, coisa que eu já estava farto de saber, embora pressentisse que aquilo nada tinha a ver com responsabilidade ou irresponsabilidade. De qualquer forma, tive de concordar com o sujeito, até porque queria que ele aumentasse as doses da minha medicação, pois me sentia à beira de um colapso total, ou pelo menos era o que me parecia. Como fui bonzinho e aceitei o rótulo de irresponsável sem retrucar, o psiquiatra de receitou mais remédios. Não adiantou muito, já que meu mal-estar geral e minha depressão continuaram no limite do insuportável. De qualquer forma, tudo se encaixou um pouco melhor quando sofri uma queda, fraturei o joelho direito e passei o resto da internação estirado na cama.

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Capítulo VIII

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Com três dias de atraso, tinha finalmente terminado o texto sobre a culinária viking, quer dizer, nórdica. Não conseguia entender por que havia me enrolado tanto para fazer aquele trabalho, relativamente simples se comparado a tantos outros realizados antes. – Talvez esteja na hora de você mudar de vida. – Supondo que eu não tenha surtado de novo e esteja realmente conversando com uma lagartixa grudada na parede, o que você quer dizer com “mudar de vida”? – Às vezes acho que vocês humanos têm algum tipo de disfunção cerebral. – Por que você diz isso? – Porque vocês têm a mania de fazerem perguntas idiotas sobre coisas óbvias. – Continuo não entendendo. la.jpg – Esquece. – Bom, você vai responder ou não? – Responder o quê? – O que você quis dizer com “mudar de vida”? – O que pode significar mudar de vida além de mudar de vida? – Sei lá. Você é que disse que eu precisava mudar de vida. – Eu não disse que você precisava mudar de vida. Eu disse que talvez você precisasse mudar de vida. – Certo, e o que você quis dizer com isso?

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– Porra, eu quis dizer exatamente isso, que talvez você precise mudar de vida. – E por quê? – Porque você está tendo cada vez mais dificuldade para escrever esses textos idiotas que você escreve. Isso é sinal de que você precisa fazer outra coisa. – E que tipo de coisa você sugere? – Por exemplo, aquelas coisas que você quer que o seu amigo escreva.

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– Lá vem você de novo com essa história. Já te expliquei por que não dá pra escrever sobre aquilo. Além disso, eu preciso sobreviver. São esses textos idiotas, como você os chama, que impedem que eu morra de fome. – Tá bom! Então continua nessa, até você travar de vez ou ter um enfarte, um derrame, sei lá. – Ora, vá pro inferno! Volte para o buraco escuro de onde você saiu. Surpreendentemente, a lagartixa não retrucou e desapareceu entre as frestas do telhado. Era humilhante admitir, mas ela – a lagartixa – tinha razão. Eu precisava desesperadamente encontrar uma janela pela qual eu pudesse escapar e voltar a respirar, caso contrário acabaria me sufocando em meu próprio vômito. Como a única janela do quartinho onde trabalhava estava com o trinco quebrado e não podia ser aberta, resolvi sair pela porta mesmo e fui tomar um pouco de ar no quintal, embora lá fora continuasse com a sensação de que a maldita lagartixa ainda estava me observando.

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Capítulo IX

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Estava mais uma vez com a cara na parede. Misturar histórias de pessoas conhecidas com minhas próprias histórias e conversar com uma lagartixa que passeava pelas paredes não estava levando a lugar nenhum. Novamente eu me via diante da nada animadora perspectiva de ter de continuar fazendo textos finais para fascículos imbecis sobre assuntos ainda mais imbecis para sobreviver pelo resto da minha vida imbecil. Nunca conseguiria escrever um livro, pelo menos um livro que interessasse a alguém fora do pequeno círculo das pessoas próximas e, por isso mesmo, quem sabe complacentes o bastante para lerem o que eu escrevera. mao-2.jpg Por que não conseguia simplesmente inventar uma história, definir suas personagens e seguir em frente? O percurso com as palavras, até aquele ponto da minha vida, havia de certa forma demonstrado que eu tinha alguma habilidade para fazer isso. O problema é que, ao contrário de quando era criança e preferia ficar deitado, imaginando histórias, agora eu preferia ficar me imaginando escrevendo um livro. Dá pra entender? – Dá. – Então me explica. – É a velha história do seu incontrolável hedonismo. – Continuo não entendendo. – Quando você era um garoto, ficar deitado, imaginando histórias, te dava muito mais prazer do que escrevê-las, já que isso envolveria todo um trabalho nada prazeiroso. Depois vieram as drogas, que te davam mais prazer do que viver a vida na real, porque isso também envolveria todo um trabalho nada prazeroso, aliás, envolveria também muita dor, não é mesmo? Isso agora, de certa forma, é passado, mas seu hedonismo e sua incapacidade pra lidar com a dor continuam aí, mais do que presentes. Hoje é muito mais prazeroso se imaginar escrevendo um livro e idealizando todas as coisas boas que daí poderiam resultar do que sentar a bunda e fazer a coisa na realidade, o que envolveria… – Já sei, já sei…todo um trabalho, a dor e o diabo-a-quatro!

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– Viu que, quando você faz um mínimo de esforço com esses seus neurônios em agonia, você até que entende as coisas com uma certa facilidade?

– Pode até ser fácil de entender, mas como é que eu escapo dessa? – Ah, você já está pedindo demais. Sou apenas uma lagartixa. Não tenho poderes sobrenaturais. – Quem consegue fazer uma análise tão profunda assim da minha personalidade deveria também ser capaz de apontar uma saída. – Já te disse que sou apenas uma lagartixa. Se sou capaz de fazer essa análise tão profunda, como você afirma, é somente porque te conheço bem. Qualquer um que te conhecesse tão bem seria capaz de descobrir as coisas que eu descobri sobre você.

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– Que história é essa de me conhecer tão bem? Faz uns três ou quatro dias que estamos conversando. – Que estamos conversando, sim, mas vivo nas frestas do telhado deste quarto há muitos anos. Presenciei muitas coisas aqui, e as mais reveladoras, sobre você, aconteceram exatamente quando você estava sozinho. – Não acredito! E por que você demorou tanto tempo pra se manifestar? – Porque você não estava preparado. – Preparado pra quê? – Pra conversar com uma lagartixa. – Você por acaso está sugerindo que eu estou louco? – Por quê? – Por estar conversando com uma lagartixa. – Bom, partindo desse princípio, eu também devo estar louca. – Por quê? – Por estar conversando com um humano.

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Capítulo X

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“Tendência a considerar que o prazer individual e imediato é a finalidade da vida.” Essa era a definição que o dicionário dava para hedonismo. A lagartixa, sem dúvida, tinha uma certa dose de razão sobre o meu hedonismo, e também sobre minha dificuldade em lidar com a realidade. A sua análise sobre minha personalidade, meu caráter – ou seja lá o que fosse – fazia sentido. O que não fazia absolutamente nenhum sentido é eu, nos últimos tempos, andar falando com uma lagartixa e, ainda por cima, levando a sério os seus argumentos. Aliás, uma lagartixa que afirmava ter me observado atentamente durante anos em meu local de trabalho, inclusive e principalmente quando eu estava sozinho, o que, admito, era o que mais me preocupava, já que esses momentos solitários eram certamente os mais reveladores sobre mim mesmo. Mas, afinal, por que eu deveria me preocupar com o que uma lagartixa sabe ou não sabe a meu respeito? Que tipo de uso nefasto ela poderia fazer com esse tipo de informação no restrito universo das frestas do telhado do meu quarto de trabalho? Esses eram os pensamentos que giravam em turbilhão na minha cabeça quando, dois dias depois de meu último bate papo com a lagartixa, voltei ao quartinho dos fundos da casa e sentei no computador para dar início ao meu novo trabalho: a redução e adaptação de um texto final para um misto de folheto e revista sobre um resort especializado em hóspedes de terceira idade. Tratava-se de um trabalho bem mais curto e, portanto, bem mais fácil do que a porra da culinária viking, fato que me animava um pouco, embora o pagamento fosse menor do que o anterior.copia-de-bxk4995_quilombo-e-conservatoria2-025800.jpg De qualquer forma, tinha mais é que me ajoelhar e agradecer por ainda estar conseguindo sobreviver, nem que fosse escrevendo sobre o impulso sexual das lesmas. – Disso você não entende. – Não entendo do quê? – Do impulso sexual das lesmas. – Estou fodido! Além de ter me espionado por anos, ter lido tudo o que tenho escrito neste quartinho, você também pode ler meus pensamentos? – Você pirou, é? Quem disse que eu posso ler seus pensamentos? – As lesmas. – As lesmas disseram que eu posso ler seus pensamentos? – Não é isso. O impulso sexual das lesmas.

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– O que tem o impulso sexual das lesmas? – Você disse que eu não entendia disso. – E não entende mesmo, entende? – Não, não entendo. Mas não é disso que eu estou falando. – Agora quem não está entendendo sou seu. – Como é que você disse que eu não entendia do impulso sexual das lesmas se eu só pensei essa porra? – Você está começando a me assustar. Você está dizendo coisas sem sentido. – Sem sentido porra nenhuma! Eu só pensei nesse negócio de lesmas, foi só dentro da minha cabeça que eu pensei que, pra sobreviver, eu era capaz de escrever até sobre o impulso sexual das lesmas. Foi só dentro da minha cabeça, tá entendendo? Se eu só pensei, como é que você soube o que eu estava pensando? – Eu só falei sobre isso porque esse troço tá escrito aí, na tela do computador. Aliás, em letras bem grandes.s4010008.jpg Olhei para o monitor e estava lá: “O IMPULSO SEXUAL DAS LESMAS”. De alguma forma, sem perceber, tinha digitado aquilo na tela, enquanto pensava a respeito de minhas alternativas de sobrevivência. – Tudo bem, tá escrito aqui. Mas por que você acha que eu não seria capaz de escrever sobre o impulso sexual das lesmas? – Eu não disse que você não seria capaz de escrever sobre isso, disse que você não entendia disso. Você entende? – Não, porra! – Então é isso. Foi só um palpite. Achei que você não entendia nada sobre o impulso sexual das lesmas. Por falar disso, qual o tema de seu novo trabalho? – Um texto sobre um resort para a terceira idade. – Ah, disso você entende, tá vendo? – Aí é que você se engana. Eu não entendo nada de resort. Vou fazer uma condensação a partir do texto original que me deram. – Não estou falando desse negócio de resort. Tô falando da terceira idade. Disso você entende, porque já está entrando nela. Pra escrever sobre isso você não precisa nem de texto original, basta ir colocando sua experiência para fora.

– Ainda faltam alguns anos.

estante.jpg– Pra quê? – Pra eu entrar na terceira idade? – Quantos anos? – Olha, isso não importa. Pra começar, eu não estou escrevendo um texto sobre a terceira idade, mas sobre um resort especial para hóspedes da terceira idade. – Você tem um problema sério com idade, não é? – Ninguém gosta de ficar velho. – Não é bem sobre isso que estamos falando, mas sim da sua incapacidade de aceitar a idade que você tem. É por isso que você anda tão desesperado para escrever um livro. – Quem disse que eu quero escrever um livro? – Ah, desculpe, você realmente não quer escrever um livro. Esqueci que você prefere “imaginar” que está escrevendo um livro.

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Sinceramente não tinha a intenção de atirar aquele vaso contra a parede, até porque aquilo me deu um trabalho danado depois, recolhendo os incontáveis cacos que ficaram espalhados por todo o quarto. Só que foi inevitável. Uma espécie de reação automática, incontrolável. Não suportava mais ouvir aquela maldita lagartixa tagarelando nos meus ouvidos. Infelizmente não consegui acertá-la, mas pelo menos ela sumiu de vista. A questão é que aquele episódio todo me deixou estressado e sem a mínima condição de continuar tentando escrever sobre resort, terceira idade ou o que quer que fosse. Desliguei o computador, apaguei as luzes e fui dormir. Deitado em minha cama, enquanto tentava pegar no sono, a frase de Arthur, o carteiro punk, ficou, não sei por que, acendendo e apagando, como um luminoso, na minha cabeça: “FODA-SE A REPÚBLICA, DANEM-SE OS REIS, MORTES ÀS DITADURAS. TUDO ISSO, DE NOVO E OUTRA VEZ!”

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Capítulo XI

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O nome da banda estava escrito sobre a fórmica escura da mesa da cozinha. As letras foram sendo cheiradas, pouco a pouco, por cada um de nós. Quando a fórmica escura ficou limpa, pegamos os instrumentos, descemos pelo elevador e entramos nos carros estacionados em frente ao prédio, do outro lado da rua. Algumas quadras depois, resolvemos parar numa padaria. Encostamos no balcão e pedimos cervejas e conhaques. Consumimos tudo rapidamente. Voltamos para os carros e seguimos caminho.guitars2.jpg Quando chegamos, o dono do bar reclamou que estávamos atrasados, por isso subimos no palco imediatamente. Foi o tempo de plugarmos os instrumentos e o baterista sentar em sua banqueta. Começamos a tocar a primeira música da seleção que tínhamos conseguido ensaiar, uma única vez, por inteiro, três dias antes. Vomitava as letras com os olhos fixos no outro vocalista, não só para não perder a seqüência das palavras, mas também para evitar encarar alguém na platéia. Como tocávamos rápido – se fôssemos mais devagar tropeçaríamos uns nos outros -, a apresentação acabou depressa, ou pelo menos foi isso que me pareceu. Descemos do palco e, pela reação das pessoas, acho que elas gostaram, ou talvez estivessem apenas em estado de choque, sorrindo e nos dando tapinhas patéticos nas costas.

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De qualquer forma, estávamos com pressa. Fomos direto para a porta de saída e voltamos para os dois carros, que saíram cantando pneus rumo à casa de um dos guitarristas. Dessa vez não teve frescura de ficar escrevendo o nome da banda em cima da mesa. Cheiramos a coisa num prato mesmo. Logo estávamos de volta ao bar, para fazermos o segundo tempo da apresentação. Parece que tocamos mais rápido ainda e, por isso, tudo acabou mais depressa do que da primeira vez. Definitivamente as pessoas agora não estavam em estado de choque, mas bêbadas o suficiente para nos aplaudir entusiasmadamente. Alguns até uivavam, ou pelo menos foi isso que me pareceu. Caímos fora de novo e voltamos à casa do guitarrista. Até hoje me pergunto que diabo era aquilo?

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Capítulo XII

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Às vezes algumas coisas aconteciam. Às vezes, não. Eu tentava explicar isso para meu filho a respeito das músicas que ultimamente vinha compondo com o ex-professor de guitarra dele. Essas músicas eram “coisas” que não estavam acontecendo. Isto é, pouca gente as conhecia e é claro que não geravam nem um centavo para os compositores, isto é, para mim e para o ex-professor de guitarra de meu filho. “Quem sabe um dia”, disse a meu filho, tentando encerrar o assunto, enquanto ele insistia em que devíamos encontrar um jeito de fazer “aquilo dar certo”. O problema é que o tempo estava passando, escorrendo por entre meus dedos, e eu tinha a impressão de que estava desaparecendo. Não havia bom humor que resistisse a isso. Talvez eu precisasse mesmo, como me sugeriu a lagartixa, mudar de trabalho, de cidade, de planeta. Começar alguma outra coisa em algum outro lugar. monitor.jpg Mas começar o quê? E onde? Estava sentado no computador há mais ou menos duas horas, trabalhando no texto sobre o resort para a terceira idade…e nem sinal dela. Volta e meia levantava os olhos da tela e vasculhava as paredes e frestas junto ao telhado. Onde teria se metido? Continuei trabalhando no texto, mas o súbito desaparecimento da lagartixa não me saía da cabeça. De repente, me veio a idéia perturbadora de que talvez eu a tivesse realmente acertado, quanto atirei o vaso contra a parede, em sua direção. Foram tantos cacos voando para todos os lados que eu bem que podia tê-la acertado e nem percebido. Resolvi então verificar se havia alguma marca na parede atingida que indicasse restos mortais de lagartixa. Levei um tempo considerável fazendo uma minuciosa inspeção do trecho da parede onde era possível haver algum vestígio do suposto massacre. Dei uma geral também num bom pedaço do chão. Não havia qualquer indício de uma lagartixa assassinada! Por estranho que pareça, isso me deixou de certa forma aliviado. Embora aquela lagartixa tivesse infernizado minha vida nos últimos dias, não gostava da sensação de ser um oculos-2.jpgexterminador de criaturas aparentemente indefesas, ainda mais depois que ela insistiu tanto naquela história da prepotência e arrogância dos humanos. Voltei ao computador e ao texto sobre o resort para os hóspedes de terceira idade. Não conseguia entender por que a agência de publicidade responsável pela divulgação do hotel havia decidido fazer aquele híbrido de folder e revista. Na verdade havia excesso de texto quando uma predominância maciça de imagens daria, sem dúvida, muito melhor resultado. Em certos momentos, aquilo ficava mais parecido com um roteiro de auto-ajuda sobre como enfrentar problemas geriátricos do que um convite atraente para os velhinhos e velhinhas com dinheiro curtirem suas férias. A vida estava ficando especializada demais. Se você tem de 14 a 20 anos, suas alternativas para encontrar a felicidade são X, Y e Z, com as devidas adaptações referentes à flutuação de hormônios que caracteriza a puberdade. Agora, se você tem de 20 a 30 anos, as opções disponíveis são W, Z1 e X17, com as variantes M34, N15 e V05, que são acrescentadas de acordo com as variantes determinadas pela estrutura de seu DNA. Já no caso de você ter passado dos 40, os programas A7, J9a ou 5Mv vão certamente lhe proporcionar o prazer que você está procurando…. E de repente temos a sensação de que, se não estivermos enquadrados em nenhuma das categorias disponíveis no mercado, simplesmente não existimos. Somos sombras vagando pra lugar nenhum. De qualquer forma, eu não tinha nada com isso. Ainda bem que eles, da agência, resolveram botar bastante texto naquele folder-revista ou revista-folder, caso contrário meu trabalho seria totalmente dispensável, embora minha necessidade desesperada de arrumar algum dinheiro continuasse totalmente indispensável para minha sobrevivência.telhado.jpg Muito bem, eu não a matei, mas onde ela se meteu? Será que ela continuava me espreitando de algum lugar que eu nem imaginava? Essa possibilidade me levou a uma recaída perante meus instintos assassinos. Já estava voltando a lamentar não tê-la esmagado contra a parede com o vaso voador. Tentei me concentrar novamente no trabalho, mas só conseguia pensar em onde a lagartixa estaria. Resolvi então dar uma busca geral em todos os cantos e frestas do pequeno quarto. telhado-31.jpgComecei pelas aberturas próximas ao telhado. Para fazer isso, tive de subir numa banqueta que não era muito alta e me obrigava a ficar com o corpo esticado e meio curvado para poder examinar direito os pequenos buracos que se formavam entre as telhas e o início das paredes. Numa dessas investidas, acabei perdendo o equilíbrio, caí em cima de uma pequena mesa e tudo ficou escuro. Quando abri os olhos, a luz havia voltado. Tentei me levantar, mas tudo ficou escuro de novo e eu caí outra vez…

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Capitulo XIII

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Às vezes me sentia como naquele dia, quanto furei várias latas de doces em calda que estavam guardadas debaixo da pia de minha tia, só pra sentir o gosto de cada um deles. Fiz um pequeno furo com um prego, bebi um pouquinho da calda de cada lata e as coloquei de novo debaixo da pia. Como os furos eram pequenos, achei que ninguém notaria. É lógico que eu estava errado. Minha tia percebeu no mesmo dia e contou para minha mãe, que me proibiu de ir ao porão da casa – era um daqueles porões altos e minha tia tinha improvisado uma cozinha e uma sala de jantar nele, onde cozinhava e fazia as refeições com meu tio e minha prima.latas.jpg Minha tia, na verdade, não ficou muito brava comigo, mas minha mãe, além de me impor o castigo de não descer para o porão, passou uns dois ou três dias me dizendo: “Você é louco! Só pode ser louco! Onde já se viu fazer uma coisa dessas?” Ela falou tanto, tanto, que eu acabei acreditando. Eu devia mesmo ser louco. Onde já se viu furar as latas de doce da minha tia e, ainda por cima, achar que ninguém descobriria? Como geralmente acontece com aquelas coisas incômodas que ocorrem em família, o episódio acabou, aos poucos, sendo esquecido. Quer dizer, todos esqueceram mesmo ou fingiram que esqueceram…menos eu! Eu descobri que devia ser louco. Na verdade, isso explicava muitas coisas estranhas que haviam acontecido na minha vida até então. Essas coisas só tinham acontecido porque eu devia ser louco! rosto1.jpgA minha certeza definitiva sobre minha loucura chegou algum tempo depois, por volta dos 14 ou 15 anos. Eu e alguns amigos tínhamos alugado dois pequenos barcos a remo e passamos horas navegando na baía da cidade, debaixo do sol. Na verdade, o sol não estava nem muito forte, mas, como minha pele era muito branca, acabei com as costas e o rosto estupidamente queimados e vermelhos. Quando cheguei em casa, minha mãe quase teve um ataque, mas logo me mandou tomar um banho para, depois, passar algum tipo de pomada que aliviasse um pouco o ardor. Estava eu lá, então, tomando meu banho, quando meu pai, depois de ter sido informado de que eu tinha virado um camarão cozido, abriu a porta do banheiro e gritou: “Só pode ser louco! Imagine se uma pessoa normal toma um banho tão quente com esse calor.” louco.jpg Na verdade não entendi direito ao que ele se referia até desligar o chuveiro, sair do box e perceber que o banheiro havia se transformado num beco londrino, tal a quantidade de vapor liberado no ambiente pela água super quente que saía do chuveiro. É, eu devia ser louco mesmo. Imagine tomar banho com água tão quente naquele dia de calor? E ainda por cima com a pele toda queimada daquele jeito! Mas o engraçado é que eu gostava de tomar banho sempre com a água naquela temperatura, o que só confirmava, é claro, minha total insanidade. Pois é, hoje é um daqueles dias. Eu me sinto completamente louco e, de repente, me lembro que isso não é novidade. Há muito tempo eu sei que sou louco. Tanto minha mãe quanto meu pai me avisaram, muitos anos atrás. Na verdade, isso explica muitas coisas estranhas que aconteceram e continuam acontecendo na minha vida, até agora.

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Capítulo XIV

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Não era uma sensação nova, aquela, de aos poucos me sentir retornando ao planeta Terra, após uma viagem a galáxias distantes. Na verdade havia passado por isso várias vezes, e agora estava eu ali, de novo, ouvindo alguns sons esparsos que vinham do mundo exterior. Lentamente os sons começaram a ganhar uma certa linearidade e seqüência, até que consegui distinguir algo como “ei, ei, ei”. Passei mais alguns instantes tentando me certificar se estava ouvindo mesmo aquilo e se os sons, agora articulados, eram originários realmente do mundo exterior e não de meu próprio interior. Sem dúvida, os “ei, ei, ei, ei” vinham lá de fora. Então resolvi abrir os olhos, e lá estava ela, a poucos centímetros da minha cara. la.jpg – Puxa, o que aconteceu, cara? – Acho que caí de algum lugar, bati com a cabeça e fiquei desacordado. – Tá doendo? – Não sei. – Como não sabe? – Ainda não verifiquei. – Ora, dor a gente não verifica. A gente sente ou não sente. oculos.jpgBem devagar, sentei, me encostei na parede e comecei a apalpar o corpo. Parecia estar tudo em ordem. Então me lembrei de que tinha ficado desacordado e que, portanto, devia ter batido com a cabeça. Sim, existia um galo na nuca. O local estava um pouco dolorido, mas não havia sangue e não parecia ser nada grave. – Estou bem. – Ótimo! Então me responda como é que você conseguiu cair de algum lugar. Obviamente você deve ter subido em alguma coisa para poder cair, não é?banqueta.gif Olhei para a banqueta tombada ao meu lado. – Acho que subi nessa banqueta que está caída aí. – Legal, você subiu na banqueta e se atirou no chão? – É claro que não. Eu devo ter subido na banqueta por algum motivo. – Aleluia! Seus dois neurônios sobreviveram à queda. Então eu posso te propor um grande desafio: tente lembrar do motivo pelo qual você subiu na banqueta. – Eu devia estar procurando alguma coisa que estava no alto. – Parabéns, você está indo muito bem. Não seria por acaso um dos livros que estão nessas prateleiras? Olhei para as prateleiras e para os livros. Por que diabo eu ia querer pegar algum daqueles livros? estante-2.jpg– Não, não estava procurando livro nenhum. – Já sei, a lâmpada deve ter começado a piscar e você subiu na banqueta para dar uma apertadinha no soquete, vacilou e pá! – Não, não foi isso também. – Então o que foi? – Não sei, não sei…só sei que não teve nada a ver com a lâmpada. Era alguma outra coisa. De repente a luz no fim do túnel acendeu. Caramba, eu estava justamente procurando aquela lagartixa que se encontrava ali, na minha frente, me interrogando sobre os motivos da minha queda seguida de desmaio. – Eu estava procurando você. – Como é que é? – Isso mesmo, eu estava procurando você, quando perdi o equilíbrio e caí. – Mas que coisa estúpida! Por que você estava me procurando? copia-de-bxk4995_quilombo-e-conservatoria2-025800.jpg– Porque você sumiu de repente. – E daí? Você ficou preocupado? – Não, eu fiquei curioso. – Sobre o quê? – Sobre onde você tinha se metido. – Engraçado, você vive dizendo que te encho o saco e sobe em cima de uma banqueta pra me procurar. – É que eu achei estranho você ter sumido assim, sem dizer nada. – Pra começar eu não sumi. Estava lá no quintal, tomando um pouco de ar. Este quartinho às vezes fica muito abafado. Eu fico aflita. – É a primeira lagartixa com claustrofobia de que eu já ouvi falar. – Não desvie do assunto. – Não desvie de que assunto? – Você saiu me procurando por algum outro motivo do que a simples curiosidade. Acho que eu sei qual é esse outro motivo: você sentiu minha falta. lagartixa3.jpg– Absurdo! Por que eu sentiria sua falta? – Porque, nos últimos dias, eu tenho ajudado você a se reencontrar com você mesmo. – Além de claustrofóbica você também é megalômana, né? – Você sabe que é verdade. Você sabe que desde que eu surgi na sua vida você está sendo obrigado a encarar a sua verdadeira natureza. – Você surtou geral, amiguinha. – Você é que tem medo de ter surtado. – Deixe de ser idiota. – Você saiu me procurando pelo quartinho porque sentiu minha falta. – Você já disse isso. – É, mas há um segundo motivo. – E qual é? – Quando eu sumi, você começou a imaginar se, por acaso, eu não seria uma mera criação de seu subconsciente, uma alucinação, para ser mais clara. Daí sua angústia em me encontrar. Caso você não me achasse, você teria de admitir que passou os últimos dias conversando com uma alucinação. Ou seja, você estaria louquinho, exatamente como sua mãe e seu pai disseram. – Quem está louquinha é você. – Tá legal! Só que você estava tão angustiado me procurando que até perdeu o equilíbrio e se estatelou no chão. – É inútil discutir com você. Você é totalmente irracional. – É lógico que eu sou irracional. Eu sou uma lagartixa. Sem dúvida ela era muito rápida. Bastou que eu fizesse menção de me levantar do chão e ela desapareceu como um raio debaixo do móvel.

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Capítulo XV

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Na revista abandonada no banheiro havia uma crítica sobre o livro novo de um escritor de sucesso. A crítica não era lá muito favorável, mas, como eu nunca tinha lido nada daquele escritor, fiquei ao lado dele, isto é, achei que o crítico havia, mais do que não gostado, se sentido obrigado a falar mal do novo livro, somente porque a obra anterior fora um grande best seller, além de haver merecido despudorados elogios da crítica. Críticos, muitas vezes, agem assim, por vício da profissão. Ou talvez o novo livro fosse mesmo uma porcaria, sei lá! livros.gifDe qualquer forma, o que me chamou atenção naquela história toda foi o fato do novo livro do sujeito famoso ter 300 páginas. Fiz os cálculos e cheguei à conclusão de que, no ritmo em que estava indo, eu demoraria mais ou menos uns dois anos, no mínimo, para escrever um livro daquele tamanho. (Aliás, eu tinha terminado o “livro” anterior porque já não agüentava mais prosseguir com aquela história que estava tentando contar). Como agora vinha escrevendo tudo a mão, em folhas de caderno, estimava que já devia ter por volta de 30 a 35 páginas prontas. Trezentas menos 35, ainda faltavam 265 páginas. Ou 270, no caso de eu só ter escrito 30. Joguei a revista longe, levantei da privada e fui para o quartinho dos fundos da casa. Precisava dar os retoques finais no texto sobre o asilo para velhinhos ricos, quer dizer, sobre o “resort para hóspedes de terceira idade”. livros-2.jpgA primeira entrada do dia naquele quartinho sempre me remetia a uma péssima sensação, de significado indefinível. Talvez fosse pelo cheiro de mofo, pelas paredes descascadas ou pela certeza de que, mais uma vez, passaria horas trancado ali, escrevendo a respeito de coisas sobre as quais não tinha o menor interesse ou afinidade. Como ficava isolado de tudo e de todos, era inevitável que, volta e meia, me pegasse conversando comigo mesmo, a respeito de mim mesmo, é lógico. Tempos atrás, nunca entrava ali sem a companhia de uma garrafa e, com freqüência, de qualquer outra coisa que eu conseguisse arrumar e que me ajudasse a atravessar aqueles dias que se transformavam em madrugadas intermináveis e amanheceres em que preferiríamos não existir. Recentemente, porém, por questões de sobrevivência, não podia mais utilizar esses, digamos, recursos. Liguei o computador e fiquei parado, olhando para a tela em branco, sem coragem para começar a escrever sobre seja lá o que fosse. Trezentas páginas! Imaginem só…

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Capítulo XVI

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A lua estava quase cheia. Isso me deixou um pouco deprimido. Não que eu tivesse algo contra lua cheia, muito pelo contrário. A questão é que, não muito tempo atrás, acompanhar as fases da lua era uma das atividades mais importantes da minha vida. Agora, descobria, de repente, que a lua estava cheia e eu nem havia percebido que ela começara a voltar a se tornar visível no céu vários dias antes. lua-3.jpgIsso me levava a duas conclusões: ou andava tão preocupado com outras coisas que nem ligava mais para a lua ou andava esquecendo de olhar para o céu. Qualquer das duas hipóteses apontava para uma única e séria conclusão: meu senso de orientação andava seriamente avariado. Talvez para a maioria das pessoas não perceber as fases da lua seja algo comum e, portanto, não mereça qualquer tipo de preocupação especial. Não era o meu caso. Após o meu retorno ao planeta Terra, as fases da lua, o nascimento e o pôr-do-sol, a freqüência ou não das chuvas e outros eventos desse tipo passaram a ter importância vital. lua-2.jpgSabia, contudo, que não havia muito o que fazer. Aliás, não havia nada a fazer, a não ser seguir em frente. E esperar. Bem, esperar o quê, alguém poderia perguntar. Eu, sinceramente, não fazia a mínima idéia. Só sabia que esperar era a única coisa que me restava. E precisava esperar em silêncio, principalmente comigo mesmo. E essa era a parte mais difícil, senão impossível. O que fazer então? Nada, a não ser esperar. Talvez esperar pela próxima lua cheia…

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Capítulo XVII

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Antigamente aquilo era chamado de “feira hippie”, já que a maior parte das coisas ali expostas era feita de maneira artesanal por homens e mulheres que tinham aparência de hippies, embora o tal movimento hippie já tivesse acabado há muito tempo. De qualquer forma, hoje poucas peças expostas no local tinham vestígios de qualquer tipo de artesanato. Igualmente ninguém guardava a mais tênue semelhança com o perfil hippie, exceto alguns alienígenas que pareciam ter desembarcado diretamente de Vênus. old-hippies.jpgDe qualquer forma, eu estava ali com ela e me sentia feliz por estar ali, ao lado dela. Era um daqueles momentos que eu certamente recordaria por longo tempo, embora nada houvesse de muito especial em nós dois, ali, circulando por aquelas barraquinhas armadas na praça. Não era a primeira vez que aquilo acontecia, quer dizer, momentos simples que acabavam se tornando marcantes quando relembrados depois. Foi assim também naquele dia, em que eu, minha filha e meu filho fomos tirar fotos 3×4 para alguns documentos. Simplesmente entramos numa espécie de bazar, onde havia uma máquina automática de tirar fotografias. Tiramos as fotos e depois fomos tomar refrigerantes num bar próximo. peace.jpgOu também naquele outro dia, quando eu e ela fomos comprar um abajur de pé e um ventilador de teto. Era uma tarde cinzenta de sábado e saímos à caça do abajur e do ventilador. Compramos os dois na mesma loja. Depois comemos alguma coisa numa padaria, compramos um livro num sebo e voltamos para casa. Não sabia bem de que maneira, mas esses momentos especiais sem nada de especiais tinham alguma ligação com a capacidade ou não de estar atento à progressão das fases da lua. Bem, pelas últimas indicações, nem tudo estava perdido, já que, nos últimos dias tinha reparado que a lua estava quase cheia e também identificado um momento especial nada especial, quando eu e ela fomos circular na feira hippie que não tinha mais nada de hippie.

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Capítulo XVIII

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– Senta aí, vai! – Pra quê? – Vamos resolver isso de uma vez por todas. – Resolver o quê? – Essa sua confusão toda de querer ser escritor mas nunca conseguir terminar nada do que escreve, de querer ser astro de rock mas nunca conseguir gravar um único disco nem fazer um único show, de querer viver no campo mas não saber plantar uma única muda do que quer que seja, de querer ser um cara tranqüilo e profundo mas não agüentar ficar 15 segundos parado olhando o pôr-do-sol, enfim, todas essas coisas. Vamos resolver isso já! negativo.jpg– Supondo que eu tenha realmente todos esses problemas – o que é simplesmente absurdo -, por que você acha que eu preciso ou quero resolver essas coisas? Ou melhor, por que você acha que essas coisas me incomodam? – Porque você tá a ponto de explodir, cara. É muita contradição ao mesmo tempo. – Que contradição? Não tem contradição nenhuma! Todas as pessoas normais têm sentimentos contraditórios, uma vez ou outra. Isso não quer dizer… – Isso não quer dizer… – Não quer dizer que eu seja louco, anormal, pervertido…

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– Mas eu não falei nada disso. Disse apenas que havia muitas coisas contraditórias dentro de você e que você precisava resolver isso, antes que fosse tarde demais. – Tarde demais pra quê? – Pra resolver, antes de você explodir. – Não entendo o que você quer dizer com essa história de explodir. Nunca vi ninguém que tem sentimentos contraditórios – aliás, já disse, quase todas as pessoas têm, às vezes, sentimentos contraditórios -, então, nunca vi ninguém que tem, às vezes, sentimentos contraditórios explodir. – É figura de linguagem… – O que é figura de linguagem? negativo7.jpg– Dizer que você vai explodir…bom, mas isso não importa, o que importa é que você não tem esses sentimentos contraditórios só às vezes, como as pessoas normais têm. Você tem sentimentos contraditórios o tempo todo. É por isso que eu digo que você é uma contradição. Senta aí que eu te explico melhor. – Ninguém é uma contradição. As pessoas são pessoas, e pronto! – Senta aí. – Tá legal, tô sentado, e agora? – Veja bem, de repente você quer ser escritor e até acha que é um, mas você não consegue sentar o rabo pra colocar as coisas no papel. Na verdade, você nem mesmo consegue passar algum tempo pensando em que coisas você gostaria de escrever. – É que, às vezes, eu não consigo me concentrar direito.

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– Não é às vezes, é sempre. – É que eu fico pensando… – Pensando em quê? – Que talvez o meu talento mesmo não seja escrever. – E qual seria o seu talento? – Talvez compor músicas. É mais fácil, porque você pode compor andando na rua, tomando banho, comendo… – Então por que você não se dedica totalmente a isso, porra? – Porque eu não tenho certeza. – Certeza de quê, porra? – De que é por aí mesmo. E se meu lance for mesmo escrever? negativo-5.jpg – Então escreve, senta a porra da bunda e não levanta enquanto não tiver escrito algo que você ache que valha a pena. – Aí é que está o problema. – Que problema? – Eu não confio em mim pra saber se algo vale a pena ou é uma merda, ou pior ainda, se não fede nem cheira, entendeu? E depois… – Tem mais? – Tem. Tem mais um problema. Eu também não sei se eu devo me dedicar a escrever coisas curtas, tipo contos, ou coisas mais longas, tipo um livro. – Senta a bunda e escreve. Só isso, senta a bunda e começa a escrever. – Mas é isso. Será que você não entende? – Não entende o que, meu Deus!? – Então…quando eu sento a bunda pra escrever, eu fico pensando nessas coisas todas e não consigo escrever merda nenhuma. – Olha, acho melhor você ficar com a música mesmo. negativo-6.jpg– Pois é, mas aí também é complicado. – Por quê? – Porque eu nunca consegui aprender música, não sei distinguir um lá de um mi, um sol de um dó. – Ora, existem milhares de músicos que só tocam de ouvido. – Pois é, mas eu não confio nos meus ouvidos. Às vezes eu acho que estou cantando no tom e estou completamente fora. Quando eu fumava maconha… – Quando você fumava maconha… – É, quando eu fumava maconha, parecia que tava tudo certinho, tudo dentro do tom. Mas, quando eu gravava e ouvia depois, tava tudo fora, tudo desafinado. – E agora? – Agora eu não fumo mais maconha. – Disso eu sei. Eu perguntei como é agora com o lance do tom, quando você canta. – Às vezes eu acerto, mas preciso ouvir a música um milhão de vezes pra me acostumar, pra conseguir achar o tom, entende? negativo-2.jpg– Bem, mas pelo menos você consegue, depois de um tempo, achar o tom, né? – Ás vezes, às vezes… – Já é alguma coisa. – Pois é, mas tem o lance do ritmo. – Que lance? – Eu não consigo achar o ritmo. – Não estou entendendo… – É que eu só consigo cantar no meu ritmo. – E daí? – Daí que, quando tem mais gente tocando, eles é que têm que vir atrás de mim, e eu gosto de cantar bem rápido, para não perder o ritmo, entende? Quando eu fumava maconha… – Já sei, tudo parecia entrar no ritmo. – Não, não, com o lance do ritmo era pior ainda. Agora, quando todo mundo na banda cheirava cocaína e bebia bastante, parecia que dava certo. Só que a gente nunca tinha certeza. – Por quê? negativo-3.jpg– Porque a gente nunca tinha coragem de perguntar o que as pessoas que estavam ouvindo achavam. E também não ia adiantar muito, porque a maioria do pessoal estava tão ou mais chapada do que nós. – E agora, como é que você lida com isso? – Eu não lido, né? Eu não tenho cheirado nem bebido… – Disso eu também sei. Eu perguntei como você lida com o lance da música. – Bom, eu agora só componho. – Então ficou mais fácil. – Pois é, mas aí também tem um probleminha. – Qual? – Eu não confio em mim. – Mas como você não confia em você, cara? – É que eu acho que todas as músicas que eu componho podem ser plágios de algo que eu já ouvi antes. Você sabe a quantidade de coisas que eu ouvi desde criança… – Escute, um conselho de amigo, quer dizer, de amiga: esqueça tudo isso e tente ser apenas uma pessoa normal. – Esquecer tudo isso o quê? negativo.jpg– Esse negócio de escrever, compor, essa merda toda. Quem te meteu na cabeça que você tem que fazer alguma coisa desse tipo? Quem te disse que você não pode ser uma pessoa normal? – O que exatamente você acha que é uma pessoa normal? – Ora, uma pessoa normal é uma pessoa normal, uma pessoa que simplesmente vive a sua vida. – Toda a pessoa faz isso. Toda a pessoa vive a sua vida desde que nasce até morrer. – Isso é óbvio. – Então por que você diz que eu não sou uma pessoa normal, se eu vivo a minha vida e pretendo continuar a fazer isso até morrer? – Eu não quis dizer isso? – Então o que você quis dizer? – Quis dizer que você devia deixar de se preocupar em escrever, compor música, essas coisas, e só viver a sua vida.

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– E com o que você sugere que eu deva me preocupar? – Ah, sei lá, com o que você quiser, merda! – E se eu quiser me preocupar com escrever e fazer música, o que você tem a ver com isso? – Nada, absolutamente nada. Pense no que você quiser, na hora que você quiser. E foda-se! – Então por que você continua me enchendo o saco? _ Olha, por mim você pode ir para o fundo do inferno e ficar queimando lá por toda a eternidade. Eu a vi sumir, rapidamente, embaixo da porta que dava para o quintal. Percebi então que estava chovendo. Ela saiu tão puta da vida que não deve nem ter reparado nisso. A essa altura estava certamente encharcada e arrependida de ter saído do quartinho.

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Capítulo XIX

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Estava muito abafado. Eu tinha que liberar espaço na sala. Mas também era preciso quebrar algumas coisas, porque, além da falta de ar, também estava sentindo raiva, muita raiva, embora não soubesse de quê. Não lembro o que quebrei primeiro, nem o que atirei primeiro pela janela. Só sei que, depois que comecei, não queria mais parar. Foi quando alguém, em vez de chamar a polícia, resolveu pedir ajudar a um psiquiatra amigo. Quando ele chegou, eu já havia parado de quebrar e atirar coisas pela janela. Mesmo assim ouvi-o dizer, em tom que me pareceu de conspiração, que iria até a farmácia comprar um calmante que me deixaria “quietinho”. Ele voltou com o tal calmante. Não ofereci qualquer resistência. Engoli os dois ou três comprimidos que me deram e fui para a minha cama. Estava cansado e queria realmente dormir, mas não consegui. junky.jpgLevantei, fui até o telefone e liguei. Mais ou menos 15 minutos depois, a encomenda chegou. Os calmantes, pelo menos, me estabilizaram o suficiente para que minhas mãos não tremessem, enquanto preparava a coisa. Serviço terminado, coloquei algumas pedrinhas na pipeta e saí fumando pela sala. O psiquiatra continuava por ali, aparentemente tentando entender por que eu continuava de pé. Ao passar por ele, ergui a pipeta e disse: “Tá vendo como o seu remedinho me deixou quietinho?” Interessante que, poucos dias depois, a sala ficou abafada novamente. Senti falta de ar e aquilo me deu muita, muita raiva. Já sabia como resolver a situação. Comecei a quebrar as coisas que haviam sobrado. rosto-2.jpg Dessa vez chamaram um psicólogo amigo. Só que, quando ele chegou, eu já estava quase desmaiando na cama e simplesmente não fazia a mínima idéia de como viera parar ali. “Cara, eu preciso parar com isso”, eu falei. “É, precisa mesmo”, ele respondeu.

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Capítulo XX

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“Poeira Invisível”

“Era como se algo se elevasse no ar, flutuasse por alguns segundos e, de repente, uma rajada de vento transformasse tudo em poeira invisível.”

Afinal, sobre o que estava falando? Os rostos daquelas pessoas à sua frente lhe faziam essa pergunta, e ele não ia poder respondê-la. Não sabia a resposta. As palavras surgiram em sua boca, no meio da conferência para aqueles universitários, e ele as pronunciara como se estivesse enunciando uma importante descoberta. Logo após dizer a frase, percebeu que ela não tinha absolutamente nada a ver com o assunto. Aliás, não tinha nada a ver com assunto algum. Era apenas uma frase sem sentido no meio de uma palestra enfadonha sobre literatura beat, numa tarde quente de verão. areia2.jpg

– Isso faz parte de algum livro?, perguntou um rapaz de cabelos vermelhos.

– Não, foi apenas uma citação à toa, respondeu, com a voz meio trêmula.

– Citação de onde?, insistiu o rapaz.

– De um livro…

– Mas o senhor não disse que não era de um livro?

– Eu me confundi, é de um livro sim.

– De que livro?

– “Poeira Invisível”

– De quem é? Kerouac, Gingsberg…nunca ouvi falar. areia.jpg

– É normal que nenhum de vocês tenha ouvido falar de “Poeira Invisível”. É uma obra praticamente desconhecida do período beat. Na verdade, sua primeria versão circulou numa edição mimeografada. Alguns dizem que ela é anterior a “On the Road”. Contam, inclusive, que quando Kerouac e Noel chegaram a São Francisco, na famosa viagem pela Rodovia 66, alguns exemplares de “Poeira Invisível” já circulavam na cidade, e parece que também em alguns cafés de Los Ângeles. Mas vejam, pode ser tudo lenda.

– O senhor não disse de quem era?

– De quem era o quê?

-“Poeira Invisível”, quem é o autor?areia-3.jpg

– Joe.

– Joe de quê?

– Joe, só Joe.

– Ele era de onde?

– Ninguém sabe ao certo. Alguns dizem que ele vivia em São Francisco mesmo, mas há gente que jura que ele era mexicano e morava no Texas. Seja como for, ele sumiu. – Sumiu ? – Depois que “Poeira Invisível” começou a ter alguma repercursão, nunca mais ninguém o viu.

– E antes disso?

– Antes do quê?

– Do livro ficar famoso, ele era visto em algum lugar?

– As histórias são muito confusas a esse respeito. Tem gente que jura que conversou com ele num boteco de Nova York, mas há quem também jure que ele nunca saiu da Costa Oeste dos Estados Unidos. Há também quem afirme que ele vivia num rancho caindo aos pedaços no meio do deserto de Nevada, e por aí vai.jack_kerouac.jpg

– Sobre o que trata “Poeira Invisível”?

– Parece que cada um que lê o livro chega a uma conclusão. Há quem ache que se trata de um tratado filosófico sobre o existencialismo, adaptado ao clima do oeste americano na década de 50. Outros já vêem “Poeira Invisível” como o precursor máximo de toda a prosa beat que viria a seguir, mas há também quem insista de que se trata da mais longa poesia já escrita até hoje.

– E o senhor, o que acha?

– Acho Joe um puta escritor. Bem, da próxima vez que nós nos encontrarmos, podemos, se vocês quiserem, falar apenas sobre a obra de Joe e a sua “Poeira Invisível”. Eu infelizmente tenho que ir embora agora, caso contrário perderei o avião. Muito obrigado pela atenção!

Saiu rapidamente da sala, pensando que, definitivamente, precisava tomar mais cuidado com aquelas frases sem sentido que de vez em quando brotavam da sua boca durante as palestras. “Poeira Invisível”, inacreditável, absolutamente inacreditável…

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Capítulo XXI

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– Legal esse troço aí. – Que troço? – Esse negócio que você escreveu aí, poeira não sei de quê. – “Poeira Invisível”. – É, isso aí. – Você gostou, é? – Até gostei. – Por que “até”? – Bom, porque tá um pouco parecido demais com aquele pessoal.

– Que pessoal? rosto-2.jpg – Fante, Bukovisk, todos aqueles caras lá. – E você não gosta desses caras? – Até gosto, mas é tudo gringo, né? – E daí? – Daí que eu achava que você tinha que ser mais original. – Mas o que tem a ver ser original com escrever parecido com os gringos? tirxa.jpg – É que falar das coisas deles eles falam muito melhor do que nós. – Mas eu não estou falando das coisas deles, eu estou falando das minhas coisas. – Você acha, é? – Bom, eu não tenho certeza, mas acho que sim. – Então manda. – Manda o quê? – Essa porra que você escreveu. – Manda para onde? – Pra publicar… – Mas publicar aonde? – Ah, sei lá, escolhe uma editora aí e manda. – Mas você disse que tava uma merda… – Eu não disse que tava uma merda, só disse que tava muito parecido com coisa de gringo. – É a mesma coisa. – Como é a mesma coisa? Merda é merda e gringo é gringo. – Do jeito que você colocou a coisa é como se merda fosse gringo e gringo fosse merda. – Sabe, eu acho que aquele longo período em que você se transformou em laboratório clandestino de substâncias estranhas acabou deixando seqüelas irreversíveis no seu organismo. fante.jpg– Por que você diz isso? – Porque você chega a cada dedução tão absurda que isso só pode ser efeito retardado daquelas porcarias todas que você tomava. Olha, tô tremendamente arrependida de elogiar aquela merda que você escreveu. – Ah, então você admite que achou aquilo uma merda. – É, achei uma merda de gringo. É isso! Você só escreve merda de gringo, uma merda fedida de gringo fedido. Aliás, você não passa de uma merda de gringo fedido. Pior, você não é nem um gringo de verdade, nem uma merda de verdade, é uma farsa de merda fedida de gringo. Gostou? – Tá, tá legal, mas agora fala sério: você gostou mesmo daquele troço da poeira? Você acha que dá mesmo pra mandar pra alguma editora?

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Capítulo XXII

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O mar, nos últimos dias, durante a noite, avançava até o meio da praia, deixando manchas escuras sobre a areia, como lambidas gulosas. Percebi que era outono e eu gostava do outono, com seus dias de céu bem azul e sol bem amarelo. Virei as costas e iniciei a caminhada de volta para casa. Sentindo meus pés pisando firme nas calçadas da cidade, compreendi que estava na hora. Sim, eu voltaria ao quartinho dos fundos, mas apenas para terminar o que ainda estava inacabado. Não tinha mais nenhum trabalho a fazer, até porque, embora o dinheiro estivesse acabando, evitara ligar para meus contatos nas últimas semanas. Mas havia muita coisa inacabada dentro daquele quartinho nos fundos do quintal, e eu precisava, de uma vez por todas, dar um jeito naquilo.copia-de-paisagem_casebre-colorido.jpg Quando abri a porta, voltei a sentir o cheiro. Interessante porque há tempos eu não sentia aquele cheiro, e ele estava sempre ali, exalando das paredes emboloradas e das pilhas de papéis velhos amontoados em todos os cantos. Tinha me acostumado tanto àquele cheiro que não o sentia mais. Hoje, porém, minhas narinas ficaram impregnadas assim que abri a porta. Aliás, o cheiro não impregnou apenas minhas narinas. Parecia ter penetrado cada um dos meus poros, tecendo, de dentro para fora, uma segunda pele que me aprisionava, mas também me protegia. Aproximei-me do computador e percebi que havia esquecido de desligá-lo antes de sair. Incrível como aquele equipamento sensível continuava resistindo e funcionando naquele ambiente tão úmido. Mas isso não vinha ao caso. Eu estava ali para terminar uma tarefa. Ou seria uma missão? Isso também não importava. Nada importa quando estamos aqui, olhando para o abismo e sabendo ser inevitável mergulharmos nele. computer1.jpgFoi isso que escrevi na tela antes vazia do monitor. E não sabia qual seria o próximo passo. Talvez mergulhar no abismo. Talvez… Pela manhã, enquanto caminhava pelas ruas da cidade, entrei numa livraria e vi um diário de Jack Kerouac. Era bem grosso e o comentário na capa ou contracapa prometia revelar “o verdadeiro Kerouac”. Sinceramente não me interessava conhecer “o verdadeiro Kerouac”. O que eu conhecia dele, verdade ou mentira, já me bastava. Mas confesso que gostaria de saber como é que ele foi pirando, quer dizer, como foi o processo que o levou à transformação de “vagabundo iluminado” em “conservador barrigudo de direita”. Isso, porém, não estava no livro que eu segurava nas mãos. O diário começava em 1947 e terminava em 1954, quando ele começava a trabalhar firme em “On the Road”. Isso, contudo, também não importava.on-the-road.jpg Afinal, eu nem gostava tanto assim de Kerouac. Embora me sentisse atraído pela tal “escrita automática” dele, não consegui nem mesmo terminar de ler “On the Road”. Antes da metade, tinha me desinteressado pela história, ou melhor, o que eu lera me parecera o suficiente para sacar qual era a dele e a dos caras que andavam com ele. No entanto, uma informação que li no tal livro do diário me chamou muito a atenção. Kerouac carregava sempre um caderno para onde quer que fosse. Fiquei imaginando se ele fazia isso pra não deixar “a coisa” escapar quando ela pintasse ou se aquele caderno era seu álibi para escapar do “mundo deles” e se refugiar no “seu mundo”. Se dava certo para ele, talvez desse certo para mim. Talvez… Parei um pouco de escrever e farejei o ar. O cheiro, embora mais fraco, ainda estava ali. Sabia que não podia perdê-lo. Era ele que me mantinha preso naquele quartinho, mas também me protegia dos demônios que habitam o fundo do abismo, onde, finalmente, eu sabia, teria de, mais cedo ou mais tarde, mergulhar. bukowski.jpg Com Bukowski foi diferente, isto é, desde que o descobri sempre li tudo dele que me caiu nas mãos, do começo ao fim, e rapidamente. Fui obrigado a abandoná-lo por uns tempos, já que, a partir de determinado momento – ou livro – tentei competir com ele na quantidade de álcool que ele sempre ingeria ao longo de suas histórias. É óbvio que não consegui. O pior é que, quando descobri que, mesmo bebendo tanto, não conseguia escrever como ele – nem comer tantas mulheres como ele dizia comer -, passei então a beber mais ainda. Meu reencontro com Bukowski deu-se a não muito tempo, em circunstâncias bem especiais: ele já havia morrido há vários anos e eu estava sóbrio há alguns poucos anos. Mas isso também não importa agora. O que importa é que, em meu reencontro com o “velho safado”, descobri que ainda era capaz de me emocionar com toda a poesia que ele conseguia esconder debaixo da sua linguagem ordinária e suja. Isso sim era importante, antes, continuou sendo importante depois e continua sendo importante agora. A última coisa que li de Bukowski foi a “orelha” que ele escreveu para uma edição de “Pergunte ao Pó”, de John Fante, um daqueles livros que a gente lê depois que todo mundo em volta já leu faz tempo e, quando acaba de ler, se pergunta: “Caralho, por que eu demorei tanto pra ler essa merda”? Mas isso também não importa agora. O que importa é que, lá na “orelha” do livro, Bukowski diz que, quando bateu os olhos pela primeira vez em algo que Fante escreveu, ele levou um tremendo tapa, e descobriu que alguém estava escrevendo sobre o que importava, alguém estava conseguindo dizer “a coisa”. h-miller.jpg Eu descobri “a coisa” em “Sexus”, de Henry Miller, quando tinha uns 15 ou 16 anos. Havia uma pilha de exemplares em liquidação, numa livraria. Era interessante porque, na época, os livros de Miller estavam proibidos no país e, no entanto, ali estava uma pilha de “Sexus” bem à vista de todo mundo e a preço de banana. A única informação que tinha de Miller era de que ele escrevia sobre sacanagem, e foi isso que me motivou a comprar um dos exemplares da liquidação. Naquela tarde, trancado em meu quarto, comecei a ler o livro. Sim, ela, a sacanagem, estava lá, mas havia também outra coisa, isto é, ele falava sobre “a coisa”. Depois de “Sexus”, li “Nexus”, “Plexus”, “Trópico de Câncer” – não sei exatamente em que ordem – e outros livros de Miller. Há muito tempo não me reencontro com ele, mas foi ele que me mostrou “a coisa” pela primeira vez. E isso importa agora? Como é que eu vou saber? Sou apenas um homem meio velho envelhecendo num quartinho úmido e embolorado.

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Capítulo XXIII

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“A coisa”

– Não podemos nos esquecer do que realmente importa ou não. Passamos grande parte de nossos dias, de nossas vidas, nos preocupando com coisas que não são realmente importantes. E esse conceito de importância não deve se basear em normas éticas, políticas, nem mesmo filosóficas ou religiosas, mas sim em nosso discernimento particular sobre o que é realmente importante ou não para cada um de nós. A boca estava seca, a garganta doía um pouco e ele precisava desesperadamente de um gole de água. Olhou para a platéia e, ao fixar o semblante de dois ou três rostos bem à sua frente, teve certeza de que não havia conseguido expressar exatamente o que queria dizer. – Alguém tem alguma pergunta? , indagou, limpando a garganta com uma tosse forçada. – Ao desprezar a ética, a política, a filosofia, a religião, o senhor está defendendo um individualismo extremado, disse um rapaz loiro da terceira fila. a-coisa.jpg– Eu não estou desprezando ética, política, filosofia ou religião. Só estou afirmando que esses sistemas de pensamento, que em geral são sistemas pré-concebidos e fechados, não servem, às vezes, para que descubramos o que, em nosso íntimo, realmente importa ou não. – E qual o sistema que devemos usar para sabermos o que é importante ou não para nós? , perguntou uma garota japonesa, que mascava chiclete e enrolava compulsivamente a ponta dos cabelos com a mão esquerda. – Não existe um “sistema” para isso. Não é uma coisa que você encontra em algum livro ou num site de auto-ajuda na Internet. É algo que vem de dentro. – De dentro de onde? , insistiu a garota. – De dentro de você, de dentro de nós… – E como é que a gente acha? – Acha o quê? – Essa coisa dentro da gente, essa coisa que faz a gente saber o que é importante ou não? a-coisa-2.jpg Ele se sentiu encurralado num beco escuro. Não sabia como explicar à garota japonesa de que forma ela poderia achar a “coisa” que nos ensinava a perceber o que é importante ou não. Ele próprio não sabia como encontrar a “coisa” dentro dele. Na verdade, achava que cada um tinha a sua “coisa” particular e, portanto, os caminhos para encontrar a “coisa” eram pessoais e intransferíveis. – Só você pode descobrir a sua “coisa”, disse ele, por puro instinto de sobrevivência. Embora seu olhar demonstrasse que estava cada vez mais confusa, a garota japonesa não perguntou mais nada. Foi a vez então de um homem de meia-idade, quase careca, no fundo da sala, perguntar: – O que é importante para o senhor, afinal de contas? – Depende de cada situação. – O senhor está fugindo do assunto. O senhor disse que precisávamos descobrir o que era ou não importante. Muito bem, eu até concordo. É por isso que estou perguntando: o que é importante para o senhor? – Não estou fugindo do assunto. Repito que saber o que é ou não importante depende de cada situação. – O amor é importante? , perguntou uma mulher de cabelos ruivos, quase vermelhos, aparentando 30 e poucos anos. a-coisa-4.jpg– O amor é sempre importante, ele respondeu. – Foi a sua “coisa” que lhe disse isso? , emendou de repente a garota japonesa, como que despertando de um transe. – É, foi a minha “coisa” que me disse isso, ele respondeu. – Ah, então agora eu já sei como encontrar a “coisa” dentro de mim, afirmou, entusiasmada, a garota japonesa. – Acho tudo isso muito individualista, voltou à carga o rapaz loiro da segunda fila. – Não acho que o amor seja uma coisa individualista, reagiu a mulher de cabelos ruivos, quase vermelhos. – Não estou dizendo que o amor é individualista. Individualista é esse negócio de ficar procurando uma “coisa” que te diz o que é ou não importante, defendeu-se o rapaz loiro da segunda fila. – Senhores, estamos perdendo o rumo do nosso debate, ponderou do fundo da sala o homem de meia-idade, quase careca. – Vocês estão discutindo e complicando tudo porque ainda não aprenderam a descobrir a “coisa” dentro de vocês mesmos, disse quase gritando a garota japonesa, que não parava de mascar seu chiclete e de enrolar o cabelo. a-coisa-3.jpg – Não há “coisa” nenhuma a descobrir. Vocês estão todos loucos, berrou uma velha senhora que se encontrava próxima à porta de saída e até então ficara calada. – A senhora diz isso porque já está perto da morte. Eu ainda quero descobrir muitas coisas, berrou mais alto ainda a mulher de cabelo ruivo, quase vermelho. – Estamos desviando o rumo do debate, estamos perdendo o rumo do debate, repetia sem parar o homem de meia-idade, quase careca. Definitivamente, ele tinha perdido o controle da situação. As pessoas da platéia estavam exaltadas, discutindo entre si. Ninguém mais parecia lembrar de que tinham vindo àquele local para assistir a uma palestra sobre “A Essência do Existir”, proferida por aquele sujeito que agora estava ali, paralisado diante daquele grupo de pessoas cada vez mais enfurecidas, defendendo argumentos que ele não conseguia mais entender. Apanhou suas anotações sobre a mesa, colocou na pasta, deu uma última olhada para a platéia ainda ensandecida e saiu da sala. Ninguém percebeu a sua ausência.

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Capítulo XXIV

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O computador continuava ligado. As luzes também estavam acesas. Era sinal de que ele devia aparecer logo. Talvez tivesse ido ao banheiro. Talvez tivesse ido procurar algo para comer. Talvez tivesse ido dar uma volta no quarteirão para clarear as idéias, como às vezes fazia. computer2.jpg Mas o tempo continuava passando e ele não voltava. Ela começou a ficar impaciente. Reavaliou as alternativas que ela própria colocara para a sua ausência. Mesmo que estivesse com muita fome, não demoraria tanto comendo. Ficar tanto tempo no banheiro assim, só se estivesse com um desarranjo intestinal daqueles. Finalmente, o quarteirão era formado por quadras de pequena extensão, que poderiam ser percorridas em, no máximo, 15 minutos, isso se ele estivesse andando devagar. Então, afinal, onde ele havia se metido? Percebeu, do local onde estava, numa das prateleiras da parede dos fundos, que havia algo escrito na tela do computador. Quando, depois de percorrer um tortuoso caminho, conseguiu subir no teclado, constatou que no monitor estavam escritas as últimas linhas de “A Coisa”. lagartixa3.jpgEle andava trabalhando naquele conto ou seja lá o que fosse nos últimos dias. Escrevia uma linha e parava, escrevia outra linha e parava. Parecia medir cada palavra, cada vírgula, cada ponto. Ao que tudo indica, tinha finalmente terminado. A impressão é que havia colocado o último ponto na história, levantado e dado o fora. Pois é, dado o fora para onde? Já fazia quase três horas que ela circulava pelo quartinho, esperando que ele chegasse. Bem, era preciso admitir que, nos dois últimos dias, ele andava meio estranho, quer dizer, mais estranho do que o normal.bxk4995_quilombo-e-conservatoria2-025800.jpg Volta e meia saía do quartinho e ia caminhar pela cidade. Depois voltava e permanecia longo tempo olhando para a tela do computador. Aí, de repente, escrevia algumas palavras de “A Coisa”, levantava e saía de novo, ficando fora por um longo período. Então por que ela estava achando que, daquela vez, não podia estar acontecendo exatamente isso, que ele tivesse apenas saído para caminhar pela cidade e estar demorando um pouco mais do que de costume? Pressentimento! Embora a ciência nunca tenha se dado ao trabalho de pesquisar, lagartixas têm poderes estranhos no terreno da premonição, intuição e assim por diante. E se ele realmente tivesse desaparecido? E se ele tivesse colocado as últimas palavras na última linha de “A Coisa”, levantado do computador, aberto a porta e simplesmente saído sem rumo, mas com a convicção de que precisava continuar caminhando? E outra pergunta lhe veio à cabeça a seguir: caso isso tivesse acontecido, onde ele já estaria àquela altura? Desceu do teclado do computador e foi até a soleira da porta. casebre.jpgFicou olhando o quintal. A grama alta estava molhada da chuva fina que caía há horas. Fazia um pouco de frio. Olhou novamente para dentro do quartinho. Sentiu vontade de voltar lá pra dentro, onde continuaria quentinha e protegida. Mas fez o contrário. Mergulhou na grama molhada e também sumiu. Precisava encontrá-lo.

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FIM DO PRIMEIRO RABO

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PARTE II

“ O RETORNO DA LAGARTIXA”

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Capítulo I

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Sentei e fiquei observando o rio. Tudo em volta havia mudado muito. Não sabia bem por que escolhera aquele lugar. Talvez pelo fato de que, no passado, tentara me esconder ali. Mas essa explicação também não fazia muito sentido. Aquele lugar não era certamente o mais indicado para um novo exílio. Aliás, já não era adequado há cerca de 30 anos, quando estive ali pela primeira vez: gente demais começou a aparecer, quebrando o quase isolamento que havia no início. De qualquer forma, já que estava ali, era melhor começar a fazer logo o que tinha planejado. Portanto, levantei e iniciei a caminhada até a casinha de pau-a-pique e sapê no meio do mato.bxk8733_camburi-ubatuba1800.jpg Enquanto caminhava, comecei a filosofar a respeito de como o homem branco vai ocupando os espaços do planeta de forma predatória e insana. Isso porque hoje, naquele lugar, para conseguir algum tipo de isolamento, eu era obrigado a caminhar mais de três quilômetros, seguindo a margem do rio, até a subida da serra, onde um atalho no meio na floresta me levava à casinha que alugara de uma família de pescadores locais que hoje sobreviviam vendendo hambúrguer num dos vários quiosques de cimento construídos sobre a areia da praia, lá onde o rio se encontrava com o mar. mata4.jpgQuando estava mais ou menos no meio da trilha, percebi que anoitecia rápido e que precisa apertar o passo, se não quisesse fazer o trecho final do caminho no escuro, sob o considerável risco de me perder no mato. Afinal, por que viera me meter naquele fim de mundo?, pensei. “Pura frescura”, respondi pra mim mesmo. “O que você planeja fazer poderia ser feito em qualquer lugar, mas, claro, você sempre tem que complicar bastante as coisas.” Engraçado…essa última frase surgiu de repente na minha cabeça, mas parecia ter sido dita por outra pessoa. De qualquer forma, fazia sentido. Eu complicava tudo mesmo! Acordei no meio da noite com a sensação de que estava no lugar errado, na hora errada. Realmente não havia nenhum motivo justificável para eu ter me enfiado naquela casinha caindo aos pedaços no meio do mato. Até porque estava ali há mais de duas semanas e não havia escrito uma única linha. Passara todos aqueles dias mergulhado em lembranças e reflexões sobre tudo o que tinha vivido naquele local tempos atrás. Cheguei até a pensar que o caminho era aquele mesmo, isto é, que estava ali exatamente para escrever sobre aquilo. 72802608_dba75232cd_m.jpgCuriosamente, porém, cada vez que me sentava, à noite, na única mesa que existia na casinha de pau-a-pique e sapê, ficava com os olhos fixos na vela enfiada na garrafa improvisada como castiçal e, hipnotizado pela chama, rememorava vários episódios que haviam acontecido ali, até que finalmente, vencido pelo sono, me arrastava para o saco de dormir. Tentei, então, mudar minha rotina, reservando períodos pela manhã e à tarde para me sentar à mesinha. Não havia mais a chama da vela para me hipnotizar, mas o que atraía minha atenção como um imã agora era a sinfonia de sons no mato, lá fora. Invariavelmente, jogava a caneta sobre o papel e me enfiava na floresta, onde, quase sempre, elaborava mentalmente longos e sucessivos parágrafos que nunca seriam escritos. Acendi o lampião a gás e comecei a arrumar a mochila. Não fazia a mínima idéia para onde ir, mas sabia que precisava sair dali.

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Capítulo II

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Com certeza havia muito o que contar a respeito do que acontecera naquela praia, ainda quase deserta na época em que estivera ali pela primeira vez. Mas a mesma certeza eu tinha de que não queria escrever sobre aquilo, pelo menos por enquanto.

Afinal, me lembrava bem daquele dia, quando, com uma foice de cabo longo, capinava o terreno em frente à casa e ouvi os Stones tocando “Midnight Rambler” no radinho de pilha pendurado no galho de uma árvore próxima. 776932.jpgDe repente, me perguntei o que estava fazendo ali, se tudo o que me interessava, naquele momento, estava em outro lugar. Na verdade, tinha vindo parar ali seguindo não meus próprios sonhos, mas os sonhos de algumas pessoas com as quais convivia naqueles tempos. Como amava aquelas pessoas e tinha medo de perdê-las, embarquei na aventura delas. E foram necessários cerca de seis meses e uma música dos Stones para que me desse conta disso. Curiosamente, pouco tempo depois de minha súbita “iluminação” provocada pelo inusitado trinômio foice + radinho de pilha + Stones, a casa que eu e aquelas pessoas ocupávamos durante aquela temporada “no litoral” consumiu-se num rápido e fulminante incêndio, transformando em cinzas os sonhos de todos os que ali sonharam ou tentaram sonhar.

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Aquilo pelo menos deu um certo sentido mítico a toda a loucura daqueles tempos, embora, eu soubesse agora, a loucura que se seguiria seria muito maior, devastadora e nada mítica. Mas eu também não queria escrever sobre isso, pelo menos por enquanto. Então fui até a mesinha no meio do quarto, peguei a caneta e fiquei olhando os carros indo e vindo pela janela. Os carros indo e vindo pela janela. Interessante a imagem. quarto.jpg“De repente percebi os carros indo e vindo pela janela do pequeno quarto daquele hotel barato, onde morava há menos de um mês e tentava começar a escrever meu primeiro livro de verdade. A questão é que, como já estava trancado naquele quarto há muito tempo, começava a ser vítima de alucinações, como essa, por exemplo, em que os carros entravam janela e outros saíam debaixo da câmara e zuniam janela afora. Assustado, eu tentava me proteger do fluxo do tráfego intenso, escondido debaixo da mesa.” Aquilo era uma merda que não levava a lugar algum. Amassei o papel e o atirei no cesto de lixo. Peguei a caneta de novo e comecei a escrever outra coisa:

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– Afinal, por onde eu começo? – Por qualquer lugar, por onde você quiser. – Mas eu gostaria de ter um ponto de partida definido. – Pra quê? – Ora, não se começa a contar uma história assim, do nada. É preciso ter um ponto de partida definido, para se chegar a algum lugar. – E onde você quer chegar? – Na verdade eu ainda não sei. – Então que importância tem de onde você vai começar a contar a história? – É que eu acho que a gente não pode começar do nada. – Você não vai começar do nada, até porque é impossível começar qualquer coisa do nada. Simplesmente escolha algum fato, algum momento significativo e comece daí. – É que, sabe, embora eu não saiba direito aonde quero chegar, eu tenho uma leve idéia. – Idéia de que? jjj.jpg– De como deve ser a história. – Ótimo. Já é um começo. Agora escolha um ponto de partida e mande bala. – Tinha que ser importante. – O quê? – O ponto de partida, tinha que ser uma coisa importante. – Então escolha uma coisa importante e comece. – O que você sugere? – A respeito de quê? – Que coisa importante você sugere? – A história é sua. Você é que tem que escolher o que é importante ou não. Como é que eu vou saber o que é importante na sua história? – Não é isso, isso eu vejo depois. Eu só quero saber a partir de que coisa importante eu devo começar a contar a história. – É o que eu estou dizendo. Você é que tem que escolher essa droga de coisa. – Acho que vou esperar mais um pouco? – Esperar pra quê? – Pra começar a contar a história. – Você é quem sabe. A história é sua.

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Capítulo III

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Odiava admitir, mas havia acabado de escrever um diálogo totalmente inspirado nas conversas que costumava manter com ela. Aquilo era assustador, por dois motivos. Primeiro porque pensava já tinha me livrado definitivamente daquela alucinação, depois – e isso era sem dúvida o pior – porque havia gostado de escrever aquele diálogo, que fluiu como se a caneta tivesse adquirido vida própria.canal1.jpg Senti que precisava caminhar um pouco e tomar ar. Não havia jeito de me acostumar com o clima daquela cidade, por mais que já tivesse tempo suficiente para me adaptar às alterações bruscas de temperatura, a total ausência de fronteiras entre as quatro estações do ano e a própria inexistência das mesmas, que se limitavam a uma irritante alternância entre dois períodos, o menos quente e o mais quente, os quais, volta e meia, também se alternavam várias vezes durante um só dia. O pior, contudo, era o que os moradores dali chamavam de “noroeste”, um vento que, teoricamente, vinha dessa direção e deixava todo mundo meio louco, desde o amanhecer até o anoitecer. calor.jpgTalvez aquela fosse uma boa idéia, isto é, sair andando pela cidade, num dia do tal noroeste, registrar e depois escrever sobre as situações malucas que aconteciam. E elas sempre aconteciam, porque, como eu próprio tantas vezes já sentira, o vento, além de ressecar a pele, parecia também mexer com a pressão sangüínea, que, por sua vez, alterava os batimentos cardíacos, que, por sua vez, aumentava ainda mais a pressão sangüínea, que alterava mais sei lá o que, e tudo isso junto tinha o efeito de uma avalanche no emocional das pessoas, que passavam a agir com a urgência e a sofreguidão de quem sentia o apocalipse se aproximando a cada segundo. Mas por que diabo alguém se interessaria em saber o que acontece numa cidade onde sopra esse tal de vento noroeste? No máximo os habitantes da própria cidade. E mesmo eles talvez achassem que tudo aquilo não passava de delírio de um forasteiro desequilibrado que, apesar de viver a tanto tempo na cidade, ainda se impressionava com um ventinho à toa. De qualquer forma, não havia nenhum vento noroeste soprando naquele momento. Por isso, resolvi voltar para o meu quartinho de hotel barato. Na época em que possuía uma casa, ou algo que se aproximava um pouco de um lar, costumava fantasiar sobre como seria eu, sozinho, morando num pequeno quarto na área central e degradada da cidade, próximo ao porto. Não tinha idéia por que tais pensamentos passavam por minha cabeça. Talvez uma premonição…quarto.jpg De qualquer forma, o caso é que agora me encontrava exatamente naquela situação: sozinho, num pequeno quarto, na área central da cidade, vizinho a um porto onde os navios nunca paravam de chegar e partir. Ronaldo, o sujeito que morava no quarto ao lado, disse que era fácil. Bastava estender um fio entre a minha janela e o poste em frente, que ficava a pouco mais de três metros de distância. Mas o que eu iria fazer com uma televisão no quarto, se tinha me enfiado aliaparelho_tv.jpg para escrever? Pensando bem, a TV podia ser útil para me dar idéias – e principalmente para evitar que eu enlouquecesse de vez, quando ficava horas deitado na cama, olhando o teto e esperando que “algo” acontecesse. Dois dias depois, o “gato” estava pronto e a TV, comprada numa decante loja de aparelho usados, já funcionava a todo vapor.

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O que aconteceu depois talvez possa ser explicado por uma série de teorias sócio-político-culturais, que agora não vêm mais ao caso. O importante é que aquele pessoal estava sendo sincero. Percebi bem isso quando vi, na tela da velha televisão, David Crosby cantando, enquanto Stephen Stills, segurando um bebê recém-nascido no colo, fazia vocal de fundo. A cena era de um show num grande estádio, nos primeiros anos da década de 70. Um bom assunto para se escrever, sem dúvida. Fui até a mesinha, peguei a caneta e coloquei no papel: “Aquele pessoal estava sendo sincero”.csnysm.jpg E daí?, pensei. E daí que aquela frase seria uma ótima introdução para um artigo ou mesmo um ensaio sobre o movimento hippie e a contracultura, enfocando apogeu e queda e aquelas coisas todas. Ficava olhando para Crosby, já começando a ficar careca, mas ainda “cabeludo”, e me lembrando que, pouco tempo depois, ele acabaria sendo encarcerado, em conseqüência de mix letal de tráfico e dependência química. Lembrei também que Dylan, em seu livro de memórias, citava Crosby, “um grande amigo”, como alguém que, como o próprio Dylan, vivia tendo de travar longas batalhas com seus “demônios interiores”. bob-dylan-5366.jpgEu também tinha demônios dentro de mim, vários deles. Na verdade, vivia descobrindo novos demônios à medida que ficava mais velho, o que era uma incoerência, já que as pessoas, com o passar dos anos, costumavam aprender a lidar melhor com seus demônios conhecidos, em vez de ficarem descobrindo novos diabinhos. E aquele bebê no colo do Stills, qual teria sido o destino dele? Bom, de qualquer modo, Crosby, depois de uma série de desastres, continuava vivo, com um fígado transplantado, mas bem, tão bem que prosseguia animadamente com seus ataques ao governo norte-americano, agora centrados no tal Bush filho. Aliás, os outros três, isto é, o próprio Stills, o Nash e o Young também continuavam vivos, e aparentemente bem. Sem dúvida a televisão dava ótimas idéias, mas eu não consegui ir além do “aquele pessoal estava sendo sincero”. Então levantei da mesinha, voltei para a cama e continuei zapeando a TV a cabo. O Ronaldo até que era um bom sujeito, embora ele estivesse desaparecendo…

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Capítulo IV

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Não imaginei que ele fosse entrar, mas ele entrou. – Vejo que você aceitou a minha sugestão, disse, apontando para a televisão ligada. – O problema agora é que não consigo dormir se ela não estiver ligada. Aliás, eu não consigo desligá-la nunca. Acho que qualquer hora ela vai explodir. – Essas coisas são resistentes, principalmente as mais velhas. – É, mas tudo tem um limite. – Você se importa? trompete.jpg– Já te expliquei que isso agora me incomoda um pouco. – Então eu deixo pra depois”, disse ele, guardando o cachimbo no bolso. Ronaldo devia ter mais ou menos a minha idade e, contra todas as previsões – e contrariando também algumas leis básicas da fisiologia e biologia –, continuava vivo. Volta e meia, quando estava em condições de articular as palavras numa seqüência mais ou menos lógica, vinha até o meu quarto, com a desculpa de que queria ler o que eu andava escrevendo. Embora nunca lesse uma linha, passava horas me contando passagens da sua vida, ou do que ele imaginava que fosse a sua vida. Em algumas ocasiões, ele me contava histórias sobre um jornalista de sucesso. Noutras, sobre um pintor e músico obscuro, que quase nunca conseguia vender suas telas e jamais gravara uma de suas composições. Às vezes, dependendo da qualidade da história e da precisão dos detalhes que ele me relatava, tinha certeza de que, sem dúvida, Ronaldo havia sido o jornalista. Noites depois, porém, eu era capaz de jurar que, com toda a certeza, ele tinha sido o pintor que tocava guitarra. De qualquer forma, Ronaldo agora já não era nem uma coisa nem outra, porque ele estava desaparecendo. Por enquanto, contudo, ele estava bem ali, na minha frente, contando sobre o dia em que, depois de pintar por horas, acabou deitando e adormeceu. Como pintava no mesmo lugar onde dormia, o ambiente vivia impregnado com o cheiro forte das tintas e dos solventes. bluesman.jpgNaquela noite, Ronaldo acordou no meio da madrugada com dificuldade de respirar. Foi até a cozinha e tomou um copo de água gelada. Quando retornava para a cama, começou a sentir uma série de sensações estranhas, semelhantes às provocadas pela ingestão de algum alucinógeno. Acordou com o sol já alto e a guitarra nas mãos. Percebeu que o amplificar e o gravador estavam ligados. Foi até o gravador, voltou a fita e colocou pra tocar. Sua guitarra desenhava um solo sinuoso e que, aparentemente, se estendia por todo aquele lado da fita. Era coisa de qualidade, avaliou. Lembrou no ato que o famoso rif de “Satisfaction” havia surgido de forma semelhante. Keith Richards tinha adormecido tocando guitarra e com o gravador ligado. De manhã, ou seja lá a hora em que ele acordou, “descobriu” que havia inventado uma nova música. Talvez a sorte estivesse mudando, pensou Ronaldo. Saiu para resolver algumas coisas na rua e só voltou pra casa à noite, ansioso pra ouvir mais uma vez a misteriosa gravação sonâmbula feita durante a madrugada. Logo ao entrar no prédio, percebeu, ao longe, mas alto o suficiente para ser motivo de reclamação dos vizinhos, o som abafado de uma bateria e de guitarras desnorteadas. Lembrou então que havia marcado um ensfender_1.jpgaio com o pessoal da banda. Aquilo o contrariou um pouco. Queria ficar sozinho pra ouvir com calma a gravação sonâmbula e trabalhar em cima do que estava registrado no gravador. Bom, paciência. O pessoal já devia estar tocando há bastante tempo. Logo os vizinhos começariam a reclamar e eles teriam de parar. Obviamente o pessoal iria sugerir que fossem para o bar mais próximo e dali em diante tudo poderia acontecer. Mas, naquela noite, Ronaldo iria recusar, dizendo que não estava se sentindo muito bem. Ficaria em casa para, finalmente, ouvir novamente a gravação sonâmbula. Sua chegada no apartamento não interrompeu o ensaio. Com exceção de um dos guitarristas, que estava de olhos fechados viajando em seu próprio solo sem rumo, os demais membros da banda cumprimentaram Ronaldo com leves acenos de cabeça. Ronaldo sentou no chão, num dos cantos da sala, e ficou ouvindo o pessoal tentando e não conseguindo tocar alguma música que ele também não conseguia identificar, o que, em se tratando daquela banda, não era novidade. Então Ronaldo relaxou e fechou os olhos. Quando os abriu novamente, percebeu que o gravador estava ligado. Foi até o aparelho e constatou que a fita estava girando. Os caras estavam gravando aquela merda que eles estavam tocando bem em cima da sua tão preciosa gravação sonâmbula. buddyguystrat___fender_1000.jpg – PÁRA ESSA PORRA!, berrou Ronaldo. Apesar do volume dos instrumentos, o grito de Ronaldo foi tão alto e desesperado que todos ficaram paralisados, olhando para ele e tentando entender o que estava acontecendo. Ronaldo voltou a fita do gravador e colocou-a para girar seguidas vezes. Nada! Não se conformou e repetiu seguidas vezes a mesma operação. Nada! Absolutamente nada! – O que foi?, perguntou o baterista, o primeiro a ter coragem de se dirigir a Ronaldo. Ronaldo estava parado diante do gravador, olhos fixos na fita, sem pronunciar uma palavra. Ficou assim por um longo tempo. Depois, virou-se para os demais membros da banda e disse: – Nada, gente. Não foi nada. Piração minha. Continuem tocando, enquanto os vizinhos não ficam putos. Parece que, para certas pessoas, a sorte não muda nunca!

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Capítulo V

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“Binóculo russo”

Estava sentado ali, apenas sentado ali. Poderia estar recordando mil coisas, planejando mil coisas, mas estava apenas sentado ali. Então alguma coisa começou a acontecer, algo se mexendo dentro dele, pulsando, palpitando. Tentou lembrar se havia tomado o remédio para a pressão, pela manhã. Sim, havia feito isso. A pulsação, a palpitação, aquilo mexendo dentro dele, não tinha, portanto, nada a ver com o início de uma crise hipertensiva. Isso o tranqüilizou um pouco, mas aquela coisa dentro dele continuava a se mexer. Às vezes parecia querer saltar para fora, por dentro de sua garganta, mas, como sua boca estava fechada, a “coisa” batia contra algo que parecia ser seu esôfago e voltava para o seu peito, pouco antes de mergulhar em algum tipo de material líquido e pegajoso, que ele imaginava ser o seu estômago, bem próximo ao seu intestino. Ele, porém, continuava ali, sentado, como se a feroz batalha que se travava dentro de sua pele simplesmente não estivesse acontecendo. buque.jpgAfinal, o que o havia impedido de comprar flores, um pouco antes, no meio da tarde? Passou por três floriculturas, imaginou diversos tipos de flores sobre o móvel da sala de casa, depois pensou na hipótese de, em vez de flores, comprar uma planta. Imaginou diversos tipos de plantas em cima de diversos móveis da sala, mas acabou desistindo de comprar seja lá o que fosse. Agora, sentado ali, sentia-se um pouco frustrado por não ter comprado nem flores, nem plantas, nem o binóculo…ah, sim, o binóculo. Ele também havia pensado em comprar um binóculo que estava exposto numa banca de jornal. Chegou a pedir à vendedora para examiná-lo. Era um binóculo grande, todo preto. Letras brancas gravadas perto das lentes avisavam que aquilo tinha sido fabricado na Rússia, obviamente depois do desmantelamento da União Soviética. Levou o binóculo aos olhos e teve dificuldade para ajustar o foco. soligoralp8-24gif.jpg Finalmente conseguiu focar um carrinho de pastel e vários rostos de pessoas que passavam por seu campo de visão. Tirou o binóculo dos olhos e percebeu que o carrinho de pastel estava bem longe, na outra esquina, o que significava que o binóculo tinha um alcance considerável. Perguntou o preço à vendedora. Achou muito caro. A vendedora disse que podia parcelar, no cartão de crédito. Não, ele não ia comprar o binóculo. Não parecia uma boa idéia comprar um binóculo caro, fabricado na Rússia e vendido numa banca de jornal. Mas agora, sentado ali, continuava pensando em comprar um binóculo, naturalmente não tão caro, de procedência menos exótica e que estivesse à venda em um local menos improvável do que uma banca de jornal…talvez numa ótica ou numa loja de equipamentos fotográficos, por exemplo. Continuava sentado ali. Percebeu, de repente, que aquela coisa, dentro dele, havia-se acalmado, sabe-se lá por que.

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Capítulo VI

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– Onde você pretende chegar com isso? – Quem faz as perguntas primeiro sou eu. – Tudo bem. Manda. – Como diabos você me encontrou? – Você é um cara previsível. – Mas nem eu sabia para onde iria. – Duas vezes. – Duas vezes o quê? – Por duas vezes eu previ para onde você iria. Primeiro quando foi tentar se esconder naquela praia. Depois, quando quase pirou por lá e resolveu tentar se esconder aqui. – Como você fez isso? – Talvez um dia eu te explique, mas no momento não posso falar sobre isso. la.jpg– Por que esse papinho de mistério? – Não se trata de mistério. É que simplesmente você ainda não está preparado para entender essas coisas. – Tudo bem. Você é uma lagartixa de Vênus, a única espécie viva que consegue sobreviver em Vênus. Com seus poderes extraterrestres, está estudando o comportamento humano para preparar uma invasão de bilhões de lagartixas do seu tipo no planeta Terra. – Tudo é possível. – E eu devo ser a sua cobaia humana. – Tudo é possível. – Você continua irritante. – Você também. – Afinal, o que você veio fazer aqui? – Ver como você está se saindo. – Estou tentando escrever um livro. – De novo? Ou seria melhor perguntar: ainda? oculos.jpg – É, de novo. Ou ainda… – E o que aconteceu com o outro livro? – Qual? – Aquele que você estava escrevendo lá no “nosso” quartinho do fundo do quintal. Você fez uma retirada teatral, com aqueles efeitos especiais de deixar a luz acesa, o computador ligado. Mas eu não acredito que você tenha se mandado assim, sem ter pelo menos salvado em qualquer lugar aquelas coisas que você andava escrevendo. _ É.capa-copy.jpg _ É o quê? _ Eu fiz isso. Salvei tudo num CD. _ E então? _ E então não gostaram muito. _ Quem não gostou de quê? _ As pessoas pra quem eu mostrei não gostaram muito da porra do livro que eu escrevi. _ O que elas disseram? _ Bom, na verdade, algumas até gostaram. Pra ser sincero, ninguém disse que não gostou. Teve até gente que gostou bastante, mas achou muito curto. _ Mas você não explicou que era uma questão de estilo? _ Expliquei, e as pessoas até entenderam. Mas acho que no fundo elas gostariam que fosse um pouco mais longo. E também teve gente que achou o livro meio confuso, sem pé nem cabeça. E teve também quem não deu retorno algum. Acho que não tiveram nem saco de ler. Mas o pior mesmo foi um cara que me mandou um e-mail dizendo que tinha achado o livro um “esboço interessante”, que poderia, “se bem trabalhado”, render uma “boa história”. Aí eu respondi que “aquilo” já era “a história”. Ele não tocou mais no assunto. _ Aí você resolveu sumir de verdade. _ Como sumir de verdade? _ Ora, porque quando você deu o fora lá do “nosso” quartinho do fundo do quintal foi mais encenação do que qualquer outra coisa, não é? Pelo que você está contando, você ainda ficou pelas redondezas uns tempos, imprimindo cópias do livro, mandando para as pessoas e esperando a reação delas. _ É, foi mais ou menos isso, mas, quando vi que ninguém tinha se entusiasmado muito, resolvi procurar um lugar isolado para tentar escrever outro livro. _ Parece que não está sendo muito fácil. _ Tô meio travado. _ Esse troço de “Binóculo Russo” é parte da tentativa? _ Isso pintou de repente ontem à noite. O que você achou? _ Tá meio estranho. O que é? Um conto curto, o começo de uma história…? _ Ainda não sei. _ Enquanto você decide, me explica uma coisa. Por que aquela encenação toda do seu sumiço do “nosso” quartinho? imagen_cabana02.jpg_ A princípio não foi encenação. Quando acabei de escrever “A Coisa”, eu estava decidido mesmo a sair andando. Mas quando cheguei no portão de casa, pensei:’Por que não levar comigo o que andei escrevendo nos últimos tempos? Talvez aquilo, afinal, tenha algum valor’. Então voltei ao quartinho e copiei tudo num CD. Só que, enquanto gravava a mídia no computador, tive outra idéia: ‘Por que não imprimir algumas cópias daquilo – que na minha cabeça já tinha se transformado num livro -, mandar para algumas pessoas e pedir sua opinião?’ Então, enquanto me encaminhava para uma lan house para fazer as cópias, pois a impressora no quartinho estava sem tinta, já tinha me convencido de que meu livro poderia ser até mesmo uma obra-prima inovadora, o clássico de uma geração e outras besteiras do tipo que seriam ressaltadas nas inúmeras críticas favoráveis escritas sobre o meu trabalho nos principais jornais e revistas do país e, por que não, do mundo. _ Você poderia pelo menos ter deixado um recado. _ Pra quem? _ Pra mim.

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Capítulo VII

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Talvez algumas pessoas nasçam para atuar na cena, outras para serem meras espectadoras. Tentava descobrir de que lado eu tinha nascido. Ficar para sempre na platéia era uma perspectiva desanimadora. O problema é que, em geral, me sentia sem as mínimas condições de subir no palco. Pensava nisso, com os olhos fixos na claridade da televisão, quando ouvi algumas batidas na porta do quarto. quarto.jpgRonaldo queria saber se eu tinha uma caneta (servia um lápis) para emprestar. É claro que eu tinha uma caneta para emprestar, várias canetas, aliás. Era uma das minhas obsessões: comprar canetas, as quais, na maioria das vezes, acabavam sendo jogadas fora sem nunca terem sido usadas, pois a tinta em suas cargas secava justamente pela falta de uso; e é lógico que eu nunca pensava na possibilidade de comprar cargas novas. Testei uma caneta numa folha de papel, para ver se a tinta ainda não tinha ressecado e a entreguei a Ronaldo. azul.jpgEle olhou pra caneta, sentou na cadeira ao lado da cama e disse: “Nossa, que coincidência! É igualzinha a que eu usava quando comecei a trabalhar no jornal. Será que isso quer dizer alguma coisa?” _ O que?, perguntei. _ O fato de você ter me emprestado uma caneta igual àquela que eu usava quando entrei no jornal, ele respondeu. – É uma caneta comum, daquelas que a gente compra em camelô de esquina. _ Eu sei, até porque, no dia em que eu estava indo para o meu primeiro dia de trabalho no jornal, lembrei que não tinha caneta. Aí passei por um camelô e comprei uma, igualzinha a esta aqui que você me emprestou. _ Bom, e o que você acha que isso pode querer dizer? _ Não sei, essas coisas são misteriosas. Pode ser uma mensagem, uma mensagem significando que eu devia voltar a ser jornalista. Suspeitei que Ronaldo já estivesse chapado (sabe-se lá de que) àquela hora da manhã. Mas resolvi continuar com aquela conversa maluca sobre canetas, coincidências e mensagens misteriosas, até porque aquilo tinha me distraído da angustiante reflexão solitária sobre ser “ator ou platéia no palco da vida”. diamoniteesfazulg2.jpg_ E você escreveu muito com aquela caneta, no primeiro dia de trabalho? _ Por incrível que pareça, não escrevi nada com ela naquele dia. Estava há pouco tempo na redação. Meu futuro chefe me explicava algumas coisas sobre o funcionamento do jornal, quando o telefone tocou dizendo de tudo tinha explodido! _ Explodiu, é? O quê? _ Uma vila… _ Uma vila? _ Era uma favela, eles chamavam de vila… _ Mas como é que a vila ou a favela explodiu? _ Ninguém sabe direito até hoje, talvez tenham atirado um fósforo. _ Mas como é que uma favela, ou uma vila, explode só porque alguém atira um fósforo? palafitas.jpg_ Por causa da gasolina. _ Que gasolina? _ Aquela que deve ter vazado e misturado com a água. _ Água? _ A água do mangue…a vila, que dizer, a favela era em cima do mangue. _ E de onde veio a gasolina? _ Nunca ficou definitivamente provado, mas deve ter vazado dos canos que transportavam gasolina de uma refinaria próxima. Os canos passavam debaixo das casas. _ Mas por que as pessoas construíram casas em cima dos canos? Elas não sabiam que era perigoso? _ Em que planeta você vive, cara? É lógico que elas sabiam que era perigoso, mas entre se arriscar e não ter onde morar, elas preferiram se arriscar. E também não sei se aquelas coisas podiam ser chamadas de casas…uma porção de madeiras podres pregadas umas nas outras em cima daquela água suja e fedida….em que planeta você vive, cara? De repente, percebi que se havia alguém viajando naquele quarto era eu. Ronaldo, tivesse ou não tomado, fumado ou cheirado sei lá o quê, estava totalmente lúcido. Afinal, em que porra de planeta eu vivia? Quase que pra me desculpar, voltei para a conversa da favela, ou vila, que explodiu. _ Mas exatamente como aconteceu? _ Então, meu futuro chefe, que já passou a ser meu chefe naquele momento, disse que eu tinha que ir ver o que havia acontecido, porque todos os outros repórteres estavam na rua, fazendo outras coisas. Aí ele me apresentou um fotógrafo, um tal de Romão, e mandou a gente descer, pegar a viatura e ir pro local da explosão, do incêndio ou do que seja lá que tivesse acontecido. _ E como foi? cfoto039c.jpg_ Loucura, loucura! Só tinha cinza, cheiro de coisa queimada e gente chorando e correndo pra todo o lado. O tal do Romão também começou a correr de um lado para o outro, apertando o botão da máquina que nem alucinado, até que um sujeito, um cara negro que devia ter uns dois metros de altura, sei lá por que, deu uma porrada na cara dele, quer dizer, deu uma porrada na máquina dele, que estava na cara dele. O Romão começou a sangrar e uma menina de uns cinco ou seis anos do meu lado começou a chorar e a gritar pela mãe. Eu não sabia se acudia o Romão ou a menina, quando alguém gritou: “Vai explodir de novo, vai explodir de novo!”. Com uma mão eu segurava o ombro do Romão, com a outra o braço da menina, aí eu vi um bombeiro dizendo “alarme falso, é alarme falso”, mas a essa altura todo mundo já estava correndo, algumas pessoas se jogando no mangue e gritando que lá ainda estava cheio de gasolina e que ia “explodir, explodir”. Um sujeito todo sujo de cinza e óleo apareceu na minha frente, quase encostou a cara na minha e berrou: “Seus putos, só agora é que vocês aparecem?” Fiquei olhando nos olhos dele e respondi, sei lá por que: “Mas nós tentamos”. “Seus putos, seus putos”, ele continuou berrando enquanto se afastava como se estivesse falando com ele mesmo. Não sei direito como aconteceu, mas de repente eu estava ajudando os bombeiros a acalmar as pessoas que haviam perdido suas casas. Um dos bombeiros se dirigiu a mim, querendo saber se já havia um levantamento preliminar do número de mortos. Respondi que não, pensando que era eu quem deveria estar fazendo essa pergunta a ele. Foi então que me lembrei que era jornalista e estava no meu primeiro dia de trabalho. 060803_com_bombeiros01.jpgPor falar nisso, onde estaria o Romão? Sai andando pelos escombros queimados, tropecei e caí no mangue. O cheiro de gasolina era realmente forte ali dentro, tão forte que não dava pra sentir os outros cheiros ruins que com certeza aquela água preta normalmente exalava. Percebi uma mão estendida e peguei nela. Era um policial que me perguntou: “Você é da imprensa?”. Respondi que sim e ele me disse: “Seus companheiros estão procurando por você. Eles estão lá do outro lado.” Do outro lado de onde? Inútil, o policial já tinha se mandado. Caminhei em círculos durante um tempo até que divisei a viatura do jornal, com o motorista e Romão encostados nela. Romão, apesar do corte profundo no rosto, que ainda sangrava, continua apertando freneticamente o disparador de sua máquina fotográfica. “Onde diabos você se meteu”, perguntou o motorista. “Estava por aí, vendo umas coisas”, respondi. “Vamos voltar pro jornal. Eles estão mandando uma outra equipe pra substituir a gente aqui”, completou o motorista. incendioportugal051rp.jpgFazia sentido, voltar para redação, para que eu escrevesse sobre o que tinha acontecido até ali e Romão descarregasse as suas fotos. Só quando cheguei à redação é que percebi o quanto eu estava sujo, coberto de fuligem e sei lá mais o quê. _“Vá se lavar e comece a escrever”, disse o chefe de

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reportagem. Fui até o banheiro, lavei o rosto, as mãos e os braços até os cotovelos. Sentei na máquina de escrever e só levantei quase duas horas depois. Entreguei o que tinha escrito para a chefe de reportagem, que havia substituído o meu primeiro chefe. Aí ela me disse: “Vá pra casa descansar um pouco. Amanhã você volta pra lá.” “Pro inferno?”, perguntei. “É, pro inferno”, ela respondeu sorrindo. Quando cheguei na rua e fui procurar algum dinheiro nos bolsos para pagar a passagem do ônibus, encontrei a caneta que havia comprado do camelô quando estava indo para jornal, naquela manhã. Percebi então que não tinha feito nem uma anotação, enquanto estive no inferno.

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Capítulo VIII

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“É difícil sobreviver àqueles dias em que você sabe que tem de recomeçar mais uma vez, mas não consegue acreditar que nada do que construiu até ali se sustenta nas próprias pernas. É pior do que fazer castelos de areia Castelos de areia ainda têm chance de ficar de pé, enquanto o mar não avança, e enquanto o mar não avança você pode pensar em alguma rota de fuga ainda não cogitada. Contudo, construir sobre o vento é sempre prenúncio de tempestade.” Havia virado uma doença nos últimos dias. Diálogos e mais diálogos surgiam do nada e eu compulsivamente os registrava no papel. Mas eram só isso, diálogos, diálogos entre personagens fantasmas que eu não conseguia nunca materializar.

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Fui até a janela e fiquei contrariado porque não estava chovendo, mas provavelmente também ficaria contrariado se por acaso estivesse chovendo. “Há um pássaro enlouquecido preso entre meu estômago e meu coração. Se quisesse, poderia soltá-lo, mas já me acostumei com o seu bater de asas desesperado dentro de mim. Já não poderia mais viver sem ele, eu e meu pássaro enlouquecido, entre meu estômago e meu coração.”

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Durante vários minutos procurei meu maço de cigarros pelo quarto e só quando desisti é que me lembrei que havia deixado de fumar há pelo menos dois anos. Esses sinais progressivos de insanidade vinham se tornando mais freqüentes nos últimos dias. Sabia que estavam relacionados ao surgimento incontrolável dos diálogos entre os personagens fantasmas. A descoberta, porém, não resolvia nada. Os diálogos continuavam seu fluxo obsessivo e minhas pirações estavam tão ostensivas que até eu as percebia com extrema “lucidez”. “Então era como se, por várias vezes, estivéssemos à beira do precipício e soubéssemos que, ao contrário do que nos disseram, o salto no abismo não nos levaria para a morte, mas para o renascimento, em direção à verdadeira vida. No entanto, medrosos como sempre, evitávamos encarar nosso próprio rosto do outro lado da margem.” halls2.jpgBati várias vezes sem que houvesse qualquer sinal de vida dentro do quarto. Afinal ouvi a voz de Ronaldo: – Que porra? – Sou eu. Passaram-se pelo menos dois ou três minutos antes que Ronaldo enfiasse a cara na fresta da porta para se certificar de que eu era eu mesmo. – Entra aí, cara. Milagre você aparecer…Tudo certo? – Acho que estou pirando… – Bom, pra gente como nós isso não chega a ser novidade… – Mas é outro tipo de loucura. Fantasmas… – Você está vendo fantasmas? – Não, estou ouvindo fantasmas. – E o que eles dizem? – Coisas sem sentido. Diálogos entre personagens fantasmas que fugiram de alguma peça que estava sendo encenada em algum teatro abandonado, um teatro fantasma com uma platéia fantasma. – Acho melhor você sentar um pouco. Quer beber alguma coisa, água pelo menos…Olha, essas coisas acontecem quando a gente fica muito tempo sozinho, trancado…mas não esquenta não. Comigo também acontece e depois passa… cara1.jpgRonaldo estava visivelmente preocupado comigo. Em geral, o louco do corredor era ele, não eu. O fato de eu ter aparecido em sua porta falando de teatros abandonados onde personagens fantasmas recitavam diálogos sem sentido para uma platéia de zumbis deve ter sido demais até para ele. Após um breve instante de silêncio mútuo, Ronaldo resolveu dizer alguma coisa. – Exatamente sobre o que esses fantasmas falam? Você faz idéia?cara.jpg – Está tudo registrado. Eu escrevo tudo o que eles dizem. – Posso ir até o seu quarto pegar? – Pode, mas é loucura, é só loucura o que eles dizem… Pouco depois Ronaldo voltou ao seu quarto com os papéis que estavam espalhados por sobre minha mesa, com os “depoimentos” dos fantasmas. Ficou longo tempo lendo e depois me disse:

– Acho que você está parindo algum tipo de romance, roteiro de filme ou quem sabe uma peça de teatro mesmo. Só que está vindo tudo misturado, direto do teu inconsciente. Se eu acreditasse em espíritos, falaria em experiência mediúnica, mas como não sou chegado nessas coisas, acho que é uma experiência do inconsciente mesmo. Está jorrando direto do eu mais profundo, aí. Já vi isso acontecendo antes com algumas pessoas. Tinha um cara, quando eu estava em Londres, que só escrevia assim, vomitando. Tinha também uma menina em Estocolmo, fazia uma coisa parecida, só que era poesia. Você sabe, os beats também faziam coisa semelhante. Eu, se fosse você, não esquentava não. Aproveitava o fluxo, o jorro e mandava em frente, ver no que dá.

– Mas se não for nada disso? Se for só piração mesmo? – Ora, daí você pira e pronto. Não adianta ficar se preocupando agora. Por enquanto basta você se challs2.jpgonvencer de que é um escritor tendo um surto incontrolável de criatividade. Embora o que Ronaldo dizia não fizesse mais sentido do que os “diálogos fantasmas” que eu andava ouvindo e registrando, a sua conversa acabou me acalmando um pouco. E, de qualquer forma, como ele mesmo afirmou, por enquanto era melhor ser um escritor tendo um surto incontrolável de criatividade do que um louco em processo de progressiva e irreversível deterioração mental. Sendo assim, voltei para o meu quarto, fui até a janela e fiquei feliz porque tinha começado a chover.

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Capítulo IX

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Na verdade, fodam-se os fantasmas. Eu tinha a minha TV a cabo, minha cama, um teto sobre a cabeça e um resto de dinheiro guardado. Por que me incomodar com fantasmas dizendo coisas sem sentido em meus ouvidos? Aliás, por que me incomodar em escrever uma porra de um livro? De uma forma ou de outra, tinha sobrevivido até ali sem livro ou qualquer outra “obra de arte” que justificasse minha razão de existir. Daquele ponto em diante, faria como o Ronaldo. Simplesmente continuaria existiaparelho_tv.jpgndo. E vendo TV a cabo, é claro! E olhando pela janela pra ver se estava chovendo ou não. E ouvindo as histórias do Ronaldo. images4.jpgPronto, isso era o suficiente pra continuar vivo, pelo menos até que o dinheiro pra comer e pagar o quarto do hotel acabasse. Fodam-se os fantasmas, foda-se o livro, foda-se o sentido da vida. A questão entre me abrir ou não me abrir sempre foi problemática. Na dúvida, me fechei, mas acabaram me convencendo de que, para meu próprio bem, eu precisava me abrir. “O muro que protege dos fechas também protege das flores.” Volta e meia entrava nessa desse provérbio zen, ou taoísta, sei lá. Derrubei o muro e fiquei vulnerável como uma criancinha estúpida. Parece que a quantidade de flechas é sempre maior do que a de flores.quarto.jpg Diabos, tinha prometido a mim mesmo não pensar mais sobre essas coisas e ficar simplesmente aqui, vendo TV a cabo. Continuo com os olhos fixos da tela da TV, um filme policial cheio de explosões e tiros continua rolando, mas eu continuo pensando, pensando, pensando… Ronaldo bateu na porta. Queria saber se eu estava melhor. – E os fantasmas, como estão? – Acho que entramos num acordo. Estou tentando não incomodá-los e parece que, por enquanto, eles também resolveram não me incomodar. Podemos muito bem dividir o mesmo quarto, embora o espaço não seja lá muito grande. _ Tem certeza de que você está bem mesmo? – Claro. Senta aí, vai começar um filme, ficção científica antigo, deve ser interessante. – Escuta, você já pensou em arrumar um computador? computer3.jpg– Um computador? Cara, às vezes fico pensando se almoço ou janto, ou se não faço nem uma coisa nem outra, pro dinheiro esticar um pouco mais, e você vem me falar de computador. – Seguinte, uma tia minha morreu, a tia Carlota. Ela tinha pouca grana, mas não sei por que resolveu fazer um testamento e, nesse testamento, também não sei por que, já que eu não a via há séculos, ela me deixou um computador velho de herança. – Então pega o computador e põe no teu quarto. – Você sabe que no meu quarto eu não quero nada, nem mesmo radinho de pilha. – Então vende a porra do computador. Afinal, você precisa de dinheiro, ou não? – Até preciso, mas acho que o computador já é velho e, se eu conseguisse vender, ia dar uma mixaria. Além disso, tem um lado sentimental assim, não queria vender a única coisa que a tia Carlota me deixou, embora eu já nem lembrasse mais que eu tinha uma tia Carlota. – Mas o que eu ia fazer com um computador? – Bom, meio óbvio que uma primeira utilidade ia ser escrever, já que essa tua maquininha aí tá podrona. – Mas aí eu ia ter que gastar mais dinheiro, porque ia ter que imprimir o que eu escrevesse na porra do computador… – Ora, você podia ir simplesmente salvando as coisas. Depois, quando pintasse uma grana extra, você imprimia, ou mandava pra editora em disquete mesmo. capa-copy.jpg – Eu desisti de escrever a bosta do livro. – Não brinca, por quê? Parece que estava indo tão bem. – Tava ficando louco, mas deixa pra lá. Não quero o computador não. Se você não quer ficar com ele, vende. Um troco a mais é sempre bom. – Bom, você que sabe. Mas, olha, dizem que escrever em computador é muito bom, dizem que as coisas fluem rapidinho, as idéias ficam mais claras… – Eu já escrevi muito em computador. Isso tudo é besteira. -Bom, como eu disse, você é que sabe. Vou até meu quarto, trocar de roupa e buscar o tal computador na casa da minha falecida tia, tadinha dela. De onde será que a tia Carlota tirou essa idéia de me deixar um computador de herança?

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Capítulo X

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Às vezes temos um vislumbre, mas é apenas um vislumbre. E mesmo assim nem temos certeza de que por aquela estreita fresta chegamos e enxergar um pouco do real, sem o grande e denso véu que nos embota a visão e os demais sentidos durante a maior parte de nossas vidas. Então a fresta se fecha e, como aquele monge, nos perguntamos se estávamos sonhando que éramos uma borboleta ou se somos uma borboleta sonhando que somosborboleta1.jpg humanos. E ficamos aqui, aguardando que algo aconteça. E mesmo nesses momentos nos parece claro que, se tivermos a paciência necessária e continuarmos esperando no mais absoluto silêncio, exatamente aquilo que tanto esperávamos acaba acontecendo, embora não soubéssemos do que se tratava. Quanto a mim, nunca tive essa paciência, e estava praticamente convencido de que jamais a teria. Alguém batia na porta do quarto com a urgência de quem vem avisar que o prédio está em chamas. Quando abri, dei de cara com Ronaldo, segurando uma torre de computador. – Agüenta aí, disse ele, me entregando a torre. pc.jpgPoucos segundos depois voltou, carregando um monitor. – Tá aí! – O computador velho da sua tia. – É, o computador da tia Carlota. Sabe, eu pensei melhor e acho que o computador tem que ficar aqui mesmo, no seu quarto. – Mas eu disse que não queria o computador, que era pra você vender. monitor1.jpg– Eu vou vender, eu vou vender. Mas enquanto eu procuro um comprador, guarda ele aqui, por favor. – Por que você não guarda no seu quarto? – Porque no meu quarto… – Já sei, já sei. No seu quarto você não quer nem radinho de pilha. Tá bom, bota esse troço aí no canto. – A gente podia dar uma ligadinha, pra testar, ver se está funcionando mesmo.

Era inútil resistir. Tirei a pequena máquina de escrever de cima da mesinha, encostei a mesa na parede, perto da tomada da televisão. Demonstrando uma inesperada habilidade com plugs e fios, Ronaldo instalou a máquina e começou a testá-la.

_ É velhinha, mas nem tanto, e está em bom estado. Deixa eu fazer um ajustes aqui. Dito isso, Ronaldo passou longo tempo apertando teclas e mexendo na máquina até que pareceu ter ficado satisfeito. – Legal, agora é só ligar a Internet. – E como você pretende fazer isso? Ronaldo foi até a janela e me chamou. poste2.jpg– Tá vendo esse poste, de onde você puxou os fios pra TV a cabo? Então, é só arrumar mais um fio e puxar a Internet para o computador. Hoje tá tudo à disposição por aí, é só uma questão de puxar fiozinhos pra lá e pra cá. Não sobrou nenhum pedaço daquele fio que você comprou pra TV a cabo? Fui até o armário e peguei o saco plástico de supermercado onde tinha guardado um pedaço de cabo que, por distração, não havia jogado fora após instalar a TV. Ronaldo se pendurou na janela e, depois de amarrar uma das pontas do cabo no fecho da veneziana, lançou a outra ponta, que ficou pendurada em alguns fios que saíam do poste. – Agora vou ter que dar uma descidinha. Agüenta aí! Da janela acompanhei Ronaldo escalando o poste, apanhando a ponta do fio que estava pendurada nos outros fios e, de alguma forma, conseguindo ligá-la na grande caixa de metal de onde já saía o cabo que trazia imagens para a minha TV. Pouco depois Ronaldo estava de volta ao quarto. – Seguinte, temos que levar essa mesinha mais pra perto da janela, porque o cabo é curto. Tem outra tomada perto da janela? – Não, a única tomada é a da televisão. Ronaldo saiu novamente do quarto e voltou com uma longa extensão, que permitiu levar a eletricidade até as proximidades da janela. Mudamos a mesinha e o computador da tia Carlota pra perto da janela. Ronaldo começou então a mexer de novo nos fios, nos plugs e nas teclas. Depois de uns cinco minutos, anunciou: _ Já estamos navegando!

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Capítulo XI

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De repente vi o cara ali, vasculhando o lixo e escolhendo o que comer. Ok, isso acontecia a toda hora, em todo lugar. Já devia estar acostumado, e na verdade estava. Só que, de repente, aquele cara ali, remexendo no lixo, em frente à entrada do hotel me chamou a atenção de novo. Subi, liguei o computador e me preparei para escrever alguma coisa sobre aquilo, aquele cara vasculhando o lixo e escolhendo alguma coisa pra comer. negativo-6.jpg – Agora a coisa vai. – Você de novo. Por favor, não! – Sem crise, sem crise. Só estou dizendo que agora, com esse computador da tia Olga, o livro vai acabar saindo. -Talvez, se você sumisse. E não é tia Olga, a dona do computador era a tia Carlota. Por que você não me deixa em paz? – Você prefere os fantasmas? – Que fantasmas? _ Aqueles que dizem coisas malucas nos seus ouvidos? – Você continua me espionando? – É que eu me preocupo com você. Não quero que você se atire da janela. negativo-3.jpg – E quem disse que eu vou me atirar da janela? – Vocês sempre acabam fazendo isso. – Vocês quem? – Vocês, escritores, pintores, músicos, artistas fracassados em geral. – Nunca pensei em suicídio. – É assim que acontece. Vocês nunca pensam e, de repente, num belo dia, vocês acordam e não conseguem ver mais razão pra viver. Então, BUM! – Isso nunca vai acontecer comigo. Se tivesse de acontecer já tinha acontecido. – Quando? – Naquelas ocasiões em que estivesse no limite, a ponto de explodir. – E quem te garante que isso não vai acontecer de novo e, dessa vez, você não vai agüentar e vai mesmo explodir?revolver-gamo-r-77-combat4.jpg – Já passei dessa fase. – Pois eu acho que não se trata de fase, mas de jeito de ser. Vocês todos são muito autodestrutivos. _ Vocês quem, porra? – Já disse, vocês, que acham que são artistas, que acham que, se não criarem alguma bosta que possa ser considerada uma obra de arte, não vale a pena viver, ou melhor, vocês acham que não merecem continuar vivendo. – Eu não penso desse jeito. Já pensei, mas não penso mais. Aliás, já tinha decido abandonar essa história de livro. Só tive uma recaída por causa dessa merda de computador que o Ronaldo arrumou. Mas já me arrependi. Não vou fazer mais porra nenhuma. Só ver TV a cabo, comer, dormir, cagar e começar tudo de novo no dia seguinte. – É melhor você não fazer isso. É melhor você continuar tentando. – Tentando o quê? – Escrever um livro, fazer poesia, compor uma música, pintar um quadro, qualquer coisa que te faça acreditar que, apesar de tudo, você é um artista, só que ainda não encontrou a forma certa de se expressar.

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– É que tem horas… – Tem horas… – Sei lá. Dá vontade de jogar tudo pro alto. – Ou lá pra baixo, né, pra baixo da janela? – Lá vem você com essa história de janela de novo. Você por acaso já percebeu que estamos no segundo andar e que, se eu pular daqui, vou no máximo quebrar uma perna ou um braço? – A janela é apenas um símbolo. Há muitos outros métodos, mais fáceis e eficientes, você sabe. Você pode simplesmente estourar os miolos com aquele revólver que o Ronaldo guarda no quarto dele. – E quem te disse que o Ronaldo tem um revólver? Ele não tem nem uma porra de um radinho de pilha naquela porra daquele quarto, quanto mais um revólver. negativo-3.jpg– É um 38, meio enferrujado, mas garanto que funciona. – E por que o Ronaldo teria uma arma guardada no quarto dele? – Pergunta pra ele. Aproveita pergunta também se ele não empresta pra você. Aí você pode, BUM, estourar os miolos. – Escuta, me dá a impressão de que você quer é que eu faça isso mesmo. – O quê? – Estourar os miolos, me matar. – Você vai acabar fazendo isso, mais cedo ou mais tarde. Então é melhor apressar a coisa, resolver logo isso. – Eu não vou me matar. – Já disse que isso é inevitável, a menos que… negativo.jpg– A menos o quê? – A menos que você continue achando que é possível fazer alguma coisa que justifique você ter nascido e continuar vivvendo. _ E que tipo de coisa? – Não sei, talvez escrever esse tal livro, talvez pintar um quadro, fazer uma música, ou talvez cuidar de uma pequena planta num vaso…

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Capítulo XII

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O dia estava escurecendo de novo. Isso me deixava feliz, porque era sinal de que poderia chover forte, o que afastaria um pouco aquele calor insuportável da cidade, e do meu quarto, lógico. Era o máximo que se poderia esperar de um dia no meio de janeiro, praticamente na metade do verão, verão que, a cada ano, ficava mais e masinais-tempestade1.jpgis sufocante na cidade. Bom, não adiantava reclamar, afinal, na televisão imagens mostravam europeus reclamando de que a neve estava desaparecendo dos locais onde costumavam esquiar, além de americanos de Los Angeles se queixando de um inusitado frio de zero grau num estado que era considerado a “terra do sol eterno”. Paciência, estávamos todos sendo fritados aos poucos na frigideira planetária, mas pouca gente tinha tempo ou saco para pensar muito nisso. daniel-garcia-chuva.jpgEntão, era bom o dia estar escurecendo, porque, em breve, a cidade esfriaria um pouco e eu sairia para caminhar, pelo menos dois ou três quarteirões em torno do hotel, apenas para verificar se aquela pequena parte do planeta ainda continuava existindo. E foi isso que fiz, assim que um abençoado aguaceiro lavou as calçadas e as almas aflitas das redondezas, incluindo a minha. A sensação de “cidade lavada” era muito reconfortante. Mesmo aquela parte tradicionalmente “suja” da cidade parecia renovada e limpa após a pequena tempestade que havia caído. Duas prostitutas que saíam de um bar, onde provavelmente tinham entrado apenas para se abrigar da chuva forte, passaram por mim, sorriram e me deram “Bom dia”, embora já fossem mais de 3 da tarde. Eu retribuí, também com um sorriso e com um bom dia, sabendo que aquele repentino bom humor da parte delas era apenas efeito da “cidade lavada” pela chuva, já que eu, com certeza, não era um cliente em potencial, apenas um vizinho caminhando pelas ruas após o pequeno temporal. daniel-garcia-chuva1.jpgLembrei de um amigo já morto que dizia que a pessoa devia ter uma dor de cabeça todos os dias, para poder sentir o imenso alívio quando a dor, por efeito de analgésicos ou qualquer outra causa, fosse embora. Pensando assim, aqueles sufocantes dias de calor de janeiro seriam até bem-vindos, se durante suas tardes houvesse a bênção purificadora da chuva, lavando a cidade e as almas, incluindo a minha. Quando retornei ao meu quarto, percebi que havia esquecido de trancar a porta. Ao abri-la, me deparei com Ronaldo sentado no computador. – Desculpe aí a invasão, mas quando bati na porta ela simplesmente abriu. Como o computador estava ligado, resolvi dar uma navegadinha… – Sem problema. Afinal você não é ladrão nem polícia, e mesmo que fosse aqui não há nada que valha a pena ser roubado e nada que possa me incriminar, pelo menos eu acho. – É, você virou um “bom garoto”. Mas te garanto que, se eles quiserem, e eles estão sempre querendo, eles arrumam um jeito de foder com a tua vida. Então é bom trancar a porta do quarto. – Você já pensou em se matar? – Pergunta doida, né? Não, nunca pensei, por quê? – Nada especial. Estava pensando a respeito. – A respeito de se matar? – Não, a respeito de como alguém entra nessa, de se matar. – Acho que tem várias possibilidades, uma depressão muito profunda, uma doença incurável… revolver.jpg– Você se considera artista? – Como, artista? Eu já te contei, eu pintava uns quadros, tinha uma banda, fazia umas músicas, mas acho que nunca me achei, assim, um artista. – Por que não? – Ora, sei lá, talvez porque nunca tenha conseguido ganhar dinheiro com isso. – Então você acha que artista é só quem consegue ganhar dinheiro com o que faz? revolver1.jpg – Olha, não sei, mas eu queria ganhar dinheiro fazendo arte. – E você desistiu? – De quê? – De fazer arte. – Eu também já te contei que eu desisti de tudo. – E por que você continua vivo? – Bom, a única coisa da qual eu não desisti foi de ficar vivo. E pra continuar vivo a minha aposentadoria por invalidez ainda dá. – Mas você nunca teve vontade de se matar? – Já disse que não. – Mesmo desistindo de ser artista? – Não estou entendendo. Você por acaso continua ouvindo vozes, fantasmas, aquelas coisas? – Não, não, esquece. Esquece tudo isso. – Tá legal. Bom, vou nessa. Tchau! – Tchau! Escuta, você tem um revólver? – Tenho. Como é que você descobriu?

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Capítulo XIII

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Talvez fosse hora de voltar! Acordei com essa frase na cabeça, fui até o computador e a registrei na tela. Tudo bem, talvez fosse mesmo hora de voltar, mas voltar para onde? Na verdade, nos últimos anos, tinha dedicado grande parte de meu tempo a queimar as pontes que me ligavam ao passado. E por que exatamente havia feito isso? Não sabia explicar, apenas me deixei levar pela sensação de que, uma vez totalmente desconectado de meu passado, enxergaria com clareza o caminho a seguir. Alguma coisa, porém, não tinha dado errado.3.jpg Eu agora me sentia como um cego tateando paredes lisas de um túnel que parecia nunca terminar. E como é que um cego pode encontrar o caminho de volta, ainda mais depois de ter queimado todas as pontes que ficavam para trás? Não era a primeira vez que me sentia em situações limite, mas em nenhuma dessas ocasiões me ocorrera que a saída seria voltar para trás. – Até o útero da mamãe! – Olha, a última coisa que eu preciso, no momento, é da sua ironia estúpida. – Não estou sendo irônica. Pelo contrário, estou tentando ser solidária com a sua angústia, explicando que esse retorno, sobre o qual você está escrevendo, aí no computador, é muito mais profundo do que você possa imaginar. lagartixa-copy.jpg– Deixa de babaquice. Você só fala merda revestida de filosofia barata. – Ah é? Então me responde: o que você imagina que seja essa volta, pra onde você acha que deve e pode voltar? – Não sei, é apenas uma sensação de que o presente não tem sentido sem o nosso passado. – Parabéns, você acaba de descobrir que merda fede. E depois sou eu que faço filosofia barata. – Foda-se! – Antes eu vou repetir a pergunta: pra onde, no seu passado, você acha que deve voltar? Pra quando você tinha 5 anos, quando você viu a primeira mulher nua, quando você bateu a primeira punheta, deu a primeira trepada, tomou o primeiro porre, fumou o primeiro baseado, tomou o primeiro ácido, cheirou a primeira carreira, enfim, pra onde da porra do seu passado você quer voltar? oculos-2.jpg– Pensando bem, acho que não é uma questão tão existencial assim. Acho que essa coisa de “voltar ao passado” é uma espécie de insight criativo? – E que porra é isso? – É um toque pra eu, em vez de ficar procurando sobre o que escrever, começar a escrever sobre o meu passado. – Só que você não teve uma vida tão emocionante nem edificante assim pra merecer uma autobiografia. – Sabe, às vezes eu acho, aliás, acho, não, tenho certeza de que a sua única função nesta história é me deixar pirado de vez e fazer com que eu, realmente, me atire de cabeça pela janela ou, como você já sugeriu, estoure meus miolos. lagartixa.jpg– Nossa, eu só estou tentando ajudar, te dar uma força. – Me ajudar? Da última vez que você apareceu, você ficou o tempo todo tentando me convencer de que, se eu não continuasse a tentar escrever ou a fazer alguma coisa parecida com arte, eu ia acabar me matando. Agora que eu decido escrever a minha história de vida, você vem com esse papinho de que minha história não vale a pena ser escrita. – É que eu mudei de idéia. – Como mudou de idéia? – Acho que eu estava enganada. Acho que é justamente essa coisa de querer ser “artista” que uma hora pode fazer você querer estourar os miolos. Acho que é melhor você pensar naquela minha última sugestão. – Que sugestão, caralho! – Aquela da plantinha, lembra? Compra uma plantinha e fica cuidando dela. Acho que, pra você, só isso resolve. Uma plantinha já dá sentido pra tua vida. Pra que ficar complicando tanto?

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Capítulo XIV

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“Estou falando aqui do quarto de um hotel caindo aos pedaços, perto do porto da cidade. Engraçado que, mesmo vivendo tão perto do porto, não podemos entrar lá. No porto só entra quem trabalha no porto. “Se quisermos ver os navios chegando e partindo, temos de atravessar a ilha, para vê-los passando pelo canal da barra, na entrada do estuário. De qualquer forma, podemos ouvir muito bem seus apitos, o que nos dá a sensação de que há um grande mundo lá fora. navio1.jpg“Acho que quem vive perto de aeroportos não deve ter a mesma sensação, até porque o ruído de aviões decolando e aterrissando tende a nos colocar em pânico. Adoro aviões, mas eles não têm a carga poética dos navios e, sendo assim, portos e aeroportos transmitem sensações diferentes, porque emitem vibrações diferentes. “Bem, e eu fico aqui me perguntando se alguém de vocês aí está interessado nessas besteiras que eu estou escrevendo. Difícil saber. Quando o Ronaldo me disse que talvez eu devesse escrever desse jeito, achei babaquice. Mas depois, pensando melhor, resolvi tentar. E é isso que eu estou fazendo agora, tentando… “Mas, como eu ia dizendo, vivo aqui, num quartinho perto do porto e de alguns bares e puteiros caindo aos pedaços. Esse outro cara, o Ronaldo, é meu vizinho de corredor. halls2.jpg“Na verdade, ele não é o único vizinho do corredor. Existem mais uns cinco ou seis hóspedes neste andar. “Duas são putas na ativa, digo na ativa porque há uma terceira, já velhinha, que só fica trancada dentro do quarto, não sai mais pra rua. Tem um cara, também bem velho, que vem duas ou três vezes por semana trazer coisas pra ele, acho que comida e etc. “Ah, também tem um sujeito aleijado, que era estivador e teve as pernas decepadas num acidente com uma empilhadeira ou coisa parecida. Uma assistente social vem todas as sextas ver como ele está. Acho que ele também traz algum dinheiro, tipo uma indenização que ele deve ter tido direito por perder as pernas e coisas assim. “Mas, resumindo, como aqui eu só converso mesmo com o Ronaldo, eu o considero o meu único vizinho no corredor. “Talvez algum de vocês queira saber como é que eu vim parar aqui. É uma longa história, com certeza. Mas não precisam sair correndo. Eu não pretendo contá-la com detalhes e desde do início. Basta dizer que, no presente, estou aqui, neste quarto de hotel barato, tentando fazer o que, de um jeito ou de outro, venho tentando há quase 40 anos: ser escritor. quarto.jpg“É lógico que não vim parar aqui apenas porque queria ser escritor. Muitas e muitas coisas que aconteceram na minha vida me trouxeram para cá. Só que fica mais fácil, pra resumir a história – e também para que eu possa dormir melhor – dizer, pra mim mesmo e pras outras pessoas, que eu vim parar neste quartinho de hotel barato perto do porto porque estou tentando ser escritor. Se é que vocês me entendem. Não entendem? Bom, quem sabe quando a gente se conhecer melhor. “Agora tenho que sair pra comer alguma coisa. Até qualquer hora. Take a walk on the wild side!”

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Capítulo XV

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“E aqui estou eu de novo, falando do quartinho sórdido do hotelzinho barato perto do porto. Hoje já é outro dia. Ontem acabei não saindo pra comer, como havia comentado com vocês. “O Ronaldo apareceu por aqui quando eu estava me preparando pra sair. Aí engatamos num papo e, quando vimos, já passava da meia-noite. Então resolvemos pedir uma pizza. O difícil foi convencer a pizzaria a entregar a pizza neste bairro, mas, depois de algumas argumentações do Ronaldo – ele é bom nisso – a mulher que atendia ao telefone acabou concordando. “Interessante que o motoboy, quando chegou com a pizza, não parecia nem um pouco preocupado em estar fazendo uma entrega de comida no “lado escuro da cidade”, àquela hora da madrugada.pizza-743284.jpg “Aquilo me lembrou de um conto, que escrevi anos atrás, que chamava ‘O Entregador de Pizza’. Era sobre um garoto que corria loucamente com sua motocicleta no meio da noite e que, além de pizzas, também entregava cocaína nos bairros ricos da cidade. Mas é só disso que eu me lembro, e acabei queimando esse conto, juntamente com uma porção de coisas que havia escrito durante uma época.motoboy.jpgDe qualquer forma, o entregador de ontem à noite entregou apenas uma pizza, e não era sobre isso que eu queria falar com vocês hoje. Eu queria falar sobre a minha história. “Desde que comentei sobre isso com vocês não pude mais parar de pensar no assunto. Não, não vou contar a minha história aqui, mas quem estiver interessado em saber um pouco mais sobre mim pode clicar no link “O Ano da Lagartixa”, que eu e o Ronaldo colocamos na página. “É lógico que não é a minha história toda, tipo uma autobiografia, mas é um pedaço da história. Como eu disse, eu toquei fogo em quase tudo que eu escrevi durante a minha vida, e grande parte do que eu escrevi era sobre a minha história. “Agora, vejam bem, eu não estou dizendo que vocês devem acessar o link aí. Estou somente dando uma sugestão, pra quem estiver a fim. “Ontem, entre as várias coisas que conversei com o Ronaldo, ele me perguntou seu eu estava curtindo essa de conversar com vocês, que, aliás, apenas imagino que existem e que estão lendo o que eu escrevo. Respondi que, ao contrário das minhas expectativas iniciais, estava curtindo sim.halls2.jpg “Depois que ele foi embora, eu deitei na cama e fiquei pensando: ‘E se ninguém estiver lendo o que eu escrevo? Se eu estiver escrevendo só pra mim mesmo e fantasiando que estou me comunicando com alguém?’. “Por mais que eu tentasse, não conseguia dormir. Então, levantei e fui até o quarto do Ronaldo. Contei a ele a minha encanação e ele disse: ‘Olha, tem uma maneira de você tirar isso a limpo. Amanhã eu vou lá no teu computador e dou um jeito de liberar a ferramenta pro pessoal também poder escrever pra você, de volta.’ Eu, que não sabia que isso era possível – tenho uma deficiência ancestral com tecnologia em geral -, voltei excitado pro meu quarto. “Deitei e fiquei imaginando que maravilhoso seria poder ter um retorno praticamente imediato a tudo que eu escrevia. Mas, de repente, essa idéia, não sei direito por que, não me pareceu muito boa. “Afinal, eu não estava a fim de conversar com vocês. Queria apenas contar um pouco da minha história, e estava feliz por imaginar que vocês estavam ouvindo, quer dizer, lendo. Acho que tive medo de “quebrar o encanto” desta nossa conversa no escuro. “Levantei de novo e fui bater mais uma vez na porta do Ronaldo. “Não precisa abrir, não. Só queria te avisar que não precisa mexer em nada lá no computador. Deixa tudo como está, eu prefiro assim, tá?” Ronaldo demorou um pouco e respondeu: “Tá bom, você é que sabe. Afinal, o galinheiro é seu!’

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Capítulo XVI

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“Mudei de idéia de novo. Pensei melhor e pedi pro Ronaldo fazer a tal adaptação para permitir que vocês também pudessem encaminhar coisas para cá. “Só que não me comprometo a responder tudo o que vocês resolverem, por acaso, perguntar ou dizer. “De qualquer forma, acho bom ter algum tipo de retorno a essa conversa que estou mantendo com vocês. “Então é isso. A partir de agora vocês podem mandar bala. “É claro, vou ficar na maior expectativa, esperando a primeira mensagem chegar aqui. Meu maior medo, logicamente, é que não apareça nenhuma mensagem. Aí vou ter monitor1.jpgque admitir que estive esse tempo todo falando com as paredes. “Na verdade, é isso que eu venho fazendo a maior parte da minha vida. Mas nunca dei muita importância ao fato. Agora, porém, não sei bem por que, passou a ser importante que eu esteja teclando aqui e que alguém esteja lendo o que estou escrevendo. “Conversei sobre isso hoje à tarde com o Ronaldo. Ele acha que essa necessidade de comunicação faz parte da nova fase de vida em que estou entrando. “Sinceramente, não sei a que diabo de fase ele se refere, pois não me sinto entrando em nova fase nenhuma. Já há algum tempo tenho me sentido numa espécie de limbo, onde períodos de relativo desespero se alternam com momentos de profunda indiferença sobre o dia de amanhã. “Não, isso que acabo de escrever não corresponde totalmente à realidade. Claro, tenho minhas angústias, minhas crises de niilismo, mas nada tão grave a ponto de não querer acordar amanhã de manhã. “Ainda outro dia estava discutindo com uma, digamos, amiga, que tentava me convencer de que eu tinha instintos suicidas. Até acho que, dependendo da situação, pode até pintar uma vontade de cair fora.

revolver.jpg“Acredito, inclusive que, dependendo da situação, isso pode acontecer com qualquer pessoa, mas precisa ser um acontecimento absurdamente pirante. Confesso a vocês que já passei por acontecimentos bem pirantes, mas nenhum tão insuportável que me levasse a pensar em sair pela porta dos fundos.

“Mas, como vocês podem ver, essa conversinha com aquela, digamos, minha amiga me perturbou bastante, caso contrário não estaria aqui ainda falando nesse assunto. Então, vamos mudar de assunto, já. Até porque eu queria falar com vocês sobre algo que aconteceu hoje de manhã. “Eu estava aqui, clicando pra lá e pra cá, quando, de repente, encontrei o artigo de um cara, um psicanalista, falando sobre um jovem, ex-paciente dele, que sonhava em ser escritor de muito sucesso. “Na verdade, ele não sonhava em ser esse escritor, já que ele tinha certeza de que se tornaria esse escritor algum dia. Os seus sonhos se referiam ao que ele faria quando já fosse esse escritor. “Planejava como seriam as noites de autógrafos de seus novos livros nas diferentes cidades do país e do mundo, o que diria na seqüência de entrevistas que daria nas TVs, nos jornais, nas revistas e nos bate-papos on line, quais os locais em que se refugiaria para escrever seus próximos best sellers.mao-2.jpg “Ele não fazia a mínima idéia sobre o que escreveria em seus livros, mas isso não tinha importância, pois outra das certezas que tinha era de que, em algum momento, ele seria tomado por uma força – divina ou quem sabe até extraterrestre – que o faria escrever, perfeitamente, como um alucinado. “O mais interessante, contudo, segundo o psicanalista, é que ele já escrevia como um alucinado, em cadernos que preenchia compulsivamente, a respeito de todas essas coisas que faria quando se tornasse um dos escritores mais famosos do planeta. “O objetivo do psicanalista, ao contar o caso de seu ex-paciente, era, como vocês já devem ter percebido, mostrar que, lá no fundo, todos nós temos uma tendência a fantasiar, em vez irmos à luta para conseguirmos o que queremos ou achamos que queremos. “Segundo ele – o psicanalista -, havia vários motivos para isso, em especial o fato de que fantasiar era certamente bem mais prazeroso do que tentar fazer as coisas na realidade, e também porque, se tentamos alguma coisa na real, sempre há a possibilidade de fracassarmos. “Sem dúvida, uma abordagem interessante, mas fiquei aqui pensando: será que, se os cadernos das viagens do garoto no seu imaginário mundo de superstar literário fossem editados e publicados, será que não surgiriam dali um ou vários best sellers? “Na pior das hipóteses, a grana daria para continuar pagando o psicanalista, que, aliás, não contou que fim teve o tal garoto. “Até qualquer hora, gente !”

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Capítulo XVII

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Entre as pessoas que mandaram mensagens na página (não é que tem realmente gente lendo isso aqui? incrível!), parece que quase todas acessaram o link do “O Ano da Lagartixa”. Não imaginei que fosse despertar tanto interesse, mas, de qualquer forma, parece também que a maior dúvida é se a história do livro é real mesmo, ou mais precisamente se a tal lagartixa existe de verdade ou se é apenas uma “figura literária”. la.jpg _ O que eles estão querendo? _ Estão querendo saber se você existe mesmo ou se é uma figura literária. _ E o que é uma porra de uma figura literária? _ Uma figura literária é uma espécie de truque que os escritores usam. _ Como truque? _ Um truque, uma coisa inventada só pra dar continuidade na história… _ Troço estúpido! E por que esses babacas fazem isso? _ Que babacas? Os escritores? _ Não, essa gente que quer saber se eu existo de verdade. eu.jpg_ Não, você não está entendendo. É que eu, quer dizer, eu e o Ronaldo botamos um link na página onde as pessoas podem acessar e baixar o nosso livro anterior. _ Ah, quer dizer que aquele troço é nosso, é? Então agora somos parceiros> Legal, se o livro der algum dinheiro, quero 50%, fechado? _ Não foi isso que eu quis dizer. Eu quis dizer é que o meu livro, “O Ano da Lagartixa”, fala em você, ou melhor, admito que você me ajudou a escrever o livro, às vezes quase me deixando louco, mas ajudou. Agora, fui eu quem escreveu e, se por algum milagre, aquele porra der algum trocado, não dividir com você. Até porque o que uma lagartixa iria fazer com dinheiro humano? _ Então é por isso que você inventou essa história de figura literária, pra não ter que dividir o dinheiro comigo? _ Não é nada disso, merda! Eu não disse que você era uma figura de retórica. _ Ué, já mudou, agora eu sou figura de retórica, não é mais figura literária? _ Figura retórica, figura literária, seja lá o que for, não fui que disse que você era isso ou aquilo. O pessoal que acessou a página e o livro é que perguntou se você existia mimages1.jpgesmo ou se era uma figura literária. _ E o que você respondeu? _ Eu não respondi nada, porque você entrou na fita e fez uma puta confusão. oculos-2.jpg _ E quando você vai responder? _ Quando você me deixar em paz! _ E o que você vai responder? _ O que você sugere?

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Capítulo XVIII

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“O Esconderijo”

Uma pequena caverna, encravada na encosta da montanha, seria ideal. Como nos filmes de cowboy, poderia vigiar todo o vale, precavendo-se contra visitas indesejáveis. Mas não havia montanhas por perto, apenas alguns pequenos morros cheios de casas. Teria, portanto, que procurar outro esconderijo.caverna-na-serra-dos-batistas_jpg.jpg Todas as noites, há cerca de um mês, a situação se repetia. Primeiro a incontrolável vontade de fugir, depois os passos ofegantes pelas ruas da cidade, finalmente a conclusão de que precisava se esconder, se quisesse continuar vivo. Invariavelmente, voltava para casa, pouco antes do amanhecer e, esgotado, dormia, certo de que, na noite seguinte, encontraria finalmente o esconderijo tão necessário para sua sobrevivência. – Você passou a noite fora outra vez? Era óbvio que ele tinha passado a noite fora. Afinal eles dormiam na mesma cama e ela sabia que ele só chegara pouco antes do amanhecer. Assim mesmo, respondeu: – É, estive caminhando um pouco. – Novamente? – É, caminhando um pouco… – Por onde? – Por aí, pela vizinhança… – Não seria bom você tomar alguma coisa, procurar um médico? noite.jpg– Ele ia me dar alguma droga aí pra dormir. Não quero me dopar. O problema não é esse. – E qual é o problema? – Não sei, mas vai passar, é questão de tempo. – E até que isso aconteça você vai sair todas as noites e ficar aí zanzando que nem um zumbi e eu aqui, esperando você voltar, sempre com medo de que aconteça alguma coisa e você não volte?pernas.jpg – Eu sempre volto. – Mas a cada dia você volta mais estranho. – Estranho como? – Distante. – Distante de onde? – Distante daqui, da casa, distante de mim. – É impressão. Não viaja. Não é nada disso. – Então o que é? Por que você levanta no meio da noite e sai, como se estivesse fugindo? Do que você está fugindo? De mim? – Não tem nada a ver com você. É uma coisa minha. – Mas eu sou sua mulher, eu preciso saber que tipo de coisa é essa. Estou começando a ficar assustada. – Não há motivo para ficar assustada. Já disse que não é nada sério, vai passar, qualquer hora passa. Ele rezava para que aquilo realmente passasse, pois estava se tornando insuportável. A cada dia a sensação era mais forte, a vontade de fugir mais incontrolável, a necessidade de encontrar um esconderijo mais urgente e as distâncias percorridas em busca do local ideal para se esconder mais longas. Não podia explicar essas coisas para ela. Ela ia pensar que ele tinha ficado louco de vez. Aliás, talvez fosse isso mesmo, já que nem ele próprio conseguia explicar o que andava acontecendo. Como ela havia desistido de lhe fazer mais perguntas, pelo menos por enquanto, ele fechou os olhos e rapidamente pegou no sono. aguia2.jpgEntão era aquilo o que sentiam águias, outras aves e outros pássaros que faziam seus ninhos em pontos altos das montanhas? Aquele vento, que chegava a fazer seus lábios tremerem, lhe dava a sensação de fazer parte de algo imenso, incomensurável, maior do que tudo o que pudesse imaginar. De lá, podia não só ter visão de toda a extensão do vale, como também não precisava mais se preocupar com visitas indesejáveis, já que elas jamais o alcançariam àquela altura da montanha. Abriu os olhos, o quarto estava abafado. Seu corpo grudava no lençol. O sonho parecia se tornar mais e mais real. As imagens ficavam mais claras e as sensações mais fortes. Fantasiava sobre a possibilidade de, um dia, não acordar e continuar vivendo nluzes-do-sul.jpgaquele sonho que o atormentava e o seduzia. Tentou imaginar o que ela iria pensar, se ele simplesmente desaparecesse durante a noite, não por ter ido caminhar, mas por não ter acordado de um sonho. Se houvesse algum jeito de avisá-la sobre o que estava acontecendo! Não, isso não era possível, pois nem ele mesmo conseguia entender. Sabia apenas que a noite estava chegando outra vez e em breve ele voltaria a caminhar pelas ruas da cidade em busca de um esconderijo. Questão de sobrevivência.

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_ Agora sim! _ Agora sim o quê? _ Acho que você pegou a veia. _ Como assim?lagartixa4.jpg _ É a primeira coisa que você escreve que parece que vai pra algum lugar. _ Você acha mesmo? _ Acho. _ Eu estava pensando em continuar isso e ir postando na página da net, como se fosse uma história em capítulos. _ Bom, isso eu já não sei. Mas que parece que vai pra algum lugar, parece. E é engraçado porque é também a primeira vez que aparece uma mulher nas coisas que você escreve. Por que, hein? _ Por que o quê? _ Por que você nunca escreve sobre mulheres, quer dizer, sobre as suas mulheres. É lógico que existiram mulheres na sua vida, ou não? meurosto.jpg _ É lógico que existiram. _ Então por que elas nunca aparecem. _ Sei lá. Acho que é porque é difícil falar sobre elas. _ Difícil como? _ Muito íntimo. _ Mas não estou dizendo pra você descrever as suas trepadas. _ Não é isso. Não estou me referindo a esse tipo de intimidade. Estou falando de sentimentos. Resumindo, talvez eu tenha dificuldade de expor meus sentimentos em relação às mulheres da minha vida. _ Talvez ou você tem mesmo dificuldade? _ Eu tenho dificuldade de falar sobre sentimentos em relação às mulheres da minha vida. Tá bom assim? meurosto.jpg_E de escrever? _ E de escrever também, caralho! _ Não precisa ficar alterado. Só estou trocando uma idéia aqui com você. Mas, por falar em idéia, você tem idéia do motivo dessa travação? _ Não é travação, porra! É apenas dificuldade, falta de jeito. _ Então ta. Você tem idéia do motivo dessa falta de jeito? _ Nunca pensei muito a respeito, mas agora que você trouxe o assunto à tona, acho que deve ser medo… _ Medo de quê? _ Acho que eu tenho medo de que, escrevendo sobre esses sentimentos, algumas delas, das mulheres, possam um dia virem a ler. lagartixa4thumbnailzzz.jpg _ E daí, qual o problema? _ Não sei. _ Nossa, a sua piração é sempre bem maior do que eu consigo imaginar. _ Não acho que isso seja piração. É apenas dificuldade. As pessoas têm, cada qual, as suas dificuldades em relação a determinadas coisas. Só isso. _ Tá legal. Então me responde só mais uma coisinha. Isso que você escreveu aí, do enconderijo e tal, aconteceu mesmo? _ De certa forma, sim. _ Então essa mulher que você cita no texto é real? _ De certa forma, sim.

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Capítulo IXX

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“O Esconderijo”

Vinha acontecendo há algum tempo. De repente e sem qualquer padrão de freqüência. Imagens de determinados lugares da cidade surgiam e desapareciam em sua cabeça. Tinha noção de que esse tipo de coisa começara desde que deixou de beber e de usar drogas, o que tornava a situação mais absurda, já que álcool e drogas explicam alucinações, a ausência deles, não.canal1.jpg Sendo assim, a possibilidade de, agora, estar realmente ficando louco era bem alta. Foi a ameaça de tal possibilidade se confirmar que fez com que ele passasse a encarar o surgimento das imagens como algo sem importância e passageiro, quem sabe uma simples seqüela justamente dos danos provocados pelo uso abusivo de álcool e drogas. Essa tática, contudo, funcionou por pouco tempo, já que, progressivamente, começou a percebeu que as imagens tinham “significado”. Isto é, os locais da cidade que surgiam em sua mente pareciam querer chama sua atenção para a importância de sentimentos e revelações de um passado recente, construído já sem as drogas e o álcool. Preservar tais sentimentos e revelações, desse passado recente, parecia ser vital pra sua sobrevivência no futuro. canais2cheia2.jpgAo ordenar todo esse raciocínio na cabeça, concluiu que, com toda a probabilidade, estava realmente ficando louco. Não havia o mínimo sentido na teoria que acabava de elaborar. Mesmo assim, numa tarde muito quente de sábado, resolveu percorrer alguns dos lugares cujas imagens haviam lampejado na sua cabeça nos últimos dias, só pra checar se isso, de alguma forma, esclareceria um pouco as coisas. Saiu caminhando de casa e “deixou-se levar” par um daqueles lugares: o cruzamento de uma rua, transformada em via expressa improvisada, com uma avenida que se estendia ao longo de um largo canal de coleta de águas pluviais. Sentou-se na mureta no canal e, por algum tempo, ficou observando o fluxo de carros, controlado pelos semáforos instalados no cruzamento. Como era sábado, o movimento do trânsito era pequeno, por isso alguns motoristas não agüentavam esperar pelo verde e avançavam no vermelho mesmo. A maioria, porém, respeitava as regras, apesar da tarde de sábado e do calor sufocante. canais.jpgOlhou para o outro lado da avenida e percebeu, numa das ruas que se bifurcavam com o cruzamento, um loja que vendia pássaros, rações e outros produtos para animais, surpreendentemente ainda aberta naquela tarde quente de sábado, em que todas as demais lojas da vizinhança já estavam fechadas. Foi até lá e ficou observando os pássaros nas gaiolas. O velho conflito se estabeleceu. O desejo de ter a companhia de um pássaro, em casa, e a dificuldade em aceitar o confinamento da ave numa gaiola. paxaru.jpg_ Mas, afinal, esses pássaros já devem ter nascido em gaiolas. Não saberiam sobreviver soltos. E, depois, eu poderia arrumar uma gaiola grande, com bastante espaço… Seguiu em frente, virou numa esquina e voltou para a avenida. Embora preferisse andar no passeio que margeava o canal, optou pela calçada do lado oposto da pista, já que ali havia um pouco mais de sombra, naquela tarde de sol escaldante. O fato de estar caminhando em direção do centro da cidade e não rumo à praia foi uma opção estudada. Não havia nada que o interessasse na praia, pelo menos naquele momento. Um pouco adiante, um ponto de ônibus, do outro lado da avenida, chamou a sua atenção. Anos atrás, exatamente ali, ela o havia apanhado com seu carro, na época em que, por vários motivos, mantinham um romance secreto e se encontravam às escondidas pela cidade.canais2cheia21.jpg Sentou mais uma vez na mureta do canal e perguntou-se que diabos estava fazendo ali. Mas, antes que conseguisse responder a sua pergunta, já estava de pé, caminhamento novamente em direção ao centro da cidade. Chegou ao fim do canal, que na verdade era o seu início, já que aqueles canais tinham sido construídos há mais de um século para levar as águas pluviais da cidade em direção ao mar, ou seja, o final dos canais ficava na praia e o início, na área central. Isso também não fazia muita diferença, pensou, já que a cidade estava numa ilha. Naquele local, o canal ao lado do qual caminhava encontrava-se com outro canal, que também margeava outra avenida e levava as águas em direção ao mar. Seus olhos, no entanto, estavam fixos num velho estádio de futebol, localizado a uma distância de uns 100 ou 150 metros. Lembrou que, quando era criança, já havia visto alguns jogos ali. Hoje, o time que era dono do estádio estava prestes a deixar de existir. Aliás, tinha ouvido que o próprio estádio estava para ser demolido, dando lugar a um hipermercado de uma rede internacional. De qualquer forma, talvez num protesto inconsciente contra a invasão dos hipermercados, ele resolveu dobrar uma esquina e se viu numa rua que conhecia bem. Algumas quadras à frente, havia, naquela rua, um hospício abandonado, onde anos atrás ele tinha sido internado por alguns dias. louco.jpgAo passar pelo prédio, lhe veio à cabeça que talvez ali fosse um bom esconderijo. Mas logo mudou de idéia, ao constatar que várias famílias já se escondiam ali, isto é, haviam invadido o prédio e moravam nele. Então prosseguiu caminhando e, quando se deu conta, estava na esquina da rua onde havia nascido. Não deu muita importância a isso e seguiu em frente, até chegar a mais uma avenida com mais um canal. Sentou-se na mureta e percebeu que o sol tinha sido encoberto por nuvens escuras. Provavelmente ia chover pesado, o que, para ele, era uma boa notícia. Gostava das chuvas pesadas de verão, ainda mais num dia tão quente como aquele. De qualquer forma, resolveu voltar para casa. Quando chegou, estirou-se na cama e ficou olhando para o teto. Definitivamente, estava enlouquecendo!

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Capítulo XX

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“O Esconderijo”

Não iria comentar sobre nada daquilo com ela. As escapadas noturnas dele já deviam ser suficientemente preocupantes. Se começasse agora a comentar a respeito de imagens de lugares da cidade, que surgiam e desapareciam na sua cabeça e o faziam percorrer esses lugares, em busca de respostas a uma pergunta que ele sabia que existia, mas que não sabia qual era, ela poderia entrar em parafuso de vez. E, por enquanto, bastava um louco por perto, ou seja, ele mesmo. Na verdade, o que mais o preocupava no momento era o tal do aquecimento global. sol2.jpg Não por causa do derretimento das calotas polares, já que elas estavam bem longe e, embora ele vivesse numa cidade à beira-mar, o que colocava o local sob risco de grandes inundações quando o gelo fosse derretendo mais rapidamente, isso ainda era uma ameaçava distante. Seu problema com o aquecimento progressivo do planeta era aquele verão que parecia não ter mais fim. A cada ano que passava, a impressão é que os verões estavam mais e mais longos. Agora, a teoria do aquecimento global progressivo dava algum tipo de sustentação científica à sua tese sobre o também progressivo aquecimento da cidade onde vivia, uma tese que ele expunha sempre que tinha oportunidade a motoristas de táxis, porteiros de prédios, balconistas de lojas, caixas de banco, passageiros de ônibus e a quem mais reclamasse com ele do calor excessivo daquele verão interminável. sol.jpgDe qualquer forma, este último verão estava sendo o mais quente e longo de todos, até porque já era outono e nada da temperatura baixar, nem que fosse um pouquinho. Pela primeira vez, começou a pensar com alguma seriedade sobre a possibilidade de comprar um ar condicionado para casa. Vinha reclamando tanto do calor que ela também começou a reclamar e a admitir a idéia de instalar um ar condicionado na casa, “para enfrentar o próximo verão”. Ele, porém, não se satisfazia com esse consenso conjugal em torno dos transtornos provocados pela alta temperatura e a perspectiva de enfrentar o verão do ano que vem com um potente ar condicionado.mulher.jpg Passou a defender, a princípio em tom de brincadeira, a idéia de mudarem para o Alasca. Ao argumento dela – também em tom de piada – de que no Alasca só tinha gelo, ele contrapunha o fato de existirem várias cidadezinhas “agradáveis”, como, por exemplo, aquela que servia de cenário para uma série de televisão que eles às vezes assistiam. O assunto “mudar para o Alasca” acabou virando uma obsessão para ele durante toda aquela semana, até porque o calor continuava de lascar. Durante uma de suas expedições noturnas, vagando à toa pelas ruas desertas da cidade, entendeu, de repente, que o esconderijo que há tanto tempo procurava poderia muito bem estar localizado no tal Alasca. Ficou realmente surpreso com essa sua “descoberta”. No dia seguinte, durante o almoço, disse a ela que, além de haverem várias cidadezinhas interessante no Alasca, com o aquecimento global avançando, o clima de lá tendia a se tornar cada vez mais ameno, ideal para quem estava buscando uma vida mais saudável. Ele não entendeu por que ela começou a chorar, foi para o quarto e trancou a porta.

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Capítulo XXI

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“O Esconderijo”

“Filha da puta, filha da puta! É foda, é foda! Caralho!” Junto com os gritos do sujeito, uma voz feminina também gritava: ”Pára com isso, por favor, pára com isso!” Levantou do computador e foi até a janela. A confusão era no prédio ao lado. Costumava acontecer com alguma freqüência e era até normavaga-de-calor.jpgl, num dia quente como aquele. Aliás, o calor daquele dia estava pior do que o dos dias anteriores. Estava pior. A alta temperatura ganhara um poderoso aliado, o vento noroeste, que soprava loucura por todos os cantos da cidade, incluindo, obviamente, a cabeça das pessoas. Nesses dias, ele já aprendera que precisava ir devagar. Tomar cuidado para não ser levado, ou se melhor, não ser tragado pelas corrente de ar quente que pareciam soprar de e em todas as direções, desde que o dia clareara. Tratou, então, de “neutralizar” a agitação provocada pelo barraco no prédio ao lado. Tomar um banho morno era uma solução simples e prática para tentar recomeçar o dia de forma mais amena. Só que, antes de entrar no chuveiro, seus intestinos enviaram uma mensagem ao seu cérebro.sd2181.jpg Sentado na privada, percebeu que alguém, em outro prédio, situado bem ao lado do vitrô do banheiro, testava toques para um celular. A princípio, achou até divertido, lembrando das vezes em que, ao comprar um celular novo, fazia a mesma coisa, buscando o toque que mais o agradasse. Aliás, essa tarefa de escolher toque pra celular estava se tornando a cada dia mais complicada, devido à grande quantidade de toques que os novos celulares colocavam à disposição dos clientes. E a pessoa no prédio ao lado da janela do banheiro parecia estar tremendamente indecisa, percorrendo várias vezes a longa lista de opções de toques disponíveis para aquele aparelho. Fechou o vitrô e enfiou a cabeça debaixo do chuveiro. Enccelular.jpgerrado o (longo) banho, fechou a torneira do chuveiro, pegou a toalha e, depois que se secou, abriu novamente o vitrô do banheiro. Percebeu que seu vizinho, ou sua vizinha, ainda continuava escolhendo que toque colocaria em seu novo celular. – Enfia essa bosta no cú, peida, grava e usa como campanhia, caralho! O pretendido efeito calmante do banho morno tinha escorrido pelo ralo. Por sorte, o vizinho, ou vizinha, não reagiu à sua exótica sugestão de escolha do toque para o novo celular. Aliás, depois dos berros no vitrô do banheiro, parece que todo o prédio ao lado mergulhou num profundo silencio. Tudo bem, teria que recomeçar o dia de novo. Foi o que fez, ao sair de casa, fones de ouvido pendurados nas orelhas, curtindo uma seleção de músicas cuidadosamente escolhidas para enfrentar um dia de noroeste. Tinha realmente acertado na seqüência e no estilo das músicas escolhidas. pb280536.jpgO som funcionva como uma espécie de redoma de proteção contra os efeitos letais das rajadas de vento quente que apunhalavam seu corpo a cada passo. Tudo estava correndo bem, mas… – Esta cidade está entupida de carros, carros fedidos que peidam ar quente e deixam o dia mais quente. E ainda por cima são barulhentos, não deixam eu ouvir minhas músicas em paz. É um absurdo, é tudo um absurdo, que merda! Ora, foda-se! 383372-8368-cp.jpgDesligou o tocador de mp3, arrancou os fones de ouvido e disse pra sim mesmo: “Tudo bem, é briga, né? Então, tá!” Ao atravessar a primeira faixa de pedestres que surgiu na sua frente, fez questão de caminhar bem devagar sobre ela, embora um carro se aproximasse em velocidade. É lógico que o carro não reduziu a marcha, mas pelo menos ele obrigou o motorista a desviar um pouco o veículo, para não atropelá-lo. Nenhum motorista respeitava faixa de pedestre naquela cidade. Quando um carro, por acaso, reduzia a velocidade por causa de um pedestre que atravessava na faixa, o motorista com certeza era de fora. Dessa forma, os pedestres costumavam atravessar as faixas correndo, mesmo quando estas ficavam junto aos sinaleiros, nas grandes avenidas. Ou então atravessaram em qualquer lugar, no meio do trânsito correndo solto, já que os riscos eram idênticos. materia-transito.jpgNa verdade, os riscos não eram idênticos, pois, pelo menos, no meio do trânsito, os pedestres tinham plena consciência de que, se vacilassem, os motoristas jogariam mesmo seus carros em cima deles. Nas faixas ainda podiam ter alguma sorrateira ilusão sobre cidadania e babaquices do tipo. Então ele ficava realmente revoltado com as campanhas que tentavam incentivar os pedestres a atravessar nas faixas. Foi esse tipo de revolta que o fez, desta vez, praticamente parar em cima de uma segunda faixa, obrigando dois carros a tirar finas, cada um de um lado de seu corpo, com um dos motoristas o xingando de “idiota filho da puta”. Cinco ou seis faixas depois, ele percebeu que, nas duas últimas faixas, uma velhinha parecia acompanhá-lo em seu protesto suicida. pan13a.jpgAssim que ele começava a atravessar a faixa, a velhinha ia um pouco atrás e, quando ele parava, ela também parava. Isso obrigava os motoristas a desviar de dois “alvos” numa única faixa. Pensou em explicar à velhinha que aquilo era perigoso, porque os motoristas podiam não se desviar a tempo, além de haverem alguns que ficavam tão putos que eram capazes de simplesmente jogar seus carros em cima do “invasor” da faixa. Ele, afinal, estava fazendo aquilo porque tinha razões muito fortes. Estava protestando não apenas contra a falta de respeito dos motoristas, mas também contra uma série de coisas que o tinham incomodado ao longo de toda a sua vida – e, acima de tudo, estavam protestando contra aquele maldito calor e aquele maldito noroeste. Mas, enfim, se a velhinha havia resolvido acompanhá-lo naquele protesto em cima das faixas de pedestres da cidade, ela também devia ter suas razões, e quem era ele para impedi-la? Sendo assim, resolveu continuar com seu “trabalho” como se estivesse sozinho. Já tinha irritado motoristas em mais de 20 faixas quando, ao atravessar mais uma, se deu conta de que os carros estavam se aproximando cada vez em menor velocidade. informe217h.jpgNotou então que, além da velhinha, sete ou oito pessoas, entre homens e mulheres de diversas idades, pareciam ter “aderido” ao movimento de protesto, pois atravessavam a faixa a intervalos mínimos de tempo, numa sincronia espontânea que, sem dúvida, devia deixar os motoristas desnorteados, daí a redução de velocidade. A partir dali, passou a sentir-se como líder de uma tropa que conseguiria fazer com que as faixas de pedestres fossem finalmente respeitadas naquela cidade. Depois que esse objetivo fosse alcançado, passariam a lutar então por outras coisas, fazendo daquela cidade um lugar melhor pra se viver. Quem sabe não conseguiriam, de alguma forma, impedir até mesmo que fizesse tanto calor e que o vento noroeste deixasse de soprar sua insanidade. Estava quase flutuando nesse seu delírio quando ouviu um baque surdo às suas costas. Ao voltar-se pra trás, viu as cerca de 30 pessoas que agora o acompanhavam na travessia das faixas ao redor de um corpo estendido nas listas pintadas em cipan13.jpgma do asfalto. Ao chegar perto, reconheceu a velhinha. Sua primeira aliada tinha sido atingida em cheio por um carro, que avançara com tudo sobre a faixa, apesar dela estar ocupada, naquele momento, por inúmeros pedestres. Pouco antes de ser colocada numa ambulância, a velhinha, deitada numa maca, piscou o olho e deu um sorriso. Ele resolveu voltar pra casa. O calor continuava insuportável, o vento noroeste continuava soprando loucura por todos os cantos da cidade. Inclusive, obviamente, na cabeça das pessoas.

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Capítulo XXII

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_ Acho que você perdeu um pouco rumo.negativo-3.jpg _ Como assim? _ Você começou um pique ótimo, mas foi perdendo o fôlego. _ Eu não concordo. Aliás, as pessoas que têm deixado mensagens no blog parecem estar gostando. _ É porque essas pessoas que ficando lendo blog não têm muito senso crítico. Elas lêem qualquer merda só pra cair fora da vidinha besta que elas levam. _ Você é especialista em tudo, né? _ Só nas coisas que me interessam. Mas voltando ao assunto que me interessa no momento, você não percebe que está perdendo o ritmo à medida que avança na história? _ Pelo contrário, me sinto cada vez mais solto. _ Tão solto que está perdendo o contato com o chão, com a realidade. _ Ora, mas eu estou escrevendo ficção. _ Olha, em primeiro lugar eu acho que esse troço tem muita coisa autobiográfica – o que eu considero interessante – e depois, mesmo na ficção você tem que ter cuidado pra não exagerar, senão vira ficção científica, e acho que não é esse o caso. _ Não sei exatamente a que você se refere. negativo.jpg _ Especificamente a essa coisa aí de protesto em cima de faixa de pedestre. É uma coisa totalmente fantasiosa, que sai do clima no qual você vinha desenvolvendo o texto. E a coisa fica mais idiota ainda quando você inventa aquela procissão de zumbis atravessando as faixas com você. _ E se eu te disser que, desde que comecei a escrever o “Esconderijo”, essa parte do protesto das faixas de pedestres é a que mais se aproxima da realidade? _ Dá um tempo! Você agora vai querer me convencer de que uma coisa absurda dessas aconteceu algum dia? _ Bom, eu aumentei um pouco a coisa, mas a essência é real. Na verdade, foram apenas umas seis ou sete pessoas que me acompanharam até o final. _ Sei, entre elas, a velhinha, é lógico. _ Claro, a velhinha foi a primeira, como eu escrevi. _Certo, certo, e ela morreu atropelada mesmo no final? _ Não, aí foi mais um recurso literário, de dramatização. Na verdade, ela só desmaiou, quando uma moto deu uma fininha nela. _ Olha, se você insiste em prosseguir com essa babaquice viajante, vai fundo, mas não diga que eu não avisei. Talvez ela tivesse razão, talvez eu tivesse mesmo extrapolado um pouco na história. Mas eu não podia deixar escapar a oportunidade de deixá-la irritada e vê-la rastejando depressa pra debaixo da cômoda. Em todo o caso, resolvi levar o “Esconderijo” para o Ronaldo dar uma lida. Afinal, ela já tinha acertado muitas coisas ao meu respeito. E se ela estivesse certa mais uma vez?

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Capítulo XXIII

“O Esconderijo”

Tinham acabado de trepar. Ela dormia profundamente ao seu lado, mas ele não conseguia pegar no sono. Tentou descobrir o motivo e chegou à brilhante conclusão de que não havia nenhum motivo em particular. Tinha apenas perdido o sono. Foi até a cozinha, abriu a geladeira e percebeu que também não tinha nenhum motivo especial para ter feito isso. Era apenas uma espécie de reflexo condicionado quandgeladeira1.jpgo levantava da cama no meio da noite. Contudo, como já estava mesmo com a porta da geladeira aberta, resolveu se servir de um copo de água gelada. Com o copo na mão direita, foi até a sala e sentou-se no sofá. Percebeu que fazia aquilo muito poucas vezes, sentar no sofá da sala. Aliás, a sala era bem pouco usada e isso, é claro, devia-se ao fato de não haver televisão instalada ali. Chegou à conclusão de que precisava colocar algumas plantas naquela sala. Talvez também um pequeno aquário em cima do móvel. Quem sabe uma gaiola com um pássaro… De repente, percebeu que aqueles pensamentos eram sintomas de uma doença antiga! A mesma doença que havia feito com que ele, muitos anos antes, atulhasse a sala do apartamento onde então vivia com aquários e gaiolas com os mais variados tipos de peixes e pássaros. A coisa começou com os peixes. conheca01.jpgOlhando a vitrine de uma loja de aquários, concluiu, de repente, que peixes poderiam muito bem preencher aquele vazio que, desde que se conhecia como gente, sentia em algum lugar impreciso, localizado entre o final da sua garganta e o começo do seu estômago. Claro que não planejava preencher o tal vazio comendo peixes, mas apenas comprar um pequeno aquário e, virtualmente, “mergulhar” naquele mundo líquido. Como naquele época costumava andar sempre com algum dinheiro no bolso, entrou imediatamente na loja e comprou um aquário pequenaquario13.jpgo e sete peixinhos, um de cada espécie.

Achou divertido montar o aquário, até porque tinha comprado também pedrinhas coloridas e algumas plantinhas aquáticas.

Passou as noites dos dias seguintes “mergulhado” no aquário, observando a movimentação dos peixes até quase o amanhecer. Então começou a imaginar como seria bom ter um aquário maior, onde coubessem mais peixes, plantas e também onde pudesse “mergulhar” mais fundo ainda. Voltou à loja, mas ficou quase uma hora em dúvida entre comprar um amplo aquário retangular e um outro, de concepção vertical e visão de 180º . Acabou levando o retangular, por considerar o outro estilizado demais para dar prosseguimento aos seus contatos imediatos com o recém-descoberto mundo líquido.

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Durante mais ou menos uma semana, o novo aquário transformou-se num brinquedo irresistível – e o melhor da história: há muito tempo ela não se sentia com suas carências existenciais tão plenamente preenchidas. O problema é que, quando ele ia deitar, depois de passar horas e horas observando os peixinhos no seu aquário retangular, o aquário vertical, com visão de 180º, não lhe saía da cabeça. Um dia, logo ao acordar, foi direito à loja e comprou o tal aquário vertical. No entanto, quando estava no caixa, pagando, reparou num outro aquário, este sim bem maior, com iluminação especial e equipado para receber peixes de água salgada, os quais, como àquela altura já tinha percebido, como cliente assíduo do local, eram bem mais coloridos e atraentes do que as espécies de água doce.discus5.jpg Contudo, ao perguntar o preço, descobriu que seu novo objeto de desejo era absurdamente caro, além de exigir uma também cara e complexa instalação do equipamento necessário ao seu funcionamento. Novamente em casa, descobriu que estava se divertindo bem menos do que imaginara com seu novo aquário vertical com visão de 180º. De qualquer modo, os três aquários, de tamanhos e formatos diferentes, agora montados na sua sala, davam ao local um aspecto interessante, principalmente à noite. A iluminação turvada pelo borbulhar dos equipamentos de oxigenação da água se refletia nas paredes e parecia transformar o recinto num imenso aquário que o envolvia por todos os lados. Os peixes de água salgada eram, porém, tão coloridos, os desenhos em seus corpos pareciam feitos à mão, eles até nadavam de um modo diferente, mais leves, soltos… peixe_borboleta.jpgPor duas noites seguidas, ele sonhou com peixes supercoloridos nadando de um lado para o outro de seu quarto, como se este fosse um grande aquário onde ele também nadava, com a impressão de que ia se afogar a qualquer momento. – Vocês parcelam no cartão? Diante da resposta positiva da vendedora, ele não teve dúvida em fechar negtaxi.jpgócio. A primeira dificuldade foi colocar aquela tralha toda dentro de um táxi. Ao chegar em casa, descobriu que não conseguiria instalar aquilo tudo sozinho, até porque teria que remanejar o aquário retangular e o aquário vertical, para poder acomodar o novo e enorme aquário de água salgada e o maquinário para seu funcionamento. Ligou para o loja e pediu pelo amor de Deus que mandassem alguém para fazer a instalação. Disseram que isso só seria possível no dia seguinte. kinguio_bonevermelho_2.jpgNaquela noite, ele praticamente não dormiu, sufocado em angústia e expectativa na sua sala-aquário. Finalmente, no dia seguinte, logo cedo, o técnico da loja chegou, levando a manhã toda para fazer a parafernália funcionar e explicando detalhadamente como tinha de ser feita a manutenção correta, sem o que problemas sérios poderiam acontecer. Depois que o técnico foi embora, ele saiu para comprar os peixinhos, sim, porque até então estivera tão tomado pela excitação da compra do aquário de água salgada e pela fissura de vê-lo instalado na sua sala que simplesmente havia esquecido de comprar os peixes, supercoloridos e com desenhos nos seus corpos que pareciam ter sido feitos à mão. Voltou mais uma vez à loja e fez mais uma descoberta interessante sobre o mundo líquido: peixinhos de água salgada eram bem mais caros do que peixinhos de água doce. Outra descoberta interessante: se ele já demorava horas para escolher peixinhos de água doce, escolher peixinhos de água salgada demoraria séculos, devido à variedade de cores e formas que estes últimos apresentavam. Finalmente, após uma demorada pesquisa, envolvendo custos, desejos atendidos e reprimidos, além de considerações estéticas e filosóficas, adquiriu o primeiro lote de moradores de seu aquário de água salgada. Uma atenciosa e extenuada vendedora embalou cuidadosamente os peixinhos para o transporte. bateria_nova.jpgNaquele dia, ficou até de madrugada decorando o aquário de água salgada e, depois, observando os novos peixes, até que adormeceu sem perceber. Aquela sensação nos pés era estranha. Teve a impressão de que caminhava num deserto de areia muito fofa. Não, não era um deserto, a menos que a areia daquele deserto fosse pegajosa. Ah, talvez estivesse caminhando na beira do mar, daí a areia estar molhada. No entanto, seus pés pareciam afundar a cada passo. Um pântano, isso, estava caminhando num pântano. E afundando, afundando, afundando… Abriu os olhos e percebeu que o pântano a seus pés era, na verdade, o chão da sua sala, inundada até altura de seus tornozelos, que haviam ficado pendendo para fora do sofá, junto com o resto de suas pernas, ao adormeceu horas atrás, quando estava observando os peixes de água salgada. De alguma forma, o equipamento do novo aquário havia entrado em pane, acionando a válvula que regulava a entrada de água no recipiente onde devia ser previamente tratada antes de ser liberada para o interior do aquário. bxk206413_cachoeira800.jpgResumindo, uma grande quantidade de água passou a entrar diretamente no aquário, provocando seu transbordamento e alagando a sala. Sua primeira reação foi procurar no chão da sala inundada pelos peixes supercoloridos com os corpos com desenhos que pareciam ter sido feitos à mão, mas logo descobriu que a água já havia atingido também a cozinha e os outros cômodos do apartamento. not_142535562.jpg Achou melhor primeiro desligar o registro geral. Na cozinha, viu dois peixes boiando, no quarto e no banheiro, mais alguns. Ouviu então as sirene e, logo depois, fortes pancadas na porta da entrada. Os bombeiros entraram e o carregaram para fora.

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Capítulo XXIV

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_ Quem é? _ Sou eu! Ronaldo destrancou a porta e abriu somente uma pequena fresta, como que para se certificar de que a minha voz era minha mesmo a minha voz e que, portanto, era eu mesmo que havia batido em seu quarto.porta-aberta-andre-boto.jpg Como já estava acostumado às variações de humor dele (às vezes deixava a porta do quarto destrancada, outras simplesmente entreaberta), nem me dei ao trabalho de perguntar por que toda aquela nóia. _ Você sabe se é caro ser cremado?, perguntou Ronaldo. _ Não faço idéia. Por quê? _ Porque eu estava pensando aqui e cheguei à conclusão de que eu queria ser cremado. urna.jpg_ Não sei quanto custa, não, mas não deve ser barato. Geralmente só gente que tem dinheiro é cremada por aqui. Lá fora é diferente. Tem lugares onde cremação é um serviço público. _ E por que aqui não é assim? _ Não sei direito. Talvez tenha começado por problema religioso, com o lance de não acharem cremação um negócio legal, sei lá. De qualquer forma, como cremação não é uma coisa comum por aqui, então fica caro. _ Vou dar uma pesquisada. Conforme for, vou começar a economizar dinheiro. _ Pra ser cremado? _ É. E quero também que as cinzas sejam jogadas no mar, que nem naqueles filmes.vento-e-chuva.jpg _ Você não acha meio idiota ficar se preocupando com isso agora? _ E eu vou me preocupar quando? Depois que eu morrer? _ Você acha que vai morrer logo? _ Não sei, mas tenho pensado muito nisso ultimamente. Afinal, já não sou tão novo assim. _ Bom, como minha mãe dizia, pra morrer, bastar estar vivo. lapides4.jpg _ E você, quer ser cremado ou enterrado? _ Sinceramente, não me preocupo muito com o que vai acontecer com o meu corpo depois que eu deixar de respirar. _ Eu também sempre pensei assim, mas agora isso anda me preocupando. _ Pra dizer a verdade, pensando bem, acho que gostaria que meu corpo ficasse exposto, no alto de uma torre, pra servir de alimento aos abutres, como naqueles cemitérios de índios americanos. lapides2.jpg_ Acho isso meio sinistro. _ Não é não, pense bem. Você vive, morre e teu corpo entra de novo no ciclo da vida, através dos abutres que comem a tua carne. _ Quando você é enterrado, também. Só que o retorno acontece através dos vermes. _ É, você tem razão. Dos dois jeitos nossos corpos voltam ao ciclo vital. _ Mas a cremação é mais bonita, artística, por causa do fogo, né? E tem também o lance das cinzas, do pó viestes e ao pó retornarás, não tem um negócio que diz isso? _ É, você tem razão. Bom, vou voltar pro meu quarto. Até mais! _ Até. halls2.jpgEnquanto ouvia Ronaldo trancafiar de novo sua porta, percebi que continuava com o último capítulo de o “Esconderijo” nas mãos. Aliás, mostrar aquele capítulo e perguntar o que Ronaldo achara dos outros textos, que eu havia entregue a ele dias atrás, fora o motivo pelo qual tinha ido ao seu quarto. Paciência! Ronaldo no momento só conseguia pensar em como seria cremado e depois teria suas cinzas atiradas no mar.

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Capítulo XXV

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“O Esconderijo”

Por que nunca mais apareceu um outro Jesus, um outro Buda, um outro Maomé? Bom, se formos levar a coisa pra esse lado, também não aparecem mais Beatles, Rolling Stones, Bob Dylans e assim por diante. E por que esses pensamentos lhe passavam pela cabeça enquanto, da rua, observava uma janela semi-iluminada de um prédio e isso, por algum motivo, o fazia recordar como a boceta dela era quente e aconchegante? Deixou pra lá e continuou caminhando. Havia, obviamente, um sentido oculto em ter acabado de cruzar agora com ab0000c8aw201lzzzzzzz.jpgquele homem de rua. Não era um homem de rua qualquer. Volta e meia cruzava com ele e, ao contrário dos sem-teto que circulavam pela cidade, este vasculhava o lixo sempre usando luvas (de lixeiro, por sinal) e, apesar de suas roupas velhas e sujas, parecia de alguma forma sempre bem vestido. Sempre que cruzava com aquele homem, ele imaginava várias historinhas sobre como o sujeito foi parar na sarjeta. Embora com roteiros diferentes, todas as historinhas concluíam que, para aquele homem, viver na rua não havia sido uma fatalidade, mas uma opção. E, naquele momento, ao encontrar de novo o homem naquela noite cada vez mais estranha, ela se questionou se não seria aquela opção, a vida na rua, o caminho que estava procurando. Talvez, mas não naquela noite, porque naquela noite ele estava, novamente, em busca do esconderijo perfeito. b0000c8aw201lzzzzzzz2.jpgEntão percebeu um outro homem, que saía de uma padaria. Bermuda, camiseta, chinelos, saco de pão na mão. Encaixava-se perfeitamente no perfil do aposentado tranqüilo, indo buscar pão e retornando para casa, quem sabe para ver um filminho na TV ao lado da mulher, antes do sono bater. Por instantes, sentiu inveja do sujeito. Não seria aquela uma alternativa interessante para viver os últimos anos de sua vida? Talvez, mas não naquele momento. Pra começar, ele não tinha nenhuma chance de arrumar algum tipo de aposentadoria, nem agora, nem nunca. E, afinal, ele estava procurando o esconderijo perfeito. Cansado de andar sem rumo, acabou voltando para casa. Ela estava dormindo. Ele deitou-se ao seu lado e finalmente adormeceu. Quando acordou, no dia seguinte, ela já tinha saído. Foi até o computador, leu alguns e-mails e algumas notícias, navegou um pouco por alguns sites pornográficos e, por um acidental clique do mouse, acabou sendo conduzido a uma página desconhecida, onde havia uma enorme lista de links de blogs sobre os mais variados assuntos. Seus olhos foram imediatamente atraídos por uma palavra – “lagartixa” – em um dos links. Clicou ali e a tela foi preenchida por um texto que, ele concluiu, devia ser um fragmento perdido de um texto maior. Retornou à tela anterior, onde estavam os links, e, ao percorrer mais atentamente a lista, achou um outro endereço eletrônico: http://www.oanodalagartixa.com. “O ANO DA LAGARTIXA”, em letras bem grandes, surgiu na tela do computador. Ao acessar a página seguinte, percebeu que aquele era o título do início do texto que agora estava a sua frente. “Completamente bêbado, reuni o que encontrei pela casa e levei para o fundo do quintal. Fui interrompido pelos gritos de minha ex-mulher quando tentava acender o primeiro fósforo. De qualquer forma, tudo o que havia escrito até então acabou apodrecendo em algum canto úmido da casa ou se perdendo durante as mudanças de endereço que se seguiram. “Agora eu estava ali, vários anos depois, concluindo que tudo o que tinha escrito após aquela fogueira abortada também era inútil, impreciso, descartável. Mas não pensava em fazer outra fogueira. Andava sóbrio nos últimos tempos e não tinha mais quintal. Tocar fogo numa pilha de papéis no meio da sala de um apartamento poderia ter conseqüências desagradáveis, para mim e para os vizinhos. Decidi deixar que tudo apodrecesse de novo em algum canto…ou se perdesse nas prócomputer.jpgximas mudanças.” Hipnotizados, seus olhos foram devorando linha após linha do texto. Tinha acabado de terminar, quando ouviu o barulho de chaves na fechadura da porta da frente e percebeu que ela havia chegado. _ Tudo bem?, ela perguntou. _ Tudo bem, ele respondeu.

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Capítulo XXVI

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“O Esconderijo”

“Já fazia quase três horas que ela circulava pelo quartinho, esperando que ele chegasse. “Bem, era preciso admitir que, nos dois últimos dias, ele andava meio estranho, quer dizer, mais estranho do que o normal. “Volta e meia saía do quartinho e ia caminhar pela cidade. Depois voltava e permanecia longo tempo olhando para a tela do computador. Aí, de repente, escrevia algumas palavras de “A Coisa”, levantava e bxk4995_quilombo-e-conservatoria2-025800.jpgsaía de novo, ficando fora por um longo período. “Então por que ela estava achando que, daquela vez, não podia estar acontecendo exatamente isso, que ele tivesse apenas saído para caminhar pela cidade e estar demorando um pouco mais do que de costume? “Pressentimento! Embora a ciência nunca tenha se dado ao trabalho de pesquisar, lagartixas têm poderes estranhos no terreno da premonição, intuição e assim por diante. “E se ele realmente tivesse desaparecido? E se ele tivesse colocado as últimas palavras na última linha de ‘A Coisa,’ levantado do computador, aberto a porta e simplesmente saído sem rumo, mas com a convicção de que precisava continuar caminhando? “E outra pergunta lhe veio à cabeça a seguir: caso isso tivesse acontecido, onde ele já estaria àquela altura? “Desceu do teclado do computador e foi até a soleira da porta. “Ficou olhando o quintal. A grama alta estava molhada da chuva fina que caía há horas. “Fazia um pouco de frio. “Olhou novaseres.jpgmente para dentro do quartinho. Sentiu vontade de voltar lá pra dentro, onde continuaria quentinha e protegida. “Mas fez o contrário. “Mergulhou na grama molhada e também sumiu. “Precisava encontrá-lo.” Embora nunca tivesse lido nada mais idiota do que aquela história sobre um sujeito que conversava com uma lagartixa, ele sentia uma estranha identificação com aquelabob-dylan1965.jpg baboseira toda. Era como se, de algum modo, fosse também um personagem daquela história maluca. Talvez por isso tenha lido e relido várias vezes aqueles parágrafos finais, perguntando-se para onde teria ido o autor de ‘A Coisa’ e se a tal lagartixa tinha conseguido encontrá-lo. E afinal, quem teria escrito aquela história, já que não havia nenhuma indicação de autoria em nenhum lugar. “O Ano da Lagartixa” era apenas um texto anônimo “flutuando” na rede. Não foi nenhuma daquelas visões de lugares específicos da cidade que o levou para a rua naquele dia. Apenas uma necessidade incontrolável de sair de casa. Não verdade, estava obcecado pela idéia de saber onde tinham se enfiado o tal escritor fantasma e a sua lagartixa falante, obsessão que, ele sabia, não tinha o menor sentido. Talvez uma longa caminhada o fizesse esquecer daquilo tudo. Como se acostumara a fazer nos últimos tempos, deixou que seus pés conduzissem seu corpo, sem pensar para onde estava indo. Caminhou por quase duas horas sem a mínima noção de direção. De repente, percebeu que conhecia aquelas ruas.

ruas.jpgEstava próximo ao porto.

Embora não passasse por ali há muitos anos, sentia agora uma estranha sensação de familiaridade com o local, como se soubesse exatamente para onde estava se dirigindo. A sensação de familiaridade tornoescadas.jpgu-se mais forte ainda no momento em que começou a subir os degraus daquela escada de madeira que rangia a cada movimento dos seus pés. A escada levava a um corredor comprido, com portas iguais de cada um dos lados. Ao chegar ao fim do corredor, virou à direita e deparou-se com outra escada, menos alta que a primeira. Chegando lá em cima, viu um outro corredor, também ladeado por portas iguais de ambos os lados.

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Estava mais ou menos no meio desse segundo corredor quando percebeu que uma das portas estava entreaberta. Hesitou um pouco, mas sua curiosidade foi maior. Coporta-aberta-andre-boto.jpgm uma das mãos começou a empurrar lentamente a porta. O quarto estava vazio. Havia apenas uma cama, com os lençóis desarrumados, uma pequena e velha geladeira num canto e uma mesa cheia de papéis espalhados em cima. Completando a mobília, um computador. quarto.jpg Quem quer que vivesse ali era bem descuidado. Além da porta entreaberta e das luzes acesas ainda durante o dia, o computador também estava ligado. Ele percebeu que havia algo escrito na tela do monitor e se aproximou para ver o que era. computer2.jpg“Não sei pra quem estou escrevendo isto, nem mesmo se alguém vai ler isto. Mas é o seguinte: estou caindo fora outra vez, em busca de um lugar que realmente me inspire a escrever o meu livro. Confesso que aqui, neste quarto de hotel caindo aos pedaços, eu quase consegui. Mas os velhos fantasmas voltaram e me atormentar e, no final, eles venceram de novo. Desta vez, não somente queimei todos os originais que havia imprimido na lan house/puteiro aqui da esquina. Também deletei tudo o que encontrei no computador. Acho que ainda deve ter sobrado alguma coisa perdida on line por aí. Mas isso não importa. Tudo o que escrevi até hoje não tem mais sentido nenhum. Quero recomeçar do zero, mesmo admitindo que já estou um pouco velho para isso. Contudo, é a minha única alternativa, isto é, se não achar que ainda tenho uma chance, melhor desistir, e eu ainda não estou pronto pra isso, quer dizer, pra desistir. Vou continuar tentando. E se, por acaso, eu nunca conseguir escrever o meu livro, que sabe se, nessa busca, eu não encontro o meu esconderijo perfeito!” Ao terminar de ler o texto na tela do computador, sua cabeça doía e seu coração batia aceleradamente. Parecia também não haver ar suficiente naquele quarto e ele sentiu que começava a sufocar. Tudo foi ficando escuro e ele teve certeza de que ia desmaiar.

76_escuro.jpg

_ Você está bem, cara? Nunca tinha visto aquele sujeito, mas ele parecia querer ajudá-lo. _ Estou bem, acho. O que aconteceu? _ Eu é que pergunto. Quando entrei aqui, você estava desacordado no chão. Coloquei você na cama e você ficou uns 10 minutos apagado. Já estava pensando em chamar uma ambulância. _ Não precisa ambulância, eu estou bem. _ Quer dizer que você está pensando em ir embora? _ Como assim? _ Enquanto você estava fora do ar, eu li o que você escreveu lá no computador. _ Não, não, aquilo não fui eu que escrevi. Foi o sujeito que morava aqui. _ Mas você é o sujeito que mora aqui, faz tempo. _ Não, você não está entendendo. Quando eu cheguei, aquilo já estava lá, na tela do computador. Eu não sei direito como vim parar aqui. Saí de casa e vim andando, quando me dei conta estava aqui, neste quarto. E pelo entendi, acho que o sujeito que morava aqui já foi embora.mmmm.jpg _ Olha, você não está legal, cara. É melhor você descansar mais um pouco. Vou deixar você descansando e daqui a pouco eu volto. 3.jpgQualquer coisa me chama. _ Eu não posso ficar aqui, preciso ir embora. Você não entende? Eu não sou quem você está pensando. Tentou levantar-se da cama, mas tudo começou a ficar escuro de novo. _ Tá vendo, cara. Você ainda tá bodeado. Fica aqui deitado e fim de papo. Daqui a pouco eu volto e a gente conversa melhor. Sem a mínima condição de reagir, viu o homem que o havia socorrido se dirigindo para a porta do quarto. Então resolveu perguntar: _ Como você se chama? _ Aí, meu Deus. É Ronaldo, porra! Você sabe que é Ronaldo, deixa de onda! rosto.jpgApesar da tontura e da tremedeira, notou que o homem que dizia chamar-se Ronaldo trancou a porta pelo lado de fora, certamente para impedir que ele fugisse. Ficou deitado, olhando para o teto e tentando descobrir a ponta de algum fio que o ajudasse a começar a desenrolar aquele novelo de puro caos que tinha substituído seu cérebro dentro de sua cabeça. De repente, ouviu o ruído de alguma coisa se mexendo no chão, bem ao lado esquerdo da cama. Girou a cabeça com dificuldade, mas não havia nada ali, além das tábuas gastas e sujas do assoalho. Já estava quase adormecendo quando outro ruído, dessa vez à sua direita, chamou sua atenção. Girou novamente a cabeça e reparou que havia alguma coisa em cima da velha geladeira no conto do quarto. A coisa se mexeu e ele imaginou que fosse um rato. Mas não era um rato, era outra coisa. De onde estava, com a cabeça enviesada e latejando, não conseguia enxergar direito, mas aquilo, em cima da geladeira velha no canto do quarto, parecia…uma…lagartixa.lagartixa11.jpg Aliás, pensando bem, ele tinha uma vaga idéia de que estar ali, meio vivo, meio morto, em cima daquela cama, naquele quarto de hotel caindo aos pedaços, tinha algo a ver com uma lagartixa. O resto era um túnel escuro e sem fim. images.jpg _ Eu disse que isso ia acabar acontecendo, não disse? A lagartixa, em cima da velha geladeira, no canto do quarto, agora estava falando. Ele suava frio, tremia, mergulhava cada vez mais no túnel escuro sem fim. O fundo do oceano, as entranhas da terra, o vácuo do espaço, o éter… _ Acho melhor a gente ir até o pronto-socorro. Você está meio azul. Aquela voz distante o trouxe de volta. O homem que dizia chamar-se Ronaldo estava novamente ali, na sua frente, parecendo preocupado com ele. _ Não, eu já estou melhor. Eu apenas cochilei um pouco, mas já estou bem melhor, Ronaldo. O homem que dizia chamar-se Ronaldo pareceu tranqüilizar-se com o fato de ter sido chamado pelo nome que dizia ter. _ Bom, parece mesmo que você está melhor. Seja lá o que aconteceu, o surto parece ter passado. Por que você não toma um banho? Você está encharcado de suor. _ É uma boa idéia, vou fazer isso sim, vou tomar um banho. _ Ok! Ah, ia me esquecendo. Gostei daquele negócio que você me deu pra ler. _ Que negócio? _ Aquele negócio chamado “Esconderijo”. Interessante. Continua escrevendo que tá legal, cara. _ Hã, falou…Escuta, você já viu alguma lagartixa por aqui? _ Lagartixa, não, por quê? _ Por nada, por nada, não. _ Tudo bem, se cuida então. Qualquer coisa, caso você tenha esquecido, eu continuo morando no último quarto do corredor. Tchau! O homem que dizia chamar-se Ronaldo foi embora e, dessa vez, deixou a chave da porta pelo lado de dentro. Embora tivesse dito que ia tomar um banho, ele permaneceu deitado. Estava muito cansado para fazer qualquer coisa, a não ser ficar ali naquela cama, mexendo-se o mínimo possível. Estendeu a mão e apertou o interruptor da luz. quarto.jpg No escuro, ouvia ruídos de alguma coisa se movimentando sobre as tábuas do assoalho, às vezes a sua direita, às vezes à sua esquerda. Dane-se, continuava cansado demais para fazer qualquer coisa, a não ser ficar exatamente onde estava, mexendo-se o mínimo possível, pensando o mínimo possível, respirando o máximo possível. Por aquela noite, aquele quarto era um esconderijo perfeito.

FIM DO SEGUNDO RABO

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16 Comentários leave one →
  1. oanodalargartixa permalink*
    maio 14, 2007 11:40 am

    Zé naum sabia que tava taum bom! fikei surpresa pra caramba!
    naum sei nem o que comentar to em transe
    depois mais tarde a noite falo ao vivo com vc que é o jeito que eu mais gosto
    olhando nos teus olhos te amo por isso tambem milhões de bjos tua Ana

  2. oanodalargartixa permalink*
    maio 14, 2007 5:51 pm

    Vindo de você, é mais que demais!

  3. maio 16, 2007 2:11 pm

    show de bola, vou dar uma garibada na capa

  4. oanodalargartixa permalink*
    maio 16, 2007 6:16 pm

    Aguardo ansiosamente a sua garibada, Denis!

  5. Eloy Toledo permalink
    maio 18, 2007 10:25 am

    18,05,2007. Agora está ótimo. Creio que não haverá quem reclame. E não haverá, também, quem escreva tão a meu gosto. Parabéns. Abraços do Kota Kapuka.

  6. Eloy Toledo permalink
    maio 18, 2007 10:28 am

    Já disse: não há o que acertar, agora. Essa lagartixa é o máximo. O mais interessante é que me sinto amigo dela (da lagartixa), muito íntimo, aliás.Abraços Kota Kapuka.

  7. oanodalargartixa permalink*
    maio 18, 2007 10:40 am

    Valeu, Kapuka. Abraços pra você também!
    Corvo Bêbado e Gazela Cinzenta.

  8. Wélo permalink
    maio 19, 2007 11:44 am

    Ola Zé:
    Li até o nono capítulo. Lembrei dos meses que fizemos aquelas reuniões na Praça Maua. Cada reunião para mim era mais um capítulo. Nunca ajudei alguém a fazer um inventário, de uma forma tão maluca e tão legal. O mesmo agora sobre a lagartixa. Muito bom.
    Um abraço para vc. e para a Ana.
    Wélo

  9. oanodalargartixa permalink*
    maio 19, 2007 12:55 pm

    Valeu Wélo! Um abraço também pra vc. Aquelas reuniões foram, sem dúvida, uma das coisas mais importantes da minha vida.

  10. Sula permalink
    junho 15, 2007 5:03 pm

    Ta dando o que falar hein papi,rsrs…acho que estas atingindo vários com sua Tixa…Bjos te amuuu

  11. Sula permalink
    fevereiro 13, 2008 1:12 pm

    To com saudade de vc e da sua Tixa, rsrs…mil bjos

  12. Zé Rodrigues permalink
    março 4, 2008 2:51 pm

    Boa notícia, mano. Ainda ontem pensei na lagartixa. Por onde ela andaria? Taí. Quanto mais agente humaniza dos bichos, mais se humaniza. Abraço. Zé.

  13. janeiro 9, 2009 7:45 pm

    OÊ, OÊ,
    ei oji-san, comprei seu livro, oji-san.
    vou ler quando chegar.
    sayonara oji-san

  14. Ro Sventkauskas permalink
    setembro 19, 2009 3:07 am

    perfect dear…wait 4 Ur answer…kissssss

  15. Renato Alonso permalink
    outubro 28, 2009 2:09 pm

    Peguei carona na sua lagartixa e retomo velhos contatos com velhos amigos. Saudades de vc e de todos da minha Santos. De quem foi… mas volta.
    Abraço
    Renato

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